Diálogo Final de Surdos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
M.Vlaminck, Retrato de mulher, e auto retrato
 
 
-Porra! Como e que tens a lata de me dizeres isso agora?Ao fim deste tempo todo? De tudo o que eu fiz por ti? De tudo o que eu perdi por ti? Não quero acreditar naquilo que estou a ouvir…!
-Não podia estar mais tempo assim! Tinha de te dizer. Já não aguentava mais!
-Pois… só pensas em ti, em ti, em ti! E eu?  Não consegues pensar em mim pois não?
-Não aguentava mais, já te disse! Agora sinto-me melhor e mais descansado. Melhor comigo mesmo!
-Pois sim, contigo mesmo, vê-se mesmo essa boa disposição, esse descanso, nessa carinha de sonso…é isso que tu és: um grandessíssimo sonso, e um grande filho da puta também!
-Ouve, é melhor sabermos a verdade, ou preferes viver na mentira e na ilusão? Estou contente e até orgulhoso por ter tido a coragem de te dizer!
-Quero lá saber da verdade agora que deste cabo da minha vida, meu grande sacana! Como é que queres que pense na verdade agora que estou na merda? É fácil para ti dizeres isso…
-Basta abrires os olhos e olhares à tua volta, basta parar um pouco e dar algum tempo ao olhar.
-Dar tempo ao olhar?Dar tempo ao olhar o tanas! Tu queres é ir  embora e enrolar-te lá com a outra, aquela merdosa que tem a mania que é fina.
-Com o tempo, tudo começa a parecer diferente perante os nossos olhos, aspectos que antes pareciam indiferentes agora passam a ter uma importância especial…sinto de forma diferente…
-Pois olha que deve ser mesmo especial,  aquele apartamento sinistro, virado a norte, com reposteiros e cortinados aos quadrados! Saíste-me cá um mentiroso, olha quem ! Só falta dizeres que estás apaixonado…
-É impressionante como tudo se altera só pela forma como se olham as coisas. A sério, estou a ser o mais sincero que posso! Só quero que sejas feliz e que encontres aquilo que procuras na tua vida.
-Eu não aguento mais! Isto é ridículo! Encontrar o quê, outro como tu? Nem penses…Vens aqui de manhã, tiras-me da cama  para me dizeres isso? Já viste como é que tudo o que pensas e tudo o que fazes é sempre virado para ti? És tu,tu, tu…?
Merda! dá-me um cigarro e deixa-me em paz!

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a Diálogo Final de Surdos

  1. Rita V diz:

    Se o fauvismo não tivesse sido um movimento relativamente curto estes dois ainda estavam casados. ah ah ah

  2. Só é de surdos porque não refere a marca do cigarro.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Não sabemos , porque eles também não sabiam, preocupados que estavam consigo próprios…

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Olha que deu-me vontade de rir…
    Adorei a frase como termina 🙂

  4. manuel s. fonseca diz:

    A good smoke, that’s all a man needs.

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