A Ressaca, Mastroianni, e a Capela Sistina

 

                                                                                 mãos que não se tocam
 
A melhor cura para a ressaca é deixá-la que se extinga, vagarosamente, de preferência numa qualquer manhã ensolarada, em frente do mar azul e bravo. Sentir a lentidão do tempo arrastado na noite que se prolongou, horas a fio, até esta já não o ser…
Quem mo lembra é Marcello Mastroianni, no final do filme La Dolce Vita. (Sim, assumo uma vez mais que gosto dos finais, dos “endings”, daqueles breves momentos que precedem a  escuridão antes da luz que reaparece…)
Marcello, a pose marcada de mais uma noite de borga e copos, o cansaço estampado no rosto bonito, nos olhos que se fecham, no cabelo já um pouco desgrenhado. A festa foi de arromba, a noite não dormida decalcada como toda a futilidade de uma forma de vida.
A câmara fixa, Marcello no primeiro plano, o grupo desfocado do resto dos convivas ao fundo, sobre a praia lisa.
Uma nebulosa preguiça na filmagem do dia que já nasceu, a cabeça que pesa na ressaca, talvez na vida também.
Na praia entre a pesca de um “monstro”, qual bobo de uma corte sem roque, e o mar calmo que se embate na areia, há uma voz que chama.
Marcello está sentado, depois de joelhos, casaco e calças brancas e camisa negra, vêmo-lo ora de frente, ora olhamos as suas costas. Percebe que é a si que a voz chama, reconhecemos a simpática menina do café vazio de uma cena anterior.
Dois mundos nunca pareceram tão distantes, tão perto mas tão díspares entre si.
Será assim tão difícil atravessar a pouca água que separa Marcello da bela e inocente rapariga? As palavras perdem-se no vento, já não há interesse na sua compreensão…
No fim só se ouve o mar,
É difícil mudar de vida, mesmo quando se vê o caminho, que se sabe certo mas que ainda iludimos, aberto à nossa frente.
A figura de branco de Marcello, em primeiro plano, e a rapariga em negro ao fundo.  Marcello despede-se com um aceno impotente, duas mãos que não dizem adeus mas também não clamam.
No fim só se ouve o mar, e a vida continua. Diferente para cada lado, os dois mundos que não se uniram, felizmente para nós espectadores.
Fellini é realista ao assumir que o fecho poderia ser exactamente o contrário. Mas escolheu assim.
E é como o tecto da Capela Sistina, na Criação de Adão, em que as mãos não se tocam, Deus e Adão, Deus e o Homem.
Tudo aquilo que não se toca, tudo aquilo que não se completa, para que tudo possa ficar em aberto.
 
 
 
 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a A Ressaca, Mastroianni, e a Capela Sistina

  1. Não deixa ser uma metáfora para a borga portuguesa. Não sei, é se a ressaca passará tão cedo, à voz de “corta!” (no filme luso, gritado pelo Gaspar do money). Desligada a câmara o Marcello foi à sua vida, nós, iremos à vida (ah! como um pronome faz a diferença).

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Faz uma enorme diferença, talvez tão grande como a de atravessar o pequeno riacho e ir “à vida”…Sobreviver à ressaca vai ser importante e não será tão glamorosa como a de Marcello…

  2. Diogo Leote diz:

    Esta cena final do Dolce Vita, e sobretudo o teu texto, fazem-me lembrar todos os “quase” da minha vida (e da tua, e de todos nós) que só não aconteceram porque houve ligeira hesitação, uma ligeira hesitação que fez perder o “timing”que tinham para acontecer. Se calhar, não aconteceram porque não tinham de acontecer. Ou para que tudo continuasse em aberto.

Os comentários estão fechados.