A segunda história da luz do sol

– Podia ser ele, não podia, mommy?

A cabeça branca da mulher levantou-se levissimamente. O olhar desviou-se na direcção inocente da fita de alcatrão. Uma ligeira tremura das mãos fez oscilar o livro que lia. Respirou fundo e um vago sorriso aflorou-lhe a palidez dos lábios.

– É muito cedo. Vinha sempre mais tarde, querida.

A miúda sentou-se no muro da varanda, o braço esquerdo, tenso, a sustentá-la. Ficou a olhar, loura e fixa, para o ponto da estrada por onde passava o automóvel. E insistiu.

– Vinha a que horas, mommy?

O sopro do vento era manso. As árvores estavam tão quietas como a mulher. A copa verde não se mexia. O cabelo branco dela, cortado curto, preso atrás, podia ser o de uma estátua. A mulher demorou-se no meio da tarde. Como se não houvesse tempo, apenas o sol escaldante, quieto. Se alguém estivesse a vê-las, talvez pensasse que a mulher mais velha não responderia.

– Quando a luz do sol começava a murmurar outra história.

A miúda mexeu-se sem se mexer, saindo clandestina da absurda imobilidade. A cabeça dourada continuou presa à estrada em fogo, mas os olhos rodaram, de esguelha, à procura do sentido fugitivo da frase que se soltara da boca da mulher de cabeça branca. Havia nos olhos da miúda uma pressa que a calma ardente da tarde iludia.

– Mom, qual história? Nunca me contaste.

A mulher deixou passar o sopro recto, agudo, do automóvel na estrada. Esperou que a geometria da casa se ajustasse de novo, isósceles, à abafada copa do bosque. Tinha o livro na mão, o olhar numa via láctea. No incendiado silêncio da tarde, o passado encheu-lhe o corpo de facadas.

– Ele dizia que a luz do sol conta cada dia duas histórias. Primeiro, a história da luz que se levanta e caminha. Depois, baixinho, num murmúrio, a segunda, a história da luz que se deita. Ele chegava sempre quando a luz do sol começava a contar a segunda história.

Qualquer coisa, talvez um grão de areia de um tempo antigo, acariciou a juventude da miúda. Os ombros, o ventre adolescente, comoveram-se. Um frémito, uma lágrima rolou-lhe do corpo. Tinha crescido num segundo. Uma velhice doce, minúscula, entrara nela como um desejo.

A mulher de negro fechou os olhos e a imagem viúva de um homem recortou-se nas cores fortes do crepúsculo. A alegria desordenada de um corpo saía pela porta da pick-up que estacionara à beira da casa. O homem chamava-a, já com a miudinha nos braços. Gritava-lhe canções com as mãos maciças, prometia-lhe a festa da segunda história da luz do sol.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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18 respostas a A segunda história da luz do sol

  1. Bau Pires diz:

    boa! adoro curtas,

  2. MJC diz:

    Já li 3 vezes e vou ler mais. Arrepiante.

    “Espe­rou que a geo­me­tria da casa se ajus­tasse de novo, isós­ce­les, à aba­fada copa do bos­que. Tinha o livro na mão, o olhar numa via lác­tea. No incen­di­ado silên­cio da tarde, o pas­sado encheu-lhe o corpo de facadas.”

  3. Rita V diz:

    bonito e triste

  4. lino diz:

    “Isto” em uma dedicatória, não tem?…

  5. Diogo Leote diz:

    Ora aqui está a confirmação de que as mais belas e comoventes histórias são murmuradas pela luz do sol de fim de tarde.

  6. pedro marta santos diz:

    Bem esgalhado, dottore.

  7. Pedro Norton diz:

    Bonito, sim senhor. Gosto particularmente de miúdas que se mexem sem se mexer.

    • Rita V diz:

      eh eh eh
      e a revirarem os olhos … pode ser?
      ah ah ah

    • manuel s. fonseca diz:

      Goze, goze! Só sei que dei comigo sem saber se devia dizer Lá que se mexe, não se mexe; ou se devia dizer: Lá que não se mexe, mexe-se… E a menina Rita veio logo ajudar à festa…

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A vida repetida em histórias contadas à varanda , uma , duas, e centenas de vezes, ou as mulheres que esperam o sol que se põe. Belo conto curto!

  9. manuel s. fonseca diz:

    Bernardo, curtinho, a pedir pôr do sol!

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