Xixi no limoeiro e nitroglicerina no depósito!

Já sei, toda a gente viu e não é nada de extraordinário.
Sim, é verdade,  como cinema tout court (ou tout comprido, tanto faz) este filme não será nada de extraordinário – mas tem certamente algo de extraordinário.
Comecemos por aquilo que os cinéfilos da casa (e não só) acharão por certo sacrilégio mergulhado na mais profunda e insensata ignorância: declaro que num filme o que me é mais importante não são a história ou o trabalho do realizador, mas sim o desempenho dos actores; mas é claro que se tudo aparecer por junto a coisa compõe-se muito melhor. É um bocadinho como no futebol: um grande treinador pouco consegue com uma má equipa; já o contrário tem mais sucesso (só por aqui já se tem uma ideia do que eu sei de cinema).
Mas vamos falar da história.
Começa com o reformado Burt Munro a acordar no catre que lhe serve de cama na sua modesta oficina mecânica, de onde se levanta para ir fazer um xixi no exterior, espécie de pátio de terra batida e capim, onde pontifica um limoeiro. Burt acha que xixi faz bem ao limoeiro e rega-o à medida das suas necessidades – e quem somos nós para o contradizer. Dentro, na oficina, repousa entre sombras e reflexos metálicos o corpo longo, velho e tosco mas ainda forte, de uma velha motocicleta de 1920. Por cima desse corpo, numa prateleira carregada de velhos pistons estragados, lêem-se as seguintes inscrições:  “Offerings to the God of Speed”. São restos de pistons que o próprio funde e refunde até obter a perfeição pretendida.
O filme passa-se nos Sessenta e o sexagenário Burt Munro, um reformado com problemas na próstata e um coração não muito afinado, tem um sonho improvável: ir até aos Salt Lake Flats, no Utah, com a sua velha moto de 1920 – bastante transformada, é certo – tentar bater o recorde mundial de velocidade instantânea para motos até 1000 cc.
Ele quer ir ao Utah mas está na Nova Zelândia, e quer bater um recorde de velocidade em 1967 numa geringonça de 1920.
É esta a história.
Depois é todo um descomunal discurso de boa-disposição radial, com angariação de fundos para a empreitada, uma viagem de navio onde Munro é cozinheiro e conselheiro espiritual da tripulação, a chegada a uma América de bordel de terceira categoria em Hollywood (mas com um concierge travesti de primeira ordem), e um resto atribuladíssimo de viagem onde só não há cowboys porque índios há-os e bons.
É claro que Burt Munro, sem inscrição para qualquer corrida, fugindo de mil maneiras às exigências burocráticas da prova (mas aqui já com a cumplicidade incondicional dos românticos da velocidade americana, arrasados de admiração por aquele velho semi-louco), conseguiu com a sua velha Indian Scout – de pneus engraxados para parecerem mais novos – atingir a inacreditável velocidade de 327 km/h e estabelecer um recorde nunca mais ultrapassado.
O filme é biográfico, Burt Munro existiu realmente – embora alguns críticos jurem que ele não fazia xixi no limoeiro e ninguém garanta a pés juntos que ele deitou de facto uma pastilha de nitroglicerina para cardíacos no depósito da sua incrível Indian, no dia em que conseguiu o seu primeiro recorde. Mas este recorde existe, e foi conseguido mais ou menos assim.
O actor é Antony Hopkins.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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16 respostas a Xixi no limoeiro e nitroglicerina no depósito!

  1. fernando canhao diz:

    Os natais sao sempre uma complicacao, as familias nao se entendem, as putas das prendas mesmo as caras teem sucesso relativo e fundamentalmente passar a epoca natalicia drogado a vodka abala-me a saude e ainda por cima estava fora de Portugal. Perante tal descalabro de renas sem matricula e Santa’s Little helpers desgovernados a solucao era evidente, afastar me ainda mais do torrao natal. A luz dos meus olhos concordou (condicao sine qua non) e ala que faz tarde para casa de amigos ainda mais longe. Foram dias de tintos importados e o mais que acolita, a meu ver escolhe-se o vinho e depois se ve o menu.
    Creio que na tarde natalicia o meu amigo me diz, as pequenas estao entretidas oh Canhao vamos mas e ver o filme do Munro. Foi tinto e algum chocolate belga, preto que se fartava. Contrariando a maxima de que um Eng. nao chora vem-se, acabei de lagrima no canto da vista, furtiva mas real. Que rica fita, que bela moto, grande Hopkins o que ele se deve ter divertido a fazer de Munro.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Isso é a inveja que nos deixa: o que ele se deve ter divertido a fazer aquilo!
      Já vi o filme umas três vezes – deram-mo de prenda de Natal…

  2. Ufa! A princípio pensei que tivessem reaberto o Limoeiro e a conta energética lusa seria reduzida, mas afinal é um… filme.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Abrir o Limoeiro até podia não ser mal pensado, Taxi, mas é realmente só um filme.
      Mas vale a pena ver.

  3. Pedro Norton diz:

    Eu nem sou de motas, ó António. Mas fiquei com uma curiosidade do caraças!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Pedro, satisfaça a sua curiosidade.
      Legendado chama-se ‘Indian, o grande desafio’, é de 2005, e é de morrer calmamente a rir…

  4. Olhe eu a correr de patins a ir alugá-lo numa videomotor perto de mim … swwwifffffssshhhh

  5. pedro marta santos diz:

    António, tens toda a razão: se não vemos filmes por causa dos actores, vemo-los porquê? O Hopkins é um portento. Sempre foi, os realizadores e os directores de casting é que andavam distraídos. Basta observar a arte minimal do homem desde os anos 70, em coisas como o “Audrey Rose” do Robert Wise ou o interessantíssimo “Magic”, escrito por William Goldman. Se me permites, e se tiveres pachorra, aconselho-te a ver “A Rua Do Adeus” (84 Charing Cross Road) e “Dois Estranhos, Um Destino” (Shadowlands). O Hopkins está inesquecível em ambos.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    O Hopkins é o MEU actor, e desses que falaste só vi o ‘Dois estranhos’ – o que é óptimo pois quer dizer que tenho mais coisas para ver.

  7. manuel s. fonseca diz:

    Nunca vi o filme, mas fiquei fã do Munro e acho que vou arranjar um limoeiro

    • António Eça de Queiroz diz:

      Fazes bem, parece que é óptimo para a bexiga.
      Já agora tenta ver o filme, faz bem ao coração.

  8. MJC diz:

    Vou tentar arranja-lo para o ver rapidamente.

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Em tempos de falta de esperança vale sempre a pena lembrar que quando há vontade tudo se consegue…ou pelo menos podemos ir ao cinema ver o que poderia ter acontecido (neste caso pelos vistos aconteceu mesmo)…deixou-nos com todo o apetite…

    • António Eça de Queiroz diz:

      É Bernardo, ali a esperança é talvez mais uma enorme teimosia, mas o facto é que funcionou.
      O filme é giríssimo e tem cenas abençoadas pessoalmente pelo Deus do Riso.

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