Uma noite no sótão: com Wendy Hiller

 

Uma Natureza ilógica, pagã

Estava no sótão quando começou uma tempestade lá fora. Foi ontem à noite, pouco depois das 8 da noite. Uma tempestade lá fora levantou logo uma tempestade cá dentro. Cresceu um nevoeiro no sótão. No olho do furacão vi o rosto de Wendy Hiller: nuvens nos olhos, assombrada lenda na boca, a vertiginosa velocidade de um corpo. Ou ela já era Joan Webster? Assim se fica preso a uma mulher até ao fim duma vida, até ao fim dos tempos. Publicado no Expresso vai para 22 anos, a 13 de Outubro de 1990.

  A Espiral Romântica

Contam-se talvez pelos dedos de uma mão os filmes onde há uma Natureza de ventos e marés, águias e raposas, colinas, cascatas e nevoeiros. O filme chama-se I Know Where I’m Going. Realizaram-no Michael Powell e Emeric Pressburger e é uma súmula visual dos temas do Romantismo literário.

I Know Where I’m Going começa, como Powell e Pressburger queriam e o título exigia, em linha recta. Em dois minutos de montagem e comentário irónico, nasce literalmente uma personagem e determina-se-Ihe o carácter. Joan Webster é uma rapariga que sabe para onde vai: vai para a ilha perdida de Kiloran, na Escócia. Joan Webster é uma rapariga que sabe o que quer: quer casar-se com o administrador rico da Imperial Chemicals. São apenas dois minutos de biografia mas, do berço à vida adulta, a determinação de Joan é uma prova insofismável de espírito prático e moderno. Em linha recta é-nos mostrado o escorço biográfico: é ainda em linha recta, e a uma velocidade cada vez mais vertiginosa, que Powell e Pressburger nos fazem seguir, de Londres a Kiloran, o minucioso percurso de Joan, que o noivo lhe traçou no papel timbrado dessa Imperial Chemicals que dirige.

Mas de repente há um muro. Brutal, seco e incontornável. O que parecia ser a cavalgada imparável da vontade humana – reforçada no plano visual e sonoro pela imagem obsessiva do comboio (rodas, carris, apito) – detém-se no porto onde Joan deveria, última etapa, apanhar o barco para Kiloran. Um espesso nevoeiro impede-a de partir e um golpe de vento atira ao mar o papel do itinerário.

No filme, na sua realização, muda, então, o «clima» e a geometria. Em vez das diagonais que sublinhavam a determinação de Joan, abre-se a linha de horizonte e aumenta a profundidade de campo. Substituindo-se à ordem e à conveniência dos ambientes urbanos, a Natureza impõe uma desordem caprichosa.

A partir deste ponto I Know Where I’m Going é um filme único na história do cinema. A associação entre os humores da Natureza e a mudança da personalidade de Joan é óbvia. O nevoeiro, o vento, a tempestade no mar, sucedem-se, impedindo a partida dela: à desordem dos elementos corresponde a desordem dos sentimentos da protagonista, desenhando-se a espiral que é a figura última do filme, soberbamente trabalhada por Powell e Pressburger numa sequência, um inenarrável remoinho, que em definitivo afasta o barco de Joan da ilha de Kiloran e Joan da linha recta que parecia ser a sua vida e a sua vontade.

Se o Romantismo precisou algum dia de tradução visual, encontrou-a em I Know Where I’m Going. Não só pela exaltação primitiva da Natureza que arrebata Joan, mas igualmente pelo papel atribuído à imaginação e ao irracional, pela convocação de maldições à maneira de Walter Scott, como Powell sublinhou, pela ênfase dada à indomável liberdade de espírito individuais no quadro de comunidades de valores tão ancestrais como profundos.

I Know Where I’m Going nasceu num contexto peculiar. Com este filme, que deveria formar um díptico com A CanterburyTale, os autores pretendiam, em plena II Guerra Mundial, prosseguir uma cruzada contra o materialismo, sublinhando valores espirituais que, indirectamente, davam razão ao esforço de guerra contra o nazismo. Para além dessa propaganda indirecta, que culminará já depois da guerra em A Matter of Life and Death, I Know Where I’m Going é sobretudo o elogio de um espírito telúrico, ilógico e pagão, ou pelo menos exótico, impregnado pela lenda, pelo melodrama e mistério, contra um modo e visão da vida urbano, pragmático e materialista.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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5 respostas a Uma noite no sótão: com Wendy Hiller

  1. G.Rocha diz:

    Manuel mais uma vez lhe agradeço as suas “oitavas artes”… porque o cinema é a sétima arte, mas a sua escrita é decididamente a oitava! 🙂
    É nestas alturas que tenho “pena” de ser novita…. pois que há filmes que não conheci… e não me marcaram e não me tornaram poética como ao Manuel 🙂
    Adorei!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Não tenha pena de ser “novita”, por amor de Deus. A poesia, como lhe chama, acaba sempre por vir: como diria o outro, amarga-se pela vida fora. Obrigado em todo o caso pelos seus simpáticos exageros.

  2. Panurgo diz:

    Já valeu a pena ter acordado. Não é todos os dias que se tem a sorte de ler um texto destes enquanto nos corre pelos ouvidos um disco de um outro Powell

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que bonito texto Manuel, parece fácil poder seduzir sem revelar demasiado, substituir as imagens por palavras cuidadas…fica-me a vontade, violenta e energética de querer ver o filme ( now!!!) e de sentir as tempestades e os nevoeiros, reais ou fictícios…

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