Uma noite no sótão: com os desenhos (ou os sonhos?) de Fellini

Apesar de Amarcord, apesar da Gradisca, apesar do grito de guerra io voglio una donna, nunca fui nem sou “um felliniano”, seja lá o que isso for. Mas os desenhos, senhor, os desenhos de Fellini dão a volta à cabeça de qualquer um.
Descobri-os em 1990 e, em 2007, alguém, talvez eu mesmo, conhecedor das minhas taras, deu-me, ou dei-me, o exuberante “Le Livre de Mes Rêves” que a Flammarion publicou com os provocantes desenhos dele. Fui ao sótão e encontrei um texto que publiquei em setembro de 90 no velho “Expresso”. Segue para bingo, agora em versão abregé.

 A oficina de Fellini

Hipótese teórica: Fellini não nasceu com um lápis na mão. Ponto assente: antes de dizer «mamã», «papá», Fellini aprendera já a agarrar num lápis e a garatujar. Fellini desenha tudo: impressões, caricaturas, uma visão, um sonho. Há quem diga, e diz bem, que as imagens dos seus desenhos são hipérboles do real, irónicas e grotescas. As exposições têm circulado um pouco por toda a Europa e a relação com os seus filmes é óbvia.
Os desenhos de Fellini não constituem, se os relacionarmos com cada filme que os motivou (ou que eles motivaram), um «story-board», como o foi o conjunto de desenhos de Robert Boyle, inspirados pela tela de Munch, O Grito, e que serviu de suporte a Os Pássaros de Alfred Hitchcock. Hitchcock sempre se defendeu com «story-boards» que outros desenhavam e que ele posteriormente aprovava. No caso de Os Pássaros por maioria de razão, o que explica parcialmente o rigor visual da sua composição.
Kurosawa também. Quando o cineasta viu sucessivamente recusados os projectos de Ran e Kagemusha, decidiu desenhar. Era, pensou, a última possibilidade de comunicar a sua visão. Funcionou. Os financiamentos apareceram e, durante a produção, a equipa técnica estimulou-o a desenhar cada plano, para servir de referente visual. Os desenhos de Kurosawa não se confundem com o «story-board» tradicional do cinema americano. São aguarelas, pastéis, desenhos a lápis e a tinta-da-china. Os 60 desenhos que fez para Sonhos pretendiam comunicar as suas intenções à equipa técnica e, como afirma Kurosawa, «ajudar-me a mim mesmo, porque no acto de desenhar tinha de desenvolver imagens concretas de guarda-roupa, de cenário, de atmosfera – tudo aquilo que vai ficar no enquadramento».
A confessada inspiração de Kurosawa foi o método de Eisenstein. O autor do Couraçado Potemkine servia-se do desenho de uma forma muito funcional: o desenho era a etapa intermédia entre o argumento e as filmagens. Um método que implicava a existência prévia de um argumento definitivo.

No filmes de Fellini nada é de ferro. Muito menos o argumento que tanto pode determinar os desenhos do cineasta, como pode sofrer transformações radicais, receber nova personagem, um novo episódio, inspirados por uma caricatura acabada de criar. Os desenhos estão em simbiose com uma criação permanentemente instável e redefinível. Acompanham o argumento e prosseguem durante toda a rodagem. São, no fim, um diário criativo de cada filme. O método de Fellini, acrescente-se, é sintético: um desenho tanto pode isolar uma só personagem, como exprimir todo o «soggeto» do filme. Desenhar é uma forma de higiene mental para o confronto com o cenógrafo, com o figurinista e com o director de fotografia. Mas é também «uma forma de me agarrar a qualquer coisa, por minúscula e insignificante que seja, que veladamente me diz algo sobre o filme».
Foi no final dos anos 30, na revista humorística «Marc Aurelio», que Fellini publicou os primeiros desenhos. Ainda antes de se imaginar cineasta, definiu um estilo que se mantém inalterável. Curioso, há uma saudável distância entre o estilo dos desenhos e o estilo dos filmes que lhes corresponde: «não há Canaletto nos desenhos de Casanova, e não há Belle Epoque nos desenhos de O Navio», escreveu Pier Marco de Santi, o melhor (o único?) analista desta faceta do artista.
À intenção caricatural permanente o desenho felliniano junta o lado circense, popular e sentimental, particularmente testemunhado pela cor. Pelos olhos dentro, mesmo que os fechemos, entra a recorrência obsessiva da anatomia feminina. Embora não lhe custe admitir que um dia o chamem para tratamento, Fellini, para que não haja dúvidas, é o primeiro a jurar pelo valor primordial e obsessivo dos seus desenhos: «Este quase inconsciente e involuntário garatujar, que me leva a fazer inesgotáveis desenhos de caricaturas que me olham fixamente de cada ângulo do papel, este esboçar automático e obsessivo de hipersexuadas anatomias femininas, de decrépitas caras de cardeais, de chamas de velas, e sobretudo de mamas e de rabos, e outros infinitos gatafunhos e hieróglifos, cheios de números de telefones, endereços, versos delirantes, contas dos impostos e horários de encontros; em suma, toda esta pacotilha gráfica, invasora e incansável, que faria a felicidade de um psiquiatra, talvez seja uma espécie de trilho, de fio, no fim do qual me encontro com os projectores acesos, no estúdio, pronto para o primeiro dia de trabalho … »

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Uma noite no sótão: com os desenhos (ou os sonhos?) de Fellini

  1. talvez definhasse se não desenhasse …

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Bem, esse livro deve ser cá um delírio!
    Gostei muito da divergência do modelo Eisenstein/Kurosawa: objectivos muito diferentes, realmente.

  3. Hoje uma cena, não de uma bela dama, mas de uma bela pancadaria, antes de o karaté ter-se disseminado nos movies. No passado, presente ou futuro, não há opugnador que não mande o seu mawashi ou o seu zuke. E mais, esquece Camões, Pessoa ou O’Neil, quem metaforizou a história lusa foi John Wayne nesta bagarre: o pedir “emprestado” a plataforma portátil (a Lusitânia pede dinheiro emprestado), cena de pancadaria, protegida pelos índios nos montes (todos, nórdicos, alemães, quem tiver braços, nos batem, mas os nossos parceiros internacionais velam pelo fairplay), depois a festa da descoberta de petróleo (a nossa boa execução orçamental, os sinais positivos da economia por todo o lado), depois outro contratempo, a conduta comprada pelo bad guy (afinal os indicadores otimistas afundam-se por razões internacionais):

    • manuel s. fonseca diz:

      Taxi, a sessão de pancadaria é de alto gabarito. Não é única do Wayne… Há outra homérica no McLintock Mud Brawn a merecer vénia.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel só me lembro de uma entrevista muito longa do Fellini (que tenho em livro), em que ele dizia que tudo começava com uma folha em branco que ele depois preenchia com desenhos de “mamas e nádegas”…sempre me pareceu um bom princípio para tudo…e que desenhos estes!

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