Destroyer versus Dan Bejar

São estas as contradições da indústria musical. Ou, melhor dizendo, de quem se está nas tintas para a indústria musical. A contraditória personagem é canadiana de nascimento e consta que, no registo, é Daniel Bejar, Dan para os amigos. A dita indústria impôs-lhe, ou o próprio impôs à dita indústria, o sugestivo nome de Destroyer. Tão sugestivo é o nome pelo qual se apresenta o “projecto” (segundo a cartilha da indústria, parece que é assim que se chamam as bandas de um só membro) que Dan tem revelado alguma predisposição para destruir aquilo que Destroyer vai construindo. É assim mesmo: enquanto Destroyer constrói meticulosamente em estúdio uma reputação de culto, o heterónimo Dan Bejar dá cabo dela impiedosamente em palco. Para estes ouvidos exigentes que um dia a terra há-de comer, a última obra de Destroyer mais prima não podia ser: Kaputt (é o seu título) foi só o melhor álbum pop de 2011. Acontece que o homem a quem o projecto e a obra respondem parece não ser da mesma opinião. Para os mesmos exigentes ouvidos que loucamente se apaixonaram por Kaputt, o pior concerto que o mesmíssimo ano de 2011 registou foi, pasmem-se, o que Dan Bejar deu no Festival do Sudoeste, justamente na apresentação ao público do seu álbum-maravilha editado sob o nome Destroyer. O que ficou na dúvida, para quem o viu e ouviu naquela noite de Agosto na Zambujeira do Mar (sorte a dele, era só eu e mais uma dúzia), é se Dan é sempre tão apático. Se tem por hábito cantar de cócoras a olhar para o infinito com uma cerveja em cada mão, que só larga para, e até eu acusei a vergonha alheia, agarrar numa cábula onde, literalmente, lê as palavras cantadas na magnífica peça musical que é Bay of Pigs (o momento mas brilhante, de entre outros brilhantíssimos, de Kaputt).

Talvez por não nos querer deixar na dúvida sobre se é ou não possível, em palco, a fusão plena entre Destroyer e Dan Bejar, e se é o paraíso ou o inferno que nos promete nas suas canções, a contraditória personagem volta a Portugal. Lá para Julho, no Musicbox em Lisboa, vem cá dar um ar da sua graça ou desgraça. Eu, pela parte que me toca, só depois decidirei se é caso para amar ou odiar.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Destroyer versus Dan Bejar

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A contradição Diogo tem várias facetas, chama-se produção, pós produção, mastering, re-mastering, mixing…Muitos destes “grandes génios” não se aguentam sózinhos com um qualquer instrumento na mão…mas sou um pouco suspeito porque aceito que não é a minha “cup of tea”…

  2. Diogo Leote diz:

    Neste caso, Bernardo, parece ser um caso de total displicência, mais do que produção a mais e talento a menos. Ou mesmo de alienação mental em palco. E curioso é que há casos em que a coisa funciona ao contrário: sensaborões em disco e transcendentes em palco.

  3. Rita V diz:

    não conhecia este animal de palco. ah ah ah
    fui ouvir e ver até ao fim
    não desgostei da música. o clip achei uma trapalhada mas acho a ideia do balão dentro de água do fim interessante.
    acho que se deve ouvir muito bem com uma ganda ‘pedra’
    Lol

    • Diogo Leote diz:

      Rita, para quê uma “ganda pedra” se esta música é já a “ganda pedra” ela mesma? Experimenta ouvir o álbum todo, é do melhorzinho que se fez nos últimos anos. E juro-te que não estou pedrado.

  4. Toy PS diz:

    Olá a todos. Tenho este album e gosto muito. Aliás tenciono ir ver e ouvir em julho. Bjs e abraços. Toy

    • Diogo Leote diz:

      Olá Toy, bem vindo ao Escrever é Triste! É, de facto, um grande álbum. Mas fica o aviso que o homem está longe, muito longe, de ser um animal de palco. Um abraço.

Os comentários estão fechados.