A Vida, a Arte e Duchamp

 

                                                                                              M. Duchamp-Étant donnés, a porta
Muito da vida é descoberta, procura, e revela-se na capacidade de sermos surpreendidos, positivamente. Daí que toda a grande obra escrita, desenhada, pintada, tocada ou construída incite a isso mesmo: à busca, à procura. A recompensa vem de seguida, com a surpresa, com o deslumbramento, e com a abertura a uma dimensão metafisica do nosso ser. Daí também que a vida sem arte resvale para uma existência sub-humana, onde o Homem se limita a viver como um animal que também é.
Tudo isto a propósito de uma obra de Marcel Duchamp, artista que foi príncipe e mestre neste jogo de encorajar a descoberta, de esconder para revelar mais tarde, de testar, até ao limite, as nossas convicções preestabelecidas.
Fê-lo, em 1913, com o espantoso “Nu a Descer as Escadas”, onde a tela se tornou num ecrã de imagem em movimento. Fê-lo também com o enigmático e escandaloso “Urinol”, intitulado “Fonte”, e assinado pelo seu heterónimo R. Mutt., obrigando a que se repensasse qual o papel do artista, virtuoso e exímio artesão, ou simplesmente fabricante de ideias. E fê-lo ainda quando se retirou da “cena artística” para se dedicar ao xadrez…
A produção artística atravessava uma fronteira da qual ainda não regressou totalmente: Do pensar ao fazer, para o pensar do fazer.
Continuo a achar que a obra onde se entende de forma mais dramática e completa esta idiossincrasia será Étant donnés (Given: 1 The Waterfall, 2. The Illuminating glass), sua última obra, feita em total segredo,  para grande surpresa de todos á sua volta.
Duchamp trabalhou na obra aproximadamente 20 anos, de 1946 a 1966, e esta pode ser considerada como uma “instalação”. A obra é composta por duas partes distintas: Uma porta de madeira, rugosa e rustica, colocada como se tivesse sido esquecida, numa parede do museu, e a construção, escultórica e em três dimensões, que se revela quando o espectador, apenas o suficientemente curioso, descobre o pequeno orifício na porta que permite “olhar” para o que está do outro lado.
Esta é a segunda parte, aquilo que vemos, literalmente pelo “buraco da fechadura”: Um corpo de mulher, nu, deitado de costas, pernas abertas revelando o sexo desprotegido, um braço que agarra um pequeno candeeiro. Por trás uma paisagem de erva e arbustos, com árvores ao fundo e uma pequena cascata de água…
Devo dizer que a primeira vez que entrei no espaço onde se localiza a “porta” não dei o passo seguinte da “espreitadela”, eu e muitos dos visitantes do Museu de Arte de Filadélfia onde a obra se encontra (em conjunto com uma grande parte da obra de Duchamp, incluindo o extraordinariamente enigmático “Large Glass: The Bride Stripped Bare by Her Bachelours , Even”).
Só após uma segunda passagem e com a atenção redobrada é que me aproximei da estranha porta de madeira, tão dissonante em forma e estilo da parede branca onde está colocada, e me surpreendi com a descoberta de um mundo interior.
Jasper Johns definiu-a como a peça mais estranha existente em algum museu, e foi isso mesmo que senti: um misto de estranheza, incómodo (estamos a interferir com uma cena privada, que nos parece que se deve manter assim.), e até choque, há um sentimento de violação, do espaço privado e escondido, através do nosso próprio olhar…
Não me interessam muito as muitas explicações sobere a obra, apenas que Duchamp consegue questionar o limite das nossas certezas, obrigar a sairmos do espaço museológico que pensávamos já dominar e controlar, e entrar num novo mundo sugerido por ele, e inventado pelo espectador tornado “voyeur”.
E penso que a vida como a arte é sempre assim, o que passa despercebido à primeira e segunda vez pode revelar-se mais tarde, a surpresa está ao virar de cada esquina, caso tenhamos os olhos e a mente abertas à descoberta.
“Keep passing the opening windows”, dizia o poeta Updike, Duchamp quer que continuemos a olhar pelas frinchas da vida.

                                                                                      M. Duchamp-Étant donnés, o interior

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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11 respostas a A Vida, a Arte e Duchamp

  1. Rita V diz:

    não sei … espreitar foi sempre considerado ‘muito feio’, no entanto as portas que temos de abrir para chegarmos à ‘fonte’ … isso são outros vinte e cinco tostões … com mais ou menos ‘luz’ leia-se …
    ( muito se falou desta peça/instalação em lugares sinistros, não ‘línkú’ para a conversa não ir parar à ‘cuzinha’)
    Lol

  2. Pedro Marta Santos diz:

    A peça nunca foi tão actual. Obrigado pelo texto, Bernardo.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Tenho algumas reservas sobre o trabalho de Duchamp, mas acho que tocas num ponto que não discuto: É de uma actualidade extraordinária, e percussor em muitos aspectos que hoje se consideram garantidos.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    É como dizes, Bernardo: um bocadinho angustiante, para dizer o mínimo. Nunca vi a obra: que dimensões tem a instalação? Assim, como a vemos, esta mulher pode estar morta, violada, o diabo a quatro. É a coisa mais “deserótica” que já vi.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Sem dúvida Manuel…a primeira impressão que tive foi de um corpo violado…A peça em si terá uns 3 metros por 3…e é um “cenário” em três dimensões que vemos em perspectiva. Claramente o mais interessante é a idea de que a peça é “descoberta”, e a “abertura” que nos é dada na sua interpretação: A cena representada não nos dá pistas, é mais a nossa “surpresa” e o “choque” que moldam a nossa opinião.

  4. fernando canhao diz:

    Conhecia(?) LA MARIEE MISE A NU PAR / SES CELIBATAIRES, MEME. Anos depois numa loja de bairro compro uma cassete de Brian Ferry “The Bride Stripped Bare”. Break even.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      break Even !!! Também tenho esse álbum do Brian Ferry, La Mariee…é uma obra um pouco antes do Grand Verre, que terá servido de estudo a este…que se pode ver no mesmo Museu…

  5. Pedro Bidarra diz:

    E pronto. Agora vou ter que ir espreitar a Filadélfia

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Vale a pena não só pela colecção do Duchamp ( a mais completa em todo o mundo), mas também por outras obras de arte moderna e contemporânea, lembro-me específicamente de um belíssimo Modigliani….

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