A minha história com Cristiano Ronaldo (II)

 

O Mekong é o cenário, mais uma vez.

O rio persegue-me, ou eu persigo o rio, por uns mil quilómetros já. Agora no Cambodja, o curso de água alarga. Tanto que no centro cabe uma ilha gorda e comprida de 1 km. É atrás dela que a luz do dia desce o pano. E por isso chamam a Kratie a cidade do vermelho sol cadente.

Red sun falling, Kratie, foto de tc

Já percorri de bicicleta as ruelas e os mosteiros, assisti aos cânticos amarelos dos monges num funeral, fui de barco visitar a ilha de areia e palmeiras ancorada a meio do rio. Por todo o lado algumas vacas, barcos de pesca, pequenas hortas, casas sobre estacas, crianças aos magotes, riso pronto. Pobreza rente à pele, dignidade colada aos olhos, não vi pedintes em mais de mil quilómetros de viagem pelo Laos e Cambodja campestres.

Quando me perguntam de onde sou, atiro: ‘from Cristiano Ronaldo’s land’. Bola devolvida: ‘Aha, Portugal!’ Devia ter experimentado dizer Argentina para ver se Messi também fazia parte do vocabulário.

O fim de tarde é sempre na marginal frente ao Mekong. Turistas e locais sentam-se no muro para assistir ao poente até ao fim. Por vezes batem palmas como num espectáculo. As barraquinhas de petiscos fazem algum negócio. Nos dias em Kratie acompanho a hora vermelha com água de coco e peixe cozinhado em folha de bananeira. Uma delícia da tia de Chong. O miúdo estica cinco dedos para me mostrar a idade. E continua a pintar um barco com os lápis de cor que lhe ofereci.

Tem luz, este Chong. Espertíssimo. Canta, grita, entusiasma-se. Os brinquedos são caixas de papelão, transforma-os em barcos e skates a arrastar no chão. Nunca tinha pegado em lápis e cadernos antes. Progride rapidamente. Sei que não é inteligente envolver-me, mas não lhe resisto.

Ao segundo dia faz uma festa quando me vê, ao terceiro somos amigos. Já me ensinou as palavras khmer para os desenhos que crescem: elefante, coco, sol, os primos a brincar. Orfão, a tia acrescentou-o aos 6 filhos. Ela olha-me, nó na garganta, enquanto serve raros clientes. Não se queixará. O mais velho de 16 anos é que pergunta: ‘Queres adopta-lo?‘  É Chong que me salva:  ‘Não quero ir. Depois sentia a vossa falta. Ía ficar triste.  Tu não ficas triste, pois não?’ 

Uf. Obrigada por saberes tudo, Chong, capitão do papelão. Eu é que não vou esquecer-te. Do mercado trago uma bola para te oferecer. Mas só nessa última noite reparei na camisola que trazias vestida desde o primeiro dia.

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

10 respostas a A minha história com Cristiano Ronaldo (II)

  1. Maracujá diz:

    Bela viagem. Chego a sentir inveja dessa vivência.
    Ainda bem que nos reconhecem nesses locais aparentemente esquecidos no mundo, e se não for por outros motivos positivos, que seja pelo futebol.

    • Teresa Conceição diz:

      Obrigada pelas suas palavras, Maracujá.
      Parece que o futebol se tornou um ponto de ligação universal.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Teresa, também nos deste um lindo nó. Na garganta.

    • Teresa Conceição diz:

      Este custou um pouco a desatar, Manel.
      Eles não são infelizes. Aprenderam a viver sem nada. Mas é duro sentir a angústia de pais e mães por não poderem dar aos filhos a instrução que faria falta, ou apenas uma refeição melhor. E pior perceber que qualquer pequena ajuda que dermos é apenas um alívio temporário…

  3. Teresa Conceição diz:

    Oh. Obrigada, Rita 🙂

  4. Panurgo diz:

    Mania portuguesa esta de ir curtir a desgraça alheia. Até se tira fotos. Ca lindo. O pirilampo Chong, de chorar.

    • Teresa Conceição diz:

      Gosto da sua ironia, Panurgo. Mas estes pirilampos não choram nem fazem chorar.
      E os pirilampos khmer nem sequer têm muitos portugueses a curti-los, se não contarmos os templos maravilha de Angkor.
      E tomara nós, que temos tanto a que não damos val0r, sermos tão felizes como eles.
      Depois das atrocidades que Pol Pot fez o Cambodja passar, a recuperação é que é de observar. E só o turismo e o investimento estrangeiro podem fazer por isso. Mas parece-me que qualquer visitante tem mais a ganhar com a visita do que os visitados.

  5. ~CC~ diz:

    Teresa…é uma verdade bem triste esta que nos conta…Portugal ser apenas lembrado pelo Ronaldo…não sei se ria, se chore. Mas também sei como é, uma vez em Angola vi gritar Benfica por todo o lado, de repente parecia que tinha recuado anos e anos na história.
    ~CC~

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A vida na sua essência, rica e dura, mas vida sempre….nó na garganta também, até de ver a camisola vestida como uma filosofia…

Os comentários estão fechados.