Escrever de pé, mijar sentado

 

Queres ver que o Steinbeck mijava sentado?

O que é que o Elefante Branco tem a ver com a discussão que o Manuel e o Panurgo estão a ter ali em baixo sobre Faulkner e Nabokov? Ao contrário do que estão a pensar,  não se trata da novel categoria de “literatura de bordel” que o Bidarra também para lá inventou. A verdade é que o Elefante Branco não é para aqui chamado. Mas o Cisne Negro (que, como é fácil de ver, também tem nome de estabelecimento com nome de bicho) tem toda a pertinência. E ninguém está a falar do pastelão do Darren Aronofsky. O Cisne que conta é o do Popper. O Branco, o tal que, não servindo para ser usado para afirmar um enunciado universal (“todos os cisnes são brancos“), pode ser usado para demonstrar que um determinado enunciado universal ( o tal “todos os cisnes são brancos“) é falso. Basta para isso que surja um Cisne Negro. Ora o que o Manuel ali nos propõe é um enunciado universal: “não há nenhum escritor que escreva de pé e que chegue aos calcanhares do Faulkner“. Vai daí, só para chatear o Panurgo, espeta-lhe com um enunciado singular: “Nabokov escrevia de pé“. O que, de facto, constitui um primeiro teste à sua teoria uma vez que, já se vê, o homem não chega, de facto, aos calcanhares do Faulkner. Eu, para ajudar à festa, junto-lhe mais um enunciado singular: “o Hemingway também escrevia de pé“. Já são dois, vá, Cisnes Brancos. Na boa lógica Popperiana é agora imperativo que o Panurgo observe um escritor que, escrevendo de pé, chegue aos calcanhares de Faulkner. Sem Cisne Preto não há nada para ninguém. E já agora, só para não haver dúvidas, convém que esse putativo escritor, para além de escrever de pé, mije sentado. É bem verdade que, em bom rigor, estamos a desviar-nos ligeiramente do método Popperiano mas, assim como assim, a teoria fica mais irrefutável.

Venha daí o tal scotch!

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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29 respostas a Escrever de pé, mijar sentado

  1. Rita V diz:

    O Rómulo de Carvalho também escrevia de pé!
    😀

    • É verdade! Rómulo escrevia sempre de pé! Escreveu quilómetros e quilómetros de linhas (tudo pode ser consultado no Arquivo da Biblioteca Nacional) sempre de pé. Só se sentava para as refeições. Havia um armário – “o armário” – que hoje tenho eu, mandado fazer de propósito, à sua altura, para poder escrever de pé, bastante ergonómico, por sinal.
      Morreu deitado.

      Tudo poderá ser lido na sua Biografia que estou a acabar de escrever e que será apresentada no final do ano.

      Cristina Carvalho

  2. pedro marta santos diz:

    É pá, só agora é que reparei que comentei o sempre em pé do Hemingway na discussão Dottore-Panurgo antes de ler este teu texto… e, desculpa, pastelão, o Cisne do Aronofsky? Olhe que não, nobre cardeal, olhe que não…

    • Pedro Norton diz:

      Pronto, pronto. Vou voltar a ver para poder concordar contigo que é uma coisa que eu gosto muito de fazer.

  3. Panurgo diz:

    http://www.powells.com/biblio?isbn=9780807121634

    E não tenho bem a certeza se o Delmore Schwartz mijava sentado. Mas também, quer dizer, quando vou a casa das pessoas também me sento. Para não dar barraca. Nunca fiando.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Panurgo, não me abandalhe o Delmore (que o Lou Reed tanto preza). Ainda agora o lancei e depois o pessoal não compra. O conto das Responsabilidades tem muito bons momentos. Mas compará-lo ao Faulkner, vou ali e nunca mais volto.

      • Panurgo diz:

        Isso é que não! Já bastou a Eugénia =(…

        Olhe não sabia que o Delmore tinha chegado cá. É o In dreams…?

        (e nem estava a comparar… At a Solemn Music… pobre Faulkner)

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Ah, pois está. E sim é o In Dreams. Nunca tinha sido traduzido em língua portuguesa. Um dia ainda trago algum Faulkner, umas cartitas, algum ensaio em que tenha aviado o Nabokov…

      • Pedro Norton diz:

        Se o Lou Reed gosta eu também gosto.

        • Panurgo diz:

          O Lou Reed e não só. Eu encontrei-o quando me ofereceram o Achtung Baby – e ofereceram-me o livro do Delmore, que uma das canções é-lhe dedicada.

    • Pedro Norton diz:

      Eis uma sábia decisão.

  4. teresa conceição diz:

    Grande título, melhor enunciado.
    Gosto destes cisnes. Não há cinzentos. As teorias, tal como as apostas, fornecem bons coloridos.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Acho admirável e blindada a teoria do PN. Pode mijar-se que não enferruja.
    Aliás, um escritor pode mijar de pé se mijar para o mar e desde que não mije sozinho. Eu, que estou a dois metros de altura de ser escritor, mijei de pé no porto de Saint-Malo com mais três camaradas, dois franceses e um russo, e não nenhum deles podia sequer ver uma caneta.

    • Pedro Norton diz:

      Olhe ó Doutor e mijaram em francês ou em círilico?

      • manuel s. fonseca diz:

        Se está à espera que lhe diga que foi uma Babel, tire o corcel da frente não vá molhar-se…

        • MJC diz:

          Palpita-me que o Manuel estava a ensinar Francês aos camaradas da mijinha colectiva, rsrs

          • manuel s. fonseca diz:

            Já disse que os camaradas franceses eram caçadores? Não disse, mas digo agora, e ao contrário do que pensamos, os franceses são tão pitorescamente únicos como nós: lá où pisse un françois pissent toujours deux ou trois… ah,ah,ah,ah

        • fernando canhao diz:

          tire o cor­cel da frente , belissima frase. Acerca do mais sugiro a releitura de Vidas Escritas de Javier Marias.

  6. MJC diz:

    * ensinar português.
    Lembrei-me do provérbio: “onde mija um português mijam logo dois ou três”

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Vou mijá embora….ter com o o Steinbeck o Faulhner e o Lou….

  8. Panurgo diz:

    No fim desta marretada toda scotch, gin, vodka nem vê-los. O Nabokov que se foda, ficar a mijar água é que me chateia.

  9. Pedro Bidarra diz:

    Escrever entre outras dores que dava e dá, dava dores nas costas. Escrever de pé é obviamente uma coisa do tempo em que os escritores não faziam ginástica e por isso não fortaleciam os dorsais. E, claro, não havia cadeiras ergonómicas. Também escrever de pé deve de algum modo estimular os dons da oratória. A posição vertical é a posição da oratória e do discurso, do falar com os outros da comunicação. Tenho como hipótese que quem escreve de pé imagina-se no púlpito ou em assembleia a ser ouvido. É dado a exibicionismos, mais vaidoso portanto.
    As relações entre o mijo e a escrita é que…

    • MJC diz:

      Bem observada essa comparação entre escrever de pé e o tipo de personalidade. Só mesmo vinda de um psicólogo, ehehehheh

      Tenho para mim que não é nada disso. Bem pelo contrário. Eles foram bastante inteligentes (tal como os copistas da idade média). Estar muitas horas sentado, independentemente do mobiliário ergonómico ou da actividade física, essa posição quando instalada por muitas horas diárias e quase 365 dias por ano, causa sempre mais sobrecarga sobre as estruturas músculo-esqueléticas do que a posição de pé. A solução é variar o mais possível para não se instalar uma posição deficitária, contra natura, e consequente dor.

      Mijar de pé (com pontaria, p.f.) e com regularidade será uma das actividades aconselhadas. Portanto, mijar sendo uma actividade relaxante pode estimular a escrita eheheheh

  10. Pedro Bidarra diz:

    … (desculpem fui mijar)… passam-me ao lado

  11. O Eco de Umberto diz:

    Dada a quantidade astronómica de líquidos destilados e fermentados que ingeria, por certo que Faulkner mijava em todas as posições do kama sutra. Agora escrever comprovadamente de pé só Fernando Pessoa e era por causa da famosa hemorroidal. Donde justificar-se a tese que só escreve de pé quem está irritado., com cisne ou sem cisne e às cores.

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