A culpa é do sol

Só pode ser do sol. Do brilho do sol a espraiar-se pela varanda fora num branco imaculado. Tão branco, tão imaculado, quanto o foi toda a minha triste e cinzenta vida. Uma vida totalmente branca de vazio. Sem mácula de emoção. Sempre a mesma imagem, a da vida que não tive. A luz a entrar na minha alma, a querer mostrar-me o passado que não quis ter. Como tudo poderia ter sido diferente se não me tivesse confinado bem cedo ao negro que ainda hoje me cobre de culpa. Como tudo poderia ter sido diferente se tivesse ousado. Vejo-me, aqui na varanda, eu mesma, com pouco mais de vinte anos, no pleno exercício de todas as voluptuosas formas em que a natureza foi tão pródiga comigo. Hoje pergunto – e é sempre aqui na casta varanda e sob este triste brilho que a pergunta me ocorre – porque renunciei. Porque renunciei a todas as promessas com que o meu corpo me tentava, porque as escondi eu, tanto como escondi as minhas madeixas cor de fogo, debaixo do negro manto da vergonha, que só eu, eu e mais ninguém em cinquenta anos do mais devoto sacrifício, me permiti destapar para inconfessáveis vícios solitários. É sempre sob este sol que eu me apareço, bela, loura até mais não, o meu corpo a oferecer-se, ofegante, latejante, aos olhares masculinos que passam lá em baixo. Sou toda vossa. Subam. Tenham-me. Possuam-me. Quero-vos a todos. E como eu me ouço a dizê-lo sem o mais leve sinal de remorso ou arrependimento. Diz-me, tu ó sol que tanto me iluminas, porque não podes fazer voltar para trás estes meus 70 anos de sofrimento e tornares-me bela, jovem e loura de novo. Juro-te que, se o fizeres, me tornarei escrava de todos os desejos masculinos. Juro-te que, se o fizeres, me condenarei até à eternidade a pagar bem alto o tributo do prazer a que fugi toda uma vida. Que injusto és meu sol. Obrigaste-me ao vazio de uma existência vivida em permanente penitência. E agora não me deixas. Não me deixas ser eu outra vez. Tristes são os teus raios que fazem ainda mais escuro o escuro do meu passado.

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É o sol. É o sol que tem este efeito em mim. É o sol que me confronta, aqui na varanda, com o vazio de uma existência em que só há lugar para o prazer. Lá está ela, uma vez mais, a senhora de negro vestida, a apontar o dedo para o pecado a que o meu corpo, o meu insaciável corpo de desejos mil, me condenou. São sempre as mesmas feições, as minhas próprias feições, endurecidas por uma vida de penitência e privação que nunca tive. Sei que terei de esperar, é ela, eu própria, que o diz. É essa a maldição que as minhas voluptuosas formas e as minhas madeixas cor de fogo ditaram: terei de esperar até à provecta idade que a senhora de negro vestida exibe. Só então estarei livre da chama que me escraviza. Da chama que me traz aqui à varanda, dia após dia, para sorver os olhares de cobiça que passam lá em baixo. Da chama que, uma noite a seguir à outra, acolhe entre lençóis os olhares capturados no jogo iniciado horas antes. É sempre aqui, nas manhãs de sol passadas à varanda, na ressaca de mais uma noite entregue aos prazeres do corpo, que ela, a senhora de negro vestida, me aparece. Pergunta-me porquê. E eu não lhe sei responder. Não lhe sei responder senão através do ódio que declaro a mim própria. E do amor que lhe juro quando deste vício do corpo me libertar. A culpa é deste sol que me ilumina. Enquanto me iluminares com os calores que me trazes ao corpo, estarei condenada ao vício. Porque não me entregas já ao futuro, ó sol injusto. Porque não fazes de mim, já, aqui e agora, a senhora de negro vestido.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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21 respostas a A culpa é do sol

  1. fernando canhao diz:

    e a motocicleta encarnada por baixo da menina? Uma Indian Scout tal como a de Munro, Eca e que e Eca.

    • Diogo Leote diz:

      Fernando, então não se percebe logo que é para o Motorcycle Boy que a menina olha? Mas ele não está só. Há uma fila inteira à espera do chamamento da menina. E o Motorcycle Boy é rapaz para se fazer de esquisito, é rapaz para querer levar a mota para o quarto da menina.

      • fernando canhao diz:

        provavelmente. Em cima de uma mota pode~-se pendurar muita coisa. Ao fim de umas semanas nem se dá por ela.

  2. MJC diz:

    Excelente.

    • Diogo Leote diz:

      Obrigado, MJC. Mas não me culpe. Foi o sol. Só me ocorrem estes pensamentos quando ele aparece, aqui na minha varanda.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Um leitor tem de estar preparado para as terríveis armadilhas destes sofisticados narradores. Este – como é que se chama? Diogo, Diogo Leote -, está a tentar confundir-me. Diz e desdiz, vira-me a cabeça à direita e depois vira-me a cabeça à esquerda. Mas eu já o topei. A história verdadeira é a da senhora de negro. Está velha e tem a visão da congelada loura.A loura é a projecção paranóica de uma vida de renúncia. Se houvesse os desfraldados lençóis da segunda história podia lá haver tanta solidão?! O quê? O excesso de volúpia pode ser uma forma de renúncia? Mau… a ver se a gente se entende… o raio da loura…

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, a estas horas da noite, vejo tudo negro. Muitos lençóis haverá por desfraldar, estou certo. Mas eu, enquanto o sol não raia, não me atrevo a ir espreitar à varanda. Fujo das louras imagens que se escondem no escuro.

  4. Teresa Conceição diz:

    Viagem ao passado e ao futuro, qual delas primeiro? Belo jogo com o Tempo, Diogo.
    Gostei muito.

    • Diogo Leote diz:

      Teresa, ainda bem que gostou. A escolha é a vontade do freguês: ou vai para o passado, ou para o futuro, ou deixa-se ficar onde está. Eu, pelo sim, pelo não, prefiro o presente.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Mas as duas não são afinal uma só? A senhora de negro não se revê e de imagina na figura da loura voluptuosa, olhando-a com a nostalgia da experiência vivida? E a loura, na força fulgurante da vida não sonha, de noite e já só, com os anos que virão?

    • Teresa Conceição diz:

      Sonha ou pesadela, Bernardo. Não sei qual é, ou se existe, um ponto intermédio entre estes estados…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, a senhora de negro vê um passado que não teve e podia ter tido. A loura voluptuosa vê um futuro a que ainda não consegue chegar. Cada uma delas é o espelho invertido da outra.

  6. Maracujá diz:

    Excelente texto caro Diogo.
    É como o espelho de Alice’s umas vezes estamos do lado de dentro, outras do lado de fora…

    • Diogo Leote diz:

      Obrigado, caro(a) Maracujá. E, se cada um de nós olhar para o passado, não sobrará uma réstea de arrependimento por algumas das vezes em que não ousámos passar para o outro lado do espelho com medo de não conseguir voltar?

  7. Rita V diz:

    Diogo. Mais um bocadinho e ela saltava … duas numa só … já é um grande vício
    🙂

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