Escreva sem que lhe paguem

Nem todo o jovem escritor em busca de conselhos esbarra com uma carta de Rilke que logo lhe explique que “Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo.

Supúnhamos que o aspirante a escritor sobe o Mississipi num velho vapor. É provável que se dê conta que vai ao leme um alegre e aventureiro Mark Twain. Descontada a ironia, não é de desprezar este seu aviso: “Escreva sem que lhe paguem até alguém se oferecer para o fazer. Mas se ao fim de três anos ninguém se oferecer, considere seriamente que talvez esteja destinado a ser lenhador.

Seja como for, o musculado e promissor escritor segue o obstinado caminho e está pronto a publicar o primeiro romance. Tem humildes dúvidas, ainda assim, quanto à estrutura, a que regras obedecer. O sarcástico, cínico Somerset Maugham, fala-lhe do alto da sua bem sucedida conta bancária: “Há três regras básicas para escrever um romance. Infelizmente ninguém é capaz de dizer quais são.

O exuberante Tom Wolfe, finamente prestável, aponta o caminho: “O problema com a ficção é que tem de ser plausível, o que já não é verdade para a não ficção.” Acreditem. Ele mesmo, aos 9 anos de idade já escrevia uma biografia de Napoleão.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a Escreva sem que lhe paguem

  1. Diogo Leote diz:

    Sábios conselhos estes. Há-de ficar sempre por explicar porque é que não basta, para se ser um romancista digno de consideração, escrever muitíssimo bem e ter alguma coisa de verdadeiramente interessante para contar. Quantos e quantos, sobejamente conhecidos pelas duas virtudes, ficaram pelo caminho?

    • manuel s. fonseca diz:

      Diogo, como é que Cristo caminhou sobre as águas? foi andar sobre afogados escritores falhados, claro…

  2. Rita V diz:

    que estranho … esta coisa dos campos mórficos. parece que somos vários a dizer o mesmo por outras palavras. este seu texto acima é mesmo muito especial.
    ‘the best I can when I can without thinking tomates’
    Lol

  3. manuel s. fonseca diz:

    Ah, tem de me explicar os campos mórficos…

    • manuel s. fonseca diz:

      Ou seja, estimada Eugénia, até agora eu só andava de avião, mas para a semana já vou ser piloto sem precisar sequer de tirar o brevet? Boa.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    É o que dá pedir conselhos aos “mestres”, ouve-se aquilo que não se queria, porque é difícil aceitar as nossas limitações…

  5. manuel s. fonseca diz:

    Sobretudo é difícil perceber as limitações dos mestres: são servidos com demasiada luz!

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