A tempestade

Hoje à tarde a chuva corria pela auto-estrada. O nevoeiro só deixava ver-lhe as pernas rápidas, pés descalços a bater o chão. Abri e fechei mil vezes os olhos à procura do rosto nítido da chuva, um seio de água fresca, uma cena bucólica que um raio viesse iluminar e definir.

A mão no volante, o olhar a fugir-me para as árvores, tive esperança de ver desenhar-se na A-16 a tempestade que Giorgione pintou há quase cinco séculos.

Nessa tela veneziana, há uma mulher nua à direita, em primeiro plano, amamentando um bebé. Estou a exagerar: não está nua. Uma capa cobre-lhe os ombros para que fiquem mais nus os seios, a harmonia clássica das coxas, o oásis púbico abaixo do ventre ligeiramente excessivo.

Alguém me disse que era uma mulher pobre, cigana, uma nudez de desespero. Não acho. O rosto dela é sereno, de uma inexpugnável confiança. Nada a perturba, nem o homem jovem, forte, cuja espampanante virilidade transborda dos calções.

O homem está do outro lado da tela. Um charco, a seca terra de que despontam raízes, separa-o da mulher que ele quase não olha. Um soldado vigilante, dir-se-ia. E desminto-me: um objector de consciência, digo agora. O cajado sugere um pastor, camisa de linho e gibão curto, nos pés os sapatos brocados. Talvez um pastor que seja o clandestino de um amante, de um marido.

Que estão a fazer este homem, esta mulher, o que levou Giorgione a pintá-los? Atrás deles, há um tecto de nuvens que um raio rasga e ilumina. E acredito que Giorgione tenha pintado esta tela só para nos dar o feroz recorte dessas árvores que se erguem da terra e abrem ramos ao céu. O que era uma árvore? Já alguém teria, antes de Giorgione, pintado uma árvore? Já alguém fora capaz de desenhar a crueldade de um tronco que se abre em fisga logo acima do seio que a boca de um filho morde?

Despe-se uma mulher, há um homem de pé, vem lá ao longe uma tempestade, o ribombar de trovões, o incêndio de relâmpagos, só para que o olhar humano possa ver a erecta árvore, o fotográfico traço da natureza.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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18 respostas a A tempestade

  1. Parece que os textos lhe saem cada vez melhores. Não é só o serem expressivos, visuais – é que estão também, cada vez mais, impressivos. Que belo texto este hoje que conjuga a impressão da chuva na autoestrada com a análise de uma pintura com tempestade em fundo e em que as palavras criam uma envolvência tão progressiva que quase somos nós a sentirmos a chuva sobre as árvores e a acharmos natural que uma mulher se ponha nua na beira da estrada a dar de mamar.

  2. manuel s. fonseca diz:

    A mulher nua na beira da estrada é um topos da pintura, do cinema. É romântica e é da ordem do fantástico. E há sempre um homem que não sabe o que fazer.
    Obrigado pela sua simpatia.

    • fernando canhao diz:

      Nada a perturba, e falo da morena devastadora que surge na contra capa do LP Transformer de Lou Reed, nem o olhar equivoco do rapaz do bone de cabedal, faltara a fisga e a crianca mas pagando tudo se arranja.

  3. Pintado no bom tempo. No tempo em que havia SCUT. A propósito de estrada, a melhor cena de um assalto (toda filmada de dentro de um carro e Peggy Cummins)

  4. Rita V diz:

    esta sua brejeirice … é irresistível
    😛

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Se todas as tempestades fossem como estas, as suas imaginadas, e as de Giorgione passadas a óleo. Porque o que conta é a interpretação, e perante isso a realidade tem pouca importância.

  6. JS diz:

    “E há sem­pre um homem que não sabe o que fazer” Grande verdade. Parabéns. Passei por algumas situações confrangedoras quando dava de mamar aos meus filhos nalgum local público.

  7. Panurgo diz:

    Uma mulher nua é sempre o cabo dos trabalhos. Depois eu é que tenho que me comportar… “árvore erecta”… ela que não se encoste, não lhe vá pingar resina nas costas… ai…

  8. Maracujá diz:

    Quem consegue traçar assim a A16 num dia cinzento como o de ontem, o que conseguirá fazer
    amanhã da Av. Marginal, num dia que se prevê de céu azul celeste? Adorei, caro Manuel.

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    A ver se por lá passo, cara Maracujá.

  10. teresa conceição diz:

    Venham mais tempestades destas, Manel! Estamos cá para lê-las. Sem guarda-chuva.

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