A mulher adúltera

Tenho raiva, mas compreendo os alemães, uma certa distância britânica. Eles têm razão: não é bom haver portugueses por perto. O português ou é ausente, recolhido como um rato, ou pode ser manhoso, muito inconveniente. O português compromete. Tudo, mesmo a mais admirável parábola. Quando se dá conta, está feito – em geral, mal feito e já não há remédio, nem santo!

Cristo, como sabem, estava sempre a ser surpreendido pelos fariseus. Falava, nesse meio do dia bíblico, aos seus e saíam-lhe da boca palavras de bem aventurança. Os fariseus irromperam pelo humaníssimo círculo que o rodeava e atiraram a mulher adúltera para o exacto centro. Um  deles pôs na mão do Galileu uma pedra, enquanto outro, mais fluente, lhe disse: “Esta mulher é adúltera. Conheceu outro homem e a Lei diz que deve ser apedrejada até à morte. O que achas que devemos fazer? Queres tu, profeta, cumprir a Lei?

O rosto compassivo do filho do carpinteiro fez uma panorâmica godardiana. Sopesou a pedra e disse mansamente: “O que de vós nunca falhou que atire a primeira pedra!” 

O Senhor não sabia que havia um português entre os que fielmente O ouviam. O português deu um rápido passo em frente e, zás, acertou com uma pedrada na testa da adúltera que caiu fulminada.

Transtornado, Cristo olhou para o português e recriminou-o: “Filho, tu nunca falhaste?” Ao que o português, decidido, respondeu: “A esta distância? Nunca, Senhor!

Podem vir para cá com as parábolas que bem entendam, não ponham é uma pedra na mão do português.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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27 respostas a A mulher adúltera

  1. V diz:

    Ohhh…Manuel, pena que veja assim o seu povo.
    Para mim o português disse ao Messias, enquanto pegava na mulher ao colo. – Deixem estar que a levo para casa e lhe dou um bom açoite.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Estimada V, não se fie nos brandos costumes. Olhe so o Rei Ghob.

  3. Diogo Leote diz:

    Com ou sem parábolas, o português é tramado. E com mulheres adúlteras ao barulho ainda mais, torna-se imbatível.

  4. Pedro Bidarra diz:

    Para o português há sempre uma ou duas saídas como se vê: dir-se-ia que um português de esquerda, com as suas habituais vistas curtas, não falharia àquela distância e um de direita perdoaria a mulher adúltera, a bem das aparências, e depois levá-la-ia dali e, como dizia a V., tau tau.
    Mas o que faria o alemão? Isso gostaria eu de saber.

    • Panurgo diz:

      O alemão afia as pedras.

    • manuel s. fonseca diz:

      Afiava as pedras, como diz o Panurgo, e investia numa linha de montagem.

    • V diz:

      Como quem finge não se querer meter, convencia os outros que o Mesias não sabe o que diz, afinal a mulher não tinha cumprido a lei e devia ser castigada, morta. Agora o motivo por trás dessa vontade é tudo menos salvaguardar os bons costumes. A verdade é que o senhor alemão é dono de um bordel, e isto de ter concorrência não tem graça nenhuma.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Pertinente e bem achado. Julgo que o alemão não vai desdenhar a oportunidade.

  5. inma diz:

    Não gosto do seu artigo,os portugueses são um povo muito trabalhador e os mais educados da Europa. Lembre-se das pessoas que fizeram as descobertas.
    O senhor tem que pedir deculpas .

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Inma, julga que uma pontaria destas se consegue como? Só com trabalho, apurada educação e um certo sentido da descoberta (dos alvos, está claro). E claro que não peço desculpa.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel quando a batatada começar ai de quem se puser à frente dos “tugas”…haja pontaria para defender aquilo em que acreditamos. Fartei-me de rir com o desenlace da parábola!!

  7. Pois a sua apreciação sobre os portugueses manhosos pode, até, ser um bocado redutora mas a sua crónica no Expresso deste sábado sobre uma fantástica adúltera, a Ingrid Bergman, está uma maravilha. E é o que se me oferece dizer.

    • manuel s. fonseca diz:

      Obrigado por ter gostado da crónica.
      A prosa acima é, mas é mesmo, redutora: conta, com umas habilidades pelo meio, uma anedota de café. E junta-lhe um toque de cravo e canela moralista.

  8. fernando canhao diz:

    Todos apontam a dedo uma mulher quando cai mas ninguem aponta ao filho que apontou na peida ao pai.
    (Anónimo, Barreiro – Lavradio)

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Fernando, enquanto trouxermos nas palminhas o filho pródigo palpita-me que o seu anónimo do Barreiro vai continuar a moê-las. Para já com os filhos, depois com os netos.

    • fernando canhao diz:

      Absolutamente. Felizmente que no meu caso tenho filhas, mas acerca dos netos de uma delas melhor será mantê-los entretidos com Legos e com uma coisa chamada consolas, e mesmo assim a cautela manter-me por longe.
      E que a Europa volte a ter juízo

  10. Teresa Conceição diz:

    Esta piada vai fazer história, Manel. E risos.
    Só espero que não faça História.

  11. Maracujá diz:

    Caro Manuel, é tão saudável rirmos de nós próprios. Gostei. Principalmente da pontaria.

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