As sombras de Burton

Nos bons tempos teria dito cobras e lagartos deste filme de um vampiro oitocentista e uma bruxa muito, mas mesmo muito boa. Nos tempos que correm, comecei a contar pelos dedos os momentos gourmet e foram:

– não é qualquer um que se atreve a abrir com os moody blues e as melosas, deliciosas noites de cetim branco;

– é preciso ser-se um descaradíssimo artista para mudar logo a seguir a agulha dos moody blues para a season of the witch, man!!!

– a reinvenção do alcatrão, esse piso bizarro;

– andar um tipo enfronhado numa espécie de livro de são cipriano à procura da letra diabólica e, saído do caixão, dois séculos depois, descobrir num mefistofélico M, num certo néon, a fonte de todo o mal;

– a aparição bronca do fabuloso Jackie Earle Haley a anunciar que estamos em 1972– que grande actor;

– um vampiro não conseguir descobrir, já não digo uma cama, mas apenas um canto decente para dormir confortável;

– a maravilhosa cena de cultural clash face a um televisor: “What sorcery is this? Reveal yourself, tiny songstress!

– um filosófico vampiro, num rebate pós-charro, despachar com grande limpeza e apetite uma dúzia de retardados hippies dos anos 70… (e o espectador adorar a chacina);

– a generosa aparição de Alice Coper, the ugliest woman I’ve ever seen, para horror de Johnny Depp;

– o momento em que a câmara se fixa em Johnny Depp e uma rendida e devota Helena Bonham Carter ajoelhando-se sai de campo (sim, o filme é lubricamente depravado);

– michelle pfeiffer…

Bem sei que as doses vêm servidas em tempos desequilibrados, mas há guilty pleasures pelos quais tudo se desculpa. Já não via um filme capaz de saber ser camp há alguns anos. Ah, grande Tim Burton.

 

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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17 respostas a As sombras de Burton

  1. G.Rocha diz:

    Ele há coisas que eu não consigo explicar, e Tim Burton é daquelas “personagens “com as quais eu não engraço de forma alguma, nem nestes textos maravilhosos escritos por si, Manuel! 🙂

  2. manuel s. fonseca diz:

    Ainda bem que se riu e gostou – espero que do filme também. O mefistotélico não era uma ironia criativa, foi mesmo e só um despachado “erro nocturno” – bem vê que quando o pano já não é grande coisa, logo começam a cair as nódoas.
    Obrigado pelos seus comentários ao blog que também é seu.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Oh, mas olhe que o Tim Burton (e o Depp) tem mais mil graças do que eu. Thanks.

  4. Rita V diz:

    uma onze avos ( não sei se é assim que se diz ) retribui beijos cintilantes.
    Lol

  5. Rita V diz:

    querido Manel, há sempre uma ( duas , três … ) bruxa na nossa vida que nos transforma. 😀
    Vivemos rodeados de vampiritos que nos sugam até ao tutano e a malta deixa. O seu texto e o trailer convenceram-me. Nunca gostei de caras mascaradas, assim como não gosto de máscaras, mas o humor e a inteligência de Tim Burton são irresistíveis.

    • manuel s. fonseca diz:

      Vá ver. Espero que se divirta. E não se importe se, de vez em quando, passarem uns 5 minutos chatinhos. O cinema também é para se passar pelas brasas…

  6. Ana Rita Seabra diz:

    Isto é imaginação a mais para a minha cabeça…é Tim Burton
    O seu texto é simplesmente delicioso 🙂
    Olhe que não sei se o Depp e TB têm mais graça que o Manel…

  7. Diogo Leote diz:

    Está visto que os Moody Blues voltaram à vida. Depois do excelente “Apollonide – Souvenirs de la Maison Close”, do Bertrand Bonello, todo ele passado num belo dum bordel na viragem para o séc. XX, o “Dark Shadows” é o segundo filme no espaço de seis meses a abrir com o “Nights in White Satin” (o “Apollonide” abre e fecha). Só isso já justifica o filme. E ainda bem que me dizes que a Michelle Pfeiffer também lá está. Essa mulher não tem idade.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Diogo, é que não tem mesmo: a Pfeiffer, I mean. Só muda de beleza. Tem muitas…

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não sendo um enorme fã do Burton ( onde está o PeNE ? Oh Norton estão a falar do teu Burton…), não é possível deixar de ficar constantemente surpreendido pela sua mestria, e da parelha que faz com JD, que terá sido algo responsável pelo filme ter sido feito. E que texto Manuel!!! ressuscitava um vampiro do limbo da morte….!

  9. pedro marta santos diz:

    Confesso que acho que o Burton pifou… Mas fazes uma defesa em grande, dottore.

  10. manuel s. fonseca diz:

    Ó Pedro, escrevi isto a correr, antes que tu visses o filme, e agora descubro que fiz bem. Se tivesses malhado no Burton, já não teria coragem de vir aqui contrariar-te. Agora que já estou despachado e meio aéreo, podes chegar-lhe à vontade para eu perceber por onde é que lhe agarras!

  11. Pedro Norton diz:

    Eu ainda não vi mas nessa contenda entre os os Mestres Fonseca e Marta Santos, voto pelo Burton. Vou gostar, está decidido.

  12. pedro marta santos diz:

    É assim mesmo. Até no cinema, sobretudo no cinema, as convicções fazem falta.

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