Uma noite no sótão: com os irmãos Marx

As pin-ups

Já não vou para novo e à medida que se vai deixando de ir para novo há coisas a que deixamos de achar tanta graça.
Já fui campeão do absurdo dos irmãos Marx. Passei agora uma noite no sótão com eles. Pareceu-me muita gente para um sótão tão pequenino. Mas como é que se pode deixar de gostar de uns tipos que nos fazem rir?

 O desespero de Marx

«Fique a saber que é a minha mais cobiçada pin-up»
T.S. Eliot, em carta, a agradecer foto de Groucho Marx

«O facto do senhor nunca ter sido convidado para protagonista de filmes sexy, é uma coisa que só posso atribuir à estupidez dos directores de casting
Groucho Marx em carta a T.S. Eliot

Como é que alguém se consegue rir com os irmãos Marx! Aquilo que em Charlie Chaplin se pressentia já – uma espécie de condescendência perante a crueldade – torna-se, em filmes como Monkey Business, Duck Soup e A Night at the Opera, a regra objectiva de construção das personagens, em particular das personagens de Groucho, definitivamente o mais marxista dás irmãos. Propósito tanto mais evidente quanto a única e inescapável meta das personagens de Groucho é essa figura sintética que dá pelo nome de sexo & dinheiro.

Objectivos tão crus como sexo & dinheiro pressupõem uma ambivalência que graças a Deus nunca faltou a Groucho: sofisticação por um lado e, por outro, uma evidente imunidade no confronto com todos os sistemas de valores que fazem, se respeitados, qualquer pobre de Cristo ser olhado com bons olhos pelos seus semelhantes. Ou seja, Groucho herdara, como escreveu David Thomson, algumas das virtudes de galã de Adolphe Menjou, mas a radicalidade dos seus propósitos convertia-o numa «versão catastrófica», próxima, penso eu, da personagem que João César Monteiro incarnou nas Recordações da Casa Amarela. João de Deus Marx, com vossa licença.

Não é difícil verificar que o resultado da soma desta dupla personalidade faz do Groucho Marx uma das mais nobres figuras da galeria dos desesperados do cinema americano. Tanto ou mais do que o Monsieur Verdoux de Chaplin. Tanto ou mais do que as criações sádicas de Eric von Stroheim.

Groucho, Groucho … e os outros? À falta de marcas tão reconhecíveis como o famoso charuto ou o bigode e incapazes de sustentar as réplicas absurdas de Groucho, os outros irmãos, Harpo, Chico (e às vezes Zepo) foram os «clowns» da equipa. Devemos-lhes a melhor tradução visual que a anarquia já teve. O que explica a vénia do movimento surrealista.

Os Marx eram descendentes de judeus alemães. Nasceram na viragem do século e foram empurrados pela mãe – actriz de vaudeville – para o palco. Formaram, juntamente com a mãe e uma tia, as «Seis Mascotes Musicais». Os seus números foram evoluindo e os quatro irmãos já estavam sozinhos quando se tomaram num verdadeiro culto da Broadway pelo seu trabalho no «show» I’ll Say She Is. Seguiram-se duas comédias – The Cocoanuts e Animal Crackers – que lhes firmaram a reputação.

Hollywood convenceu-os, então, a transformar as peças em filmes. A Paramount mais concretamente. Os seus primeiros filmes não foram sucessos imediatos. Mas tanto Monkey Business como Horse Feathers, ambos com argumento de S. J. Perelman, já foram à época olhados com respeito. As memórias de Perelman não são, todavia, as melhores. Afirma que os irmãos elevaram o espírito conspirativo a um grau tal que Maquiavel se ajoelharia aos seus pés. E acrescentou que eram tão falsos e caprichosos que preferia ser lançado às galés do que «trabalhar com aqueles filhos da puta outra vez».

Et pour cause, a sorte bateu-lhes à porta. Tiveram Leo McCarey como realizador no filme seguinte, Duck Soup, provavelmente o seu cometimento mais brilhante. Que foi, pasme-se, um insucesso de bilheteira. Talvez tenha sido essa a razão que levou a Paramount a abrir mão da família, deixando-os ir para a M. G. M., onde Irving Thalberg lhes deu rédea larga – autorizou-os a fazer uma digressão para testar material- com os bons resultados que A Night at the Opera atesta.

Entretanto, depois de três anos de sucessos, Irving Thalberg morre e os irmãos Marx começaram a não se sentir nada bem. Resolveram fazer um último filme para a despedida: The Big Store. Cinco anos depois, em 1946, uma conveniente oferta de percentagem nos lucros fê-los regressar com a Night at Casablanca. Três anos passaram e novo regresso, em Love Happy, com Harpo, protagonista, a tentar ser poético à maneira de Chaplin. A América nunca mais voltaria a ter cómicos tão absurdos e tão audaciosos. Por isso fizeram fortuna. Ou, nas palavras de Groucho: «Oh, eu percebo, é um tostão aqui, um tostão ali, mas olhe para mim: consegui subir do nada até um estado de pobreza extrema.»

Publicado no “Expresso”, Fevereiro de 1991

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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11 respostas a Uma noite no sótão: com os irmãos Marx

  1. Rita V diz:

    não sei se há Marx que resista a um Benfica – Sporting
    – Viva o Glorioso !!!!!!
    uma boa charutada?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Rita, chego com atraso e agora reparo que o desporto não é o meu forte…. Venha de lá o charuto

  2. Pedro Bidarra diz:

    A dada altura eu queria ser Groucho Marx. Depois passou-me e quis ser Keith Richards. Depois passou-me também.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Eu ainda sou fanático!

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Cena maravilhosa…parece fácil , mas é de génio…it is never what it seems…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      É fácil, Bernardo, é fácil: um espelho que não seja um espelho e uma heteronímia que nunca mais acaba.

  5. pedro marta santos diz:

    Os Marx sabiam-na toda. Já imaginaram se as revoluções se tivessem regido, não por Marx, mas pelos Marx? O mundo seria certamente melhor.

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