Desvirtudes da ventura

Valdemira Gomes do Ó – ou Mirita, como todos a conheciam em Tagilde, onde geria com pulso de ferro um mini-mercado com tasca associada – atravessou a ponte sobre o Tâmega em direcção à bela Igreja de S. Gonçalo, onde entrou animada de plano concreto. Já dentro do rico templo procurou a pequena capela do santo, que à hora do almoço não apresentava grande movimento – apesar daquele primeiro domingo de Junho ser a sua festa anual.
Junto ao túmulo de calcário polícromo apenas duas mulheres rezavam, tocando o monumento umas vezes com as mãos, outras com a cabeça.
Mirita esperou, de joelhos no chão.
A seu lado, no interior de um saco colorido feito em espesso tecido bordado com motivos florais, descansava um outro saco de plástico transparente bem cheio de Doces do Santo – uma espécie de cavacas de Resende de formato inequivocamente fálico. Ela e o marido iriam nos dias mais próximos ter por sobremesa exclusiva os conhecidos ‘Caralhos de S. Gonçalo’.
Mas faltava o principal, de acordo com os conselhos da mulher de saber que consultara há duas semanas na Portela do Gove: devia esfregar a testa do corpo no túmulo do santo, mas sem qualquer roupa em cima…
Por isso viera sem cuecas.
Restava aguardar o momento em que a capela não tivesse ninguém: então iria erguer a saia, esfregando de seguida a felpuda intimidade no calcário pintado que cobria e alindava o túmulo do santo padroeiro de casadoiras e inférteis de longo curso.
Finalmente o momento chegou.
Ninguém à vista!
Mirita levantou a saia, que escolhera larga e apropriada à ousada manobra, e, cheia de cuidados, esfregou uma e outra vez a testa do sexo no vértice já um pouco gasto do velho túmulo – ao mesmo tempo que murmurava a ladainha que a Bruxa de Eiriz, como era conhecida a sua mulher de saber, lhe indicara por conveniente.
Na sua devoção paroxística nem deu pela aproximação de uma outra mulher, bem mais velha, que a assustou com um comentário trocista:
– Ó santinha…, deixe-se lá disso, carago… Olhe que não vão ser essas esfregadelas que a vão ajudar, isso é garantido…
Mirita, que baixara num repente o largo vestido e se apressava a ganhar alguma compostura no meio de uma coradela que não enganava ninguém, apressou-se a ripostar uma quase irada e gaguejante pergunta:
– E quem é você para saber se funciona ou não?…
– Sou parteira diplomada, Genoveva Pires ao seu dispor… Mas diga-me só uma coisa: já fez algum teste de fertilidade?…
– Já fiz sim senhora!, e o doutor disse que eu não tinha nada estragado…
Então a diplomada Genoveva pediu-lhe para a acompanhar para fora da igreja, pois tinha algo de muito importante para lhe dizer.
Já cá fora, no parque lateral ao convento, mesmo em frente ao Museu Amadeo de Souza-Cardoso, as duas encontraram poiso calmo e relativamente distante de ouvidos alheios.
Genoveva Pires foi direita ao assunto:
– Minha santinha, se você não tem nada estragado… então quem está estragado é o seu homem. Ele porta-se bem no serviço?…
Que sim, que era um animal completo, que não a deixava em paz noite nenhuma… A não ser quando apanhava grossa carraspana. E acusava-a de não lhe dar filhos, um que fosse, e ela que bem queria, pois seria maneira dele a deixar em paz por uns tempos, ao menos…
– Então é porque tem os leites estragados…, disse a diplomada em tom professoral.
Que não podia ser, que nem lho poderia dizer, que a matava, que lhe fugiria – lamentava-se Valdemira Gomes do Ó, com lágrimas fáceis a inflamar-lhe já as vistas.
O conselho da diplomada parteira chegou seco e pesado com um relâmpago do estio:
– Arranje outro macho para o serviço… Mas longe daqui, que não seja conhecido… E faça a parte de comer os doces, e diga ao seu homem que veio à igreja esfregar-se, que ele assim achará que foi mesmo milagre…
Da imediata reacção furiosa de Mirita resultou o fim da entrevista, com a parteira Genoveva a bater em retirada no meio de comentários pouco abonatórios à inteligência da putativa mãe frustrada.
À falta de melhor, a gerente comercial de Tagilde voltou à igreja em busca de consolo no confessionário.
Cinco meses se passaram, assim como muita água do Tâmega correu por baixo da velha  testemunha granítica de napoleónicos esforços e galopes liberais ou absolutistas.
Num início de tarde outonal, Valdemira do Ó saía do restaurante ‘Zé da Calçada’ apoderada do braço de um homem atarracado que se esforçava, de forma quase hostil para terceiros, por protegê-la de qualquer encontrão do muito povo que animava as ruas. A protuberância ventral que Mirita exibia não deixava dúvidas: estava grávida, muitíssimo grávida!…
O casal encaminhou-se para uma Toyota Hiace, onde o homem, com cuidado extremo, ajudou a mulher a subir e a instalar-se comodamente no lugar do passageiro. Depois, ligando o rádio e beijando-a com carinho evidente, rumou à Igreja de S. Gonçalo.
Mirita cabeceava de sono quando um leve toque no vidro da Hiace a fez despertar para uma incómoda realidade: do outro lado, com um sorriso de frincha negra, a parteira diplomada fez-lhe sinal para descer o vidro.
Não querendo escândalo, a gerente comercial de Tagilde lá acedeu em descer o vidro, para de imediato ouvir um sonoro «Ahhh!…».
– É, respondeu Mirita secamente.
– E?…, perguntou a parteira Genoveva.
– Oh!…, não lho vou dizer, carago…
– Diga-me só se é de longe, minha filha. Não lhe quero mal nenhum, e por isso é que lhe pergunto se não é daqui… Porque, veja bem, se for daqui e tiver mais filhos, ainda pode acontecer uma coisa que você nunca quereria… Imagine que tem uma menina e ela, daqui a 20 anos, se apaixona por um meio-irmão que não conhece?…
– Bem…, começou a medo a futura mãe, ele não é daqui mas tem vivido por aqui…
– Eu sei tudo sobre os pais e os filhos desta cidade e arredores…, bem, de quase todos… Diga-me só quem é, para sabermos se há algum risco. Pela minha honra que nunca falarei no assunto…
Mirita corou como uma romã madura e bem aberta, antes de garantir que não havia perigo nenhum:
– … É o padre…
Genoveva Pires deitou por momentos as mãos à cara, antes de declarar o seu espanto:
– Ai então não há perigo por ser o padre?!… Pois olhe que agora é que o perigo é grande, mulher!… É que eu nem lhe conheço os filhos todos, carago…
Eu bem lhe disse que isso era para se fazer longe daqui, santinha!…
A conversa desfez-se ali, o vidro subiu lentamente, com o mesmo vagar com que a diplomada se afastava da Hiace.
O atarracado marido regressava, de sorriso estampado no rosto.
De longe ainda, apontou para um transparente saco repleto de ‘Caralhos de S. Gonçalo’.
Ao entrar no furgão anunciou com felicidade evidente:
– Hoje até me confessei!…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

33 respostas a Desvirtudes da ventura

  1. G.Rocha diz:

    Ja chorei a rir com o seu texto, e andava a precisar de rir :)…. obrigada! (Excelente texto, escusado será de dizer)

    • António Eça de Queiroz diz:

      G. Rocha: isso quer dizer que o texto cumpriu a sua principal e talvez única função, o que muito me agrada.
      Obrigado por ter gostado!

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    António: simplesmente fabuloso, sem palavras…!!!!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Bernardo, até fico corado, que nem a Mirita do Ó…
      Ainda bem que gostou.

  3. RB diz:

    Que caralho de mulher. Devia ter comido umas caralhotas de Almeirim para ver se ficava um nadinha menos lerda ahahahahah

    • António Eça de Queiroz diz:

      É capaz de ter razão: estes atavismos – suevos ou visigóticos, não sei – podem produzir grandes equívocos.
      Presumo pois que as ‘caralhotas’ de Almeirim tenham muito fósforo e magnésio, não?…
      Se o fiz rir venci o meu desfio. Espero que sim.
      Um abraço.

  4. Rita V diz:

    Adorei tudo
    Até a fotografia doce
    ah ah ah

  5. manuel s. fonseca diz:

    Ainda há milagres. Sobretudo quando o nosso António nos vem com doçuras. Excelente companheiro.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Como todos os milagres formalmente canónicos, este tem o que se lhe diga!
      Ainda bem que gostaste, meu irmão…

  6. Minhona David diz:

    Antes de passar aos adjectivos superlativos, um apontamento sobre os nomes com que este autor baptiza as suas personagens, apesar de neste caso se ter mostrado bastante comedido. Imagino uma tertúlia de emoções, hoje, no além, com os seus antepassados entre sorrisos e queixinhos tremidos, unidos por este texto.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Fui comedido porque não ‘baptizei’ nenhum dos ‘machos’ da festa – embora aquele padre merecesse alguma atenção…
      Paciência, agora fica sem nome.
      Gostei muito da ideia de uma tertúlia no Além…
      Obrigado, Minzinha…

  7. Ana Rita Seabra diz:

    Ahahahaha carago! Só de ver a fotografia desmanchei-me a rir e ainda não li o texto 🙂
    Vou ler já de seguida que deve ser fantástico!

  8. Ana Rita Seabra diz:

    António, fabulástico! Adorei e continuo a rir 🙂

  9. 🙂 E escreveu isto tudo assim para lá de muito bem sem corar? 🙂

    • António Eça de Queiroz diz:

      Ivone, por razões que realmente desconheço perdi a capacidade de corar por volta dos 17 anos – quando devia corar desato a rir, por vezes de forma absolutamente inconveniente…
      Já fiquei muito mal visto em certos areópagos mais sisudos!

  10. Benvinda Neves diz:

    Com ou sem proveito da fama não se livram os padres (sobretudo os de aldeia). Será que os que gozam apenas da fama também murmuram ladainhas de alívio contra o túmulo de algum santo ou serão apenas pragas contra a malfadada castidade?
    Excelente texto “ungido” com o dom de bem dispor.

  11. António Eça de Queiroz diz:

    Excelente questão a sua, Benvinda, à qual nunca saberei responder (acho mesmo que cada caso será um caso…).
    Se o texto a dispôs bem então cumpriu o seu serviço.
    Obrigado pelo comentário.

  12. fernando canhao diz:

    Uma Hiace, faz todo o sentido, Nada de mariquices tipo VWs Transporter, Mercedes Vito ou inclusive Transit da nova geracao. E claro nada de desligar o motor enquanto se cumpre um dever religioso, pois so assim se poupa nos Bendix, que o gasoleo agricola comprado ao primo nao se fez para dar de beber ao gado.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Também achei que a Hiace rimava melhor com o conjunto.
      Se houver sequela vai aparecer o primo a traficar gasóleo verde, está prometido, Fernando…

  13. O Eco de Umberto diz:

    Como diz um amigo meu de Penafiel, que parece os Schtroumpfs a falar: ó caralho, mas que prosa do caralho!

    • António Eça de Queiroz diz:

      O seu comentário, caro Eco, ecoou até na nave central da igreja de S. Gonçalo.
      E Amarante inteira tremeu!
      Obrigado.

  14. Carla L. diz:

    Fiz como a Rita e logo de cara ri com a fotografia.Adorei o texto todo.E uma graça seu Padreco, ainda mais quando hoje em dia está na moda acusá-los de pedofilia.O seu , pelo menos, fazia uma espécie de trabalho social.Vá lá, tinha o seu valor!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Exacto, Carla, à sua maneira este padre praticava uma pastoral bastante genuína.
      No fundo era a extensão humana do S. Gonçalo, o seu (por assim dizer) braço armado…
      Ainda bem que gostou!

  15. Pedro Norton diz:

    Genial, carago!

  16. Maracujá diz:

    Brilhante, caro António! Brilhante…

    • António Eça de Queiroz diz:

      Obrigado Maracujá, como já deve ter percebido sou razoavelmente vaidoso – e por isso, também, gosto que tenha gostado.

  17. aurélia madeira diz:

    Fiquei fã… isto é sina!!! Não resisto mesmo a nenhum Eça de Queiroz… está visto :-))

    • António Eça de Queiroz diz:

      E eu fico muito contente de ser adicionado ao lote – embora saiba que não é bem assim…
      Obrigado por ter gostado, Aurélia!

  18. saorosas diz:

    Olá. Só hoje um amigo meu me enviou este texto. Que delícia!
    Autoriza-me a publicá-lo (com os devidos créditos, obviamente) no meu blog «a funda São»?

    • Sãorosas, por estranho que lhe possa parecer só hoje vi o seu comentário… (a verdade é que já não faço parte do “Escrever é triste há uns bons três anos…) Quanto ao seu pedido, e se ainda houver interesse nisso, é claro que autorizo.
      Cumprimentos do António EQ

Os comentários estão fechados.