A minha história com Cristiano Ronaldo (I)

 

Tudo aconteceu à beira-rio.

O sol descia. O rio, por mais países cantado que o Tejo, era uma estrada larga para pescadores distantes do fecho do dia. E eu, finalmente, na margem interdita que tinha desejado há 15 anos, quando em reportagem sobre as tribos do ópio no Triângulo Dourado  –  a linha que o Mekong desenha a separar Tailândia,  Birmânia e Laos. Naqueles dias  em trabalho do lado de lá: Tailândia. Desta vez em férias, do lado de cá: Laos.

Entardecer em Thaket, Laos, foto de tc

 
Tinha-me despedido dos até então companheiros de viagem na primeira semana. Finalmente só.  Difícil quando se viaja sozinho conseguir estar sozinho. Para absorver de olhos abertos. E desfrutar dos sorrisos das vendedoras nos mercados, das conversas com os monges no mosteiro budista, das escassas arquitéctonicas provas da passagem dos colonos franceses, dos indolentes cafés para aguarelas na rua principal. Ía despedir-me da poeirenta cidadezinha de fronteira com ar de oeste a oriente, antes de seguir para sul.
 
Escolhi o habitual restaurante ribeirinho onde tinha jantado com os outros naquela primeira semana. Será manifesto exagero chamar restaurante ao grelhador e mesas de madeira em fila sobre a beira do rio. Mas é a melhor vista, e são uma graça as miúdas que ajudam a mãe na grelha com os caranguejos o peixe os frangos. Morenas amêndoas, Brancas de Neve como na blusa.
 
Terão 12, 14, 16 anos? Trabalho infantil parece ser noção desconhecida. Depois da escola, vêm para aqui. Riem o tempo todo, aconselham o melhor petisco, atiram piadas em inglês aos turistas franceses, seniores em busca da Indochina perdida. Não avistei nem ouvi falar de outros turistas portugueses. Afeiçoei-me a elas nestes dias. São efusivas quando me vêem. Estranham ver-me sozinha. Há três clientes asiáticos numa mesa que também. Chamam-me para a mesa deles. Mas speak english? No english. Então que vou eu fazer para aí? Venha à mesma, sozinha não pode ficar.
 
Que seca. A simpatia sem tradução é um esforço de gestos e caretas, risos conversa zero. São 2 laocianos e um vietnamita. Me? Portugal. Portugal?! Istian Onaldo! Ahn? Um deles saca do telemóvel. Pensei que fosse ligar a algum falante de inglês, como os taxistas por aqui costumam fazer. Ele dedilha entusiástico e mostra-me o ecran em ritmo de Bond, James Bond:
“7, Ronaldo 7.”
E repete: Istian Onaldo. Seven. Potugal.
Foi o ponto mais alto de comunicação na mesa naquela noite. Num só lance, do zero ao sete.
 
Portugal, antigo herói dos mares, resumido a herói dos campos. Como já antes Figo, agora é CR o esplendor de Portugal além mares. Do génio múltiplo dos navegadores ao génio solitário na ponta do pé. Cristiano Ronaldo, máquina de marketing,  marca que viaja.
Até aos confins do mundo, em remoto povoado fora de rota. Golo.
 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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10 respostas a A minha história com Cristiano Ronaldo (I)

  1. manuel s. fonseca diz:

    Bom golo e bom sítio: dá vontade de fugir para lá. Comeste os caranguejos na grelha? Bora lá à segunda parte para mais golos.

    • Teresa Conceição diz:

      Comi um grande peixe diferente dos nossos. Excelente. São pobres mas a cozinha é uma festa.
      E entretanto contei a segunda parte do jogo.
      Às vezes até me porto bem, Manel, nem pareço eu.

  2. Diogo Leote diz:

    Boa lição para quem despreza esse jogo de “22 gajos atrás duma bola”. Não há melhor embaixador para Portugal, o futebol em geral e o CR em particular. Já me salvou uma ou outra vez, nos confins do mundo, entre gente com cara de poucos amigos.

    • Teresa Conceição diz:

      Eu era uma das preconceituosas, Diogo.
      Mas engoli e aprendi alguma coisa, mais uma vez.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Como não sou grande fã de “bola”, preferi as miúdas que ajudam a mãe na grelha, e o rio, esse fantástico rio…

  4. Teresa Conceição diz:

    O Mekong é um manancial de histórias.
    E dá vontade de fotografar e desenhar e ir por ele acima e abaixo. Hei-de lá voltar.

  5. Rita V diz:

    esse seu estar só nunca me pareceu solitário
    🙂

  6. Teresa Conceição diz:

    Nada solitário, Rita, pelo contrário. É um estar só desejado e muito produtivo.
    Se calhar por ser pouco frequente…Mas estar só faz-me falta, sobretudo em viagem.
    É a melhor maneira de conseguir tempo para desenhar sem pedir desculpa pela demora. De fotografar com calma. Está-se mais disponível para a descoberta, mais curioso, mais atento aos outros. E a nós mesmos.

  7. António Eça de Queiroz diz:

    O Istian marca golos da Austrália à Lapónia, passando pela Patagónia…
    Bela história de viagens.

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