As astúcias de Borges

A 24 de Junho de 1969, numa casa de Buenos Aires, um escritor cego acaba de redigir o prólogo para o seu quinto livro de versos. Eram, com toda a probabilidade, as 4 horas da tarde.

Tinham-lhe pedido que, nesse prólogo *, a anteceder um livro de “espelhos, labirintos e espadas” fizesse uma declaração sobre a sua estética. Borges, o escritor cego, declarou não ter nenhuma, mas atreveu-se a confessar as suas astúcias. Resumo esses oito hábitos humildes que rejeitam a arrogância barroca dos jovens.

  1. Evitar os sinónimos que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias.
  2. Evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos.
  3. Preferir as as palavras habituais às palavras assombrosas.
  4. Intercalar num relato descrições circunstanciais que o leitor actual exige.
  5. Simular pequenas incertezas já que se a realidade é precisa, a memória não o é.
  6. Narrar os factos como se não fosse capaz de os compreender.
  7. Recordar que as normas anteriores não são obrigações.
  8. Recordar que o tempo se encarregará de as abolir.

Lê-se e só apetece envelhecer.

* Pg 975 da minha velhinha edição da Emecé Editores, Buenos Aires, 1974

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a As astúcias de Borges

  1. Pedro Bidarra diz:

    Amen

    • manuel s. fonseca diz:

      E eu benzo-me, PB.

      • fernando canhao diz:

        envelhecer por desejo nem ás paredes o confesse. Narrar os factos como se não fosse capaz de os compreender. Belíssima ideia. E acerca de Adolfo B. Casares para quando um seu comentário? De 27 a 29 de Julho 2012 no the 8th Hot Rod Hayride terá Wall of Death e Anna Fur Laxis no seu número de burlesco com facas. http://www.hotrodhayride.com/

        • manuel s. fonseca diz:

          Fernando, do Adolfo não sei, mas ao número burlesco com facas, claro que sim, que tenho de responder…

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A astúcia da idade, a sabedoria acumulada numa alma grande mas simples…maravilhosa entrevista!

  3. manuel s. fonseca diz:

    Borges diz estas coisas, ma depois começa-se a lê-lo e são mundos e mundos, camadas de mundos, restos de galáxias, civilizações desaparecidas… A imaginação dele são mil bibliotecas, o corpo tremenda multidão de autores.

  4. maria poppe diz:

    eram, com toda a probabilidade, as horas todas de uma vida numa só hora…; não sei do que gosto mais, se de lê-lo, se de ouvi-lo, se de vê-lo… também me benzo…

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