A Última Sessão, por John Kenney

(Estava eu a arrumar revistas quando dei com este texto –numa New Yorker antiga– que resolvi traduzir para os meus tristes amigos)

Como saber quando se está pronto para acabar a terapia? E o como deve o terapeuta lidar com o pedido?

Consultório de um psicoterapeuta em Central Park West.

Paciente: Ouvi uma anedota engraçadíssima.
Terapeuta: (a fazer as palavras cruzadas ) “Rose is a rose is a rose”, escritor, cinco letras.
Paciente: Stein?
Terapeuta: Stein.
Paciente: Nunca percebi o porquê de tanto barulho à volta da Gertrude Stein? Afinal ela foi, tipo, a primeira pessoa a ser famosa por ser famosa. A Paris Hilton dos anos vinte.
Terapeuta: Assim vai ser difícil acabar isto. Se continua a falar…

Longa pausa.

Terapeuta: (pondo o jornal de lado) Pronto. Já está.
Paciente: Então oiça lá esta. Qual é a parte mais difícil de andar de patins em linha?
Terapeuta: Não sei. Qual é?
Paciente: É dizer ao pai que se é gay.
Terapeuta: Essa tem piada.
Paciente: A quem é que está a mandar SMSs?
Terapeuta: A um amigo. Consegue ouvir-me com o iPod nos ouvidos?
Paciente: O quê? Deixe-me desligar isto.

Pausa. Riem um para o outro.

Paciente: Haverá Deus?
Terapeuta: Não sei. Por quê?
Paciente: Por nada. Lembrei-me.

Longa pausa.

Paciente: Quanto tempo ainda nos falta?
Terapeuta: Quarenta e cinco minutos.
Paciente: E o fim-de-semana, foi bom?
Terapeuta: Por que é que pergunta?
Paciente: Estou só a fazer conversa. Às vezes pego no iPod e ponho uma canção em repeat e oiço-a vezes e vezes sem conta. Tipo, no outro dia ouvi o “When the World Is Running Down,” dos Police, noventa e seis vezes. Grande canção. Já alguma vez lhe aconteceu? Acha que é normal?
Terapeuta: Eu não costumo fazer isso mas conheço pessoas que fazem. Quer medicação? Agora há um comprimido.
Paciente: Não, tou bem. Vejo que está a aproveitar o tempo para fazer abdominais.
Terapeuta: (no chão) É. A tentar manter a forma. E também—para ser completamente honesto— estou um bocadinho entediado.
Paciente: Ah. Bom, então é se calhar altura de falar de uma coisa que eu tenho vindo a pensar.
Terapeuta: Diga.
Paciente: Eh… estou a pensar em acabar.
Terapeuta: Acabar o quê?
Paciente: A terapia.
Terapeuta: (pára de fazer abdominais) O quê? Agora que estamos a fazer progressos.
Paciente: Eu sei. Mas já são vinte anos e . . .
Terapeuta: Não vamos agora ficar agarrados a “números.”
Paciente: . . . eu não encontro mais assunto para falar.
Terapeuta: E isso fá-lo sentir como?
Paciente: Não faz. E a si, como é que o faz sentir?
Terapeuta: Qual é que era a pergunta?
Paciente: Eu acho que me sinto, assim, melhor.

Pausa.

Terapeuta: A sério?
Paciente: Por quê? Acha que não?
Terapeuta: Bom, você é que é o especialista.
Paciente: Não era isso que eu queria dizer. É só que eu estou. . . feliz.
Terapeuta: Feliz? E acha que o que estamos a fazer aqui é sobre isso?
Paciente: Não é? Quero dizer, vinte anos é muito tempo, certo?
Terapeuta: Quem disse?
Paciente: Foi bom. Foi estranho às vezes, mas foi bom.
Terapeuta: Lembra-se das férias que fizemos em Monument Valley?
Paciente: Muito bom, tirando o escaldão que apanhei.
Terapeuta: E tivemos aulas de espanhol um verão. Tão giro, certo?
Paciente: Isso foi giro.
Terapeuta: Os medicamentos.
Paciente: Zoloft, Wellbutrin, Prozac, Effexor, e aquele mexicano ilegal cheio de efeitos secundários. E lembra-se daqueles comprimidos de estrogénio que me prescreveu por engano e começaram a crescer-me mamas?
Terapeuta: (rindo) Eh. . . foi uma gralha, mas eu pedi desculpa!

Pausa.

Terapeuta: Bom, se realmente acha que está pronto então a mim só me resta desejar-lhe o melhor.
Paciente: Obrigado.

Pausa.

Paciente: Aquela coisa do role-playing, há uns tempos atrás foi meio estranha, não foi? As roupas? Aquela coisa de astronauta?
Terapeuta: Por quê julgar?
Paciente: Certo.
Terapeuta: Certo.
Paciente: (dando uma risada) Houve dias em que o odiei.
Terapeuta: (dando uma risada também) Idem.
Paciente: (sorrindo) E agora que isto está a acabar tenho de perguntar: houve alturas—tenho a certeza—que você não ouviu uma palavra do que eu disse, certo?
Terapeuta: (rindo) Nem uma palavra.
Paciente: (rindo) Fantástico.
Terapeuta: (rindo) E de quem é a culpa? Você nunca se cala. É como se tivesse nascido sem filtro. O queixume. Mãe, pai, irmão, patrão, namorada, blah, blah, blah. Quem tem saco?!
Paciente: (ainda sorrindo) Foi um grande, grande desperdício, não foi?
Terapeuta: (sorrindo) Foi pois.
Paciente: (sorrindo) Tanto dinheiro e tempo.
Terapeuta: (sorrindo) Três palavras: casa em Umbria.
Paciente: (sorrindo) E isto é assim com todos os seus clientes ou só comigo?
Terapeuta: (sorrindo) Só consigo.
Paciente: (sorrindo) Tou a ver. Bom . . .
Terapeuta: (sorrindo) Boa sorte.

Pausa.

Terapeuta: (num tom mais doce) Você preocupa-se em poder ser homossexual?
Paciente: O quê?
Terapeuta: Nada.
Paciente: Perguntou-me se eu me preocupo em poder ser homossexual?
Terapeuta: Não. Sim. Por quê?
Paciente: Por quê o quê? Acabou de me perguntar se eu me preocupava em poder ser homossexual.
Terapeuta: E preocupa-se?
Paciente: Não. Por quê?
Terapeuta: A “anedota” que contou.
Paciente: Era uma anedota.
Terapeuta: Era?
Paciente: Não era?
Terapeuta: Bom. . . vamos ter que ficar por aqui hoje. Vamos retomar isto para a semana.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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32 respostas a A Última Sessão, por John Kenney

  1. manuel s. fonseca diz:

    Pedro, esta é para guardar. Muito bem lembrada e ainda mais bem traduzida.

  2. JS diz:

    Um texto fascinante.
    Tal como o comunismo real nada tem a ver com o pai Marx também aqui nada tem a ver com o pai Freud
    Do que conheço, por terceiros, frequentadores desses divãs, que tiveram a lucidez de parar a tempo, podem crer que essa poderia ter sido uma situação bem real.
    Gostava de enviá-lo a um/a desses ex-frequentadores e ouvir a sua opinião. Posso faná-lo?

    • Pedro Bidarra diz:

      Pode sim senhor, é um favor que faz ao autor que agora existe também na língua lusa para todos os que que deprimem e sofrem de desordens psicológicas em português

  3. Rita V diz:

    A experiência já ninguém me tira. 4 meses e um dia. Tive sorte ou azar. Não sei.
    Como tudo há bons e maus. Tinha nome na praça, ilustre entre os seus pares, fumava e para o fim adormecia no cadeirão.
    Um dia perguntei-lhe:
    – Se calhar não é muito importante o que digo mas a dormir como é que me pode ajudar?
    – A dormir!!!!!!!!!!? Eu????????
    ( nunca mais lá fui … )
    Apesar da minha experiência, acho que é fundamental que existam bons técnicos de saúde mental. A dificuldade está em separar o trigo do joio. Como em tudo!

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu quando estava no liceu tinha a ideia ingénua que quando se acabava um curso superior se sabia tudo o que havia a saber sobre o assunto. Quando acabei o meu curso de Psicologia e vi gente absolutamente desqualificada e sem talento, burra mesmo, a sair para a rua e dar consultas fiquei apavorado. Pensei que o problema era do curso; que em direito ou em medicina não deixariam sair ninguém sem saber tudo da lei e das ciências médicas. E depois logo descobri que era tudo igual. A maior parte dos advogados não sabia nada da lei, nem sequer pensar e a maioria dos médicos eram charlatões que prescreviam comprimidos que liam num livrinho que os farmacêuticos lhes davam. Com o tempo lá fui encontrando gente muito boa e inteligente. Que sorte que tive: são tão poucos.

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Que belo texto e tradução!
    É preciso saber bater à porta certa…se não estamos mais f…… do que antes 🙂 – já fui 2 vezes e sempre bem recomendada!!!!
    As minhas desculpas por falar desta maneira, mas saiu-me!

  5. MJC diz:

    Pedro B. cada vez é pior. Tenho-me deparado nos últimos com algumas situações que considero verdadeiramente criminosas. A última delas foi um psicólogo achar que uma criança de 3 anos precisava de metilfenidato e o pedopsiquiatra receitou!
    Quanto ao texto em si obrigada por o ter trazido. É delicioso. Apetece degustar. Também o vou surripiar.

    • Pedro Bidarra diz:

      O texto é muito bom como são quase todos os da New Yorker. Sobretudo o humor que por lá vai aparecendo escrito. Divulgue que só faz é bem

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Fez-me lembrar o Woody Allen…logo agora que pensava que estava feliz, afinal é tudo ilusão… a mulher que conta na festa ( no filme Manhattan): ” I finally got my first orgasm but my doctor told me it was the wrong kind…”

  7. Isabel diz:

    Este bom pedaço de prosa fez-me lembrar esta pequena estória contada por R. D. Laing:
    “Um miúdo de cinco anos, com a cara lavada em lágrimas e um ar visivelmente perturbado, dava repetidamente voltas ao mesmo quarteirão de um bairro de Londres, transportando ao ombro um pequeno saco.
    Um polícia que reparou na cena, aproximou-se dele e perguntou-lhe o que é que se passava, se poderia ajudá-lo nalguma coisa.
    _Fugi de casa – respondeu o miúdo – mas o meu pai proibiu-me de atravessar a rua sozinho.”

  8. Isabel diz:

    É válida a sua resposta mas, não tinha perspectivado dessa forma; mais na relação de dependência que alguns psicanalistas criam nos seus pacientes. Estes querem “libertar-se” pois reconhecem que estão bem das suas neuroses, por razões que nem ouso “pronunciar”, algo os impede de dar o salto para o outro lado da rua …

    • Pedro Bidarra diz:

      É tudo muito redondo e a interpretação das coisas, neuroses incluidas, depende da pontuação que se faz. Onde se põe o principio e o fim, a causa e o efeito. É por isso que a psicanálise não pára nunca. Quando se julga que se compreendeu o princípio e o fim, ou um princípio e um fim possível, lá vem o analista (ou vinha, que eles agora estão um pouco menos ortodoxos) dizer que afinal a história começa noutro lugar.
      Eu nunca fui dessa escola. Era das terapias sistémicas. Coisa menos mística e mais da ciêntífica.

  9. Maracujá diz:

    Adorei, caro Pedro! Muito bom rir assim e dá que pensar!

  10. teresa conceição diz:

    Aqui está um bom produto das arrumações, Pedro.
    É bom arrumar ideias, revistas e ainda sair com textos para os amigos.
    É de emoldurar e oferecer a quem precisa.

  11. V diz:

    enganei-me no copy paste
    não era este o link … opsss

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