Ali onde o rio faz uma curva

Mekong desenhado em Si Phan Don, por tc

Foi onde aprendi uma canção. Ali o rio ganha terreno largo sobre as margens. E as margens fintam-no com orgulho: um mergulho e ressurgem dentro dele, ouriços a sacudir cabelo verde.  Pequenos vulcões de arbustos e seixos. Os livros turísticos apresentam-na como a terra das “4 mil ilhas”. E é curioso ver o que acontece à paisagem depois da curva no rio. 

Antes, aconteceu-me aquela canção.

Não era a curva do rio africano onde Naipaul colocou o seu Salim a vender this and that, não há tribos guerreiras à vista nem mudanças violentas. Mas eu tinha de ser a que chegou e viveu uma, subterrânea. Subaquática?

Decorar canções é um truque que uso para aprender mais depressa uma língua estrangeira. Aprendo e não esqueço, e acho que sei canções swahili, khmer, farsi, núbias. Ilusões, cada um cria as que quer. 

Desta vez não foi pelo truque. Foi a voz. Banda sonora perfeita para filmes melosos e curvas de rio asiático. Língua de borras, alfabeto intransponível, este do Laos. Ouvi a canção várias vezes, antes de tentar a transcrição fonética, antes de pedir tradução, que chegou aos soluços, ilhas sem pontes. Sabia o que dizia antes de saber, não se sabe sempre?

Ali o rio faz uma curva e uma despedida. 

O tempo reconhece-se, talvez, nos espelhos e nas dores. O rio passa, sem saber dos espelhos. Mas a curva saberá, quando a olharem, de memórias que não perdem cor como as aguarelas.

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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11 respostas a Ali onde o rio faz uma curva

  1. manuel s. fonseca diz:

    Que curva tão linda.

  2. Pedro Bidarra diz:

    As canções são sempre letra e música. Os post também funcionam assim, letra e imagem. Este é uma bela canção.
    ps. Eu tenho vindo a treinar o alemão a cantar em dueto com a Marlene Dietrich “Ich bin von Kopf bis Fuss”

    • Teresa conceicao diz:

      Huuum, Pedro. No próximo jantar de grupo já posso fazer coro consigo no refrão. Eu levo o chapéu 🙂
      denn das ist meine Welt…und sonst gar nichts.

  3. que bonito é, vê-la em cada pincelada.
    ‘… e esse seu coração às cores.

  4. Teresa conceicao diz:

    Querida Eugenia,

    já valeu a pena ter reencontrado esta curva só para a rever a si. Faz-me tanta tanta falta.
    Obrigada pela bondade.

    Beijinho

  5. Teresa conceicao diz:

    A Rita sabe bem que os corações sao sempre o mais difícil de pintar…
    🙂

  6. Maracujá diz:

    Que doçura de texto, Teresa! E eu que me perco com doçuras, perdia-me agora nessa aprazível curva que fez soar.

  7. teresa conceição diz:

    Oh. Que querida, Maracujá.
    Mas olhe que as curvas têm sempre muito que se lhes diga 🙂

  8. Maracujá diz:

    E eu que sei tão bem isso, Teresa! Dificil é mesmo parar! 🙂

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Curvas serenas no rio e na cor, o texto com as aguarelas podia ser um filme…e a fotógrafa e pintora passava à realização…

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