E a menina, tem alguma love experience para contar?

Está decidido: resolvi coleccionar num caderno relatos de love experiences. Com algumas condições: que sejam contados pela voz de mulheres, que a experiência não dure mais do que alguns segundos ou minutos e que não implique necessariamente – embora também não exclua à partida – aquilo em que estão a pensar.

A decisão deveu-se, claro, à razão de sempre, à aparentemente inatingível aspiração a aprender qualquer coisinha, por insignificante que seja, sobre os insondáveis desígnios da sedução feminina.

O exercício começou com uma casta Deborah Kerr, numa noite de calor algures pela costa ocidental mexicana, com um inquisidor com cara de Richard Burton a braços com angústias quanto à sua vocação de servidor da Igreja. Andavam iguanas por perto e, à mesma hora da confissão, a umas centenas de metros de distância, uma Ava Gardner – já quarentona mas mais voluptuosa do que nunca – entretinha-se com dois nativos locais, a chapinhar à beira-mar.

Terminado o desabafo da Kerr, confesso o que todos os homens confessariam no meu lugar: que desisto dos meus nobres propósitos de coleccionador e que me estou nas tintas para tentar perceber as mulheres. E que o que quero mesmo é ir a correr para a beira-mar, para perguntar à Gardner se precisa de ajuda. E mais não digo.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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14 respostas a E a menina, tem alguma love experience para contar?

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Diogo, parece-me que deve ser essa a atitude a tomar : desistir de tentar entender …ou como diriam os ingleses “beware of your ambitions, you might achieve them!!!” Bem escolhida a cena, belo “close-up” no meio do interessante diálogo.

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, esta cena, mesmo sem mostrar nada, é de um erotismo como já não se vê em filme nenhum. Não passaria, isso estou certo, no crivo do Código Hays (que, na altura, em 1964, já tinha ido à vida).

  2. manuel s. fonseca diz:

    Confesso que há em tudo o que ela diz uma extrema, erotíssima delicadeza. Beme escolhido, Diogo.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, imagina o potencial da cena num anúncio publicitário a uma marca de lingerie. Aposto que, com tanto erotismo na delicadeza, as vendas iam disparar.

  3. Rita V diz:

    não sei se não prefiro aqueles xaropes musicais com que nos brinda ardentemente
    e que eu, confesso … adoro!

    • Diogo Leote diz:

      Rita: o xarope tem de ser consumido com moderação, em doses suaves e espaçadas, ainda mais se provoca ardor nos ouvidos de seus utilizadores. E, nos intervalos de cada dose, recomenda-se a ingestão de uma boa pratada de love experiences.

      • Rita V diz:

        ah! lobe? chama lobe a este erotismo perverso? um preso a outra semi-presa ?
        ah ah ah
        seja … pronto(s) lobe lobe lobe

        • Diogo Leote diz:

          Tens razão, Rita, este é que o verdadeiro Love. As coisas perversas que eu trago para aqui são só experiences….

  4. Maracujá diz:

    “Segui as indicações que me dera.
    Era um fim de tarde de uma primavera que não sei precisar, mais uma primavera onde aos fins de tarde a cidade com os seus automóveis, eléctricos, comboios e outros, parece entoar do envelhentado piano de Johann Sebastian Bach a orquestrar “Air”.
    Tinha chegado. A casa era antiga. A porta da rua estava aberta, coloquei a mão na maçaneta e alguém do lado de dentro a abriu. Era um jovem moreno, alto, com barba de dois dias que me cumprimentou com um “olá!”. Simpático! Transportava cautelosamente uma bicicleta no braço esquerdo, ou talvez não fosse uma bicicleta e fossem apenas livros. Mas gostaria de imaginar que naquele fim de tarde de primavera alguém saíra daquela casa para passear de bicicleta.
    Havia uma escada ao fundo de madeira escura, devia ter alguns buracos e eu já me imaginava a não conseguir transpô-los e cair desastrosamente por um deles, ficar presa e aos vinte dias de cadáver em decomposição chamarem a polícia, porque o mau cheiro inundava o prédio e finalmente, com a ajuda de um canino do primeiro andar, que uivava havia dez dias seguidos, lá descobriam o meu corpo escangalhado a jorrar todo o tipo de larvas e insectos que possam imaginar.
    Mas não foi isso que aconteceu.
    Trazia umas bailarinas calçadas e isso era o suficiente para me fazer subir aqueles degraus, sem medo, em jeito de bailado solitário, na expectativa de poder subir e descer as vezes que quisesse. E foi isso mesmo que fiz. Subi e desci na minha inquietude até ser interrompida pelos estrondosos passos de um rapazito dos seus dez ou doze anos, vestido com um equipamento de futebol suado, que me olhou desconfiado, ou não estaria eu em propriedade alheia.
    Sem lhe dar hipótese disse:
    – Que andar é este?
    – Segundo, minha senhora.
    – Obrigado e boa tarde.
    Ufa! Safei-me! A mãe abriu-lhe a porta para minha salvação de qualquer outra pergunta ou resposta.
    Tinha que subir mais, mas agora sabia que tinha as minhas bailarinas.
    Uma porta lá em cima junto a uma linda cúpula por onde os últimos raios de sol daquele dia entravam, abria-se.
    Surge um estonteante vulto masculino.
    Demónio descido em mim que com sua voz melodicamente tortuosa me insana palavras mudas.
    Atira-me contra a parede gélida da moradia para tais pecadoras, puxa-me os cabelos, morde-me o colo humidamente e faz-me suportar o dorido sabor do prazer extremo.
    Essa voz que me enlouquece, essa voz que me toca em sonhos, a voz que inunda o meu sangue e escorre pelas mãos hoje aqui meus amigos, dia em que a ouço como da primeira vez e corto ferozmente, para vosso regalo, meus pulsos, para libertar esta voz que me mata.
    A porta abre-se e ele diz:
    – Entra.
    E nada mais importa…”

    • Diogo Leote diz:

      Cara Maracujá, embora já tenha deitado o meu caderno para o caixote do lixo, muito obrigado pelo seu relato, que a casta Deborah Kerr não desdenharia.

  5. Maracujá diz:

    Caro Diogo, lamento que se tenha desfeito de tamanha relíquia! Julgara eu que restavam ainda alguns fragmentos desse seu caderno onde pudesse eu, indiscretamente, colar alguns dos cromos de “Love Experience” da minha velha e gasta caderneta! 🙂

    • Manuel diz:

      Parece que a historia não acaba aqui, pelo menos fica a imaginação para delicia do leitor

      • Diogo Leote diz:

        Caro Manuel, a continuação da história pode ser deixada à imaginação do leitor. Mas o leitor muito curioso, ou com pouca imaginação, não resiste a ir espreitar o filme. Seja como for, o desenlace é sempre o mesmo: o da total impossibilidade dos homens em perceber as mulheres.

    • Diogo Leote diz:

      Maracujá, talvez outros homens mais ingénuos ainda tenham cadernetas à mão. E com cromos para a troca!

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