Filmes: Pierrot le fou

Este sim, ama-se e é God, odeia-se e é Godard. Para mim, Pierrot le fou é o mais poético dos filmes dele, de deus. Largo, em cinemascope. Veloz como um descapotável vermelho. Explosivo e terrorista. Mentiroso como toda a paixão.

Por amor à verdade disseram que era o último filme romântico. Por provocação disseram que era o primeiro filme moderno antes de Griffith. Pelo óbvio prazer de jogar com as palavras disse-se, enfim, que era um ‘filme negro’ a cores.

Ninguém se enganou, Pedro, o Louco é tudo isso e é ainda um filme de que só se pode falar utilizando a expressão ‘beleza sublime’. Godard filmou-o em 1965. Juntou Jean-Paul Belmondo a Anna Karina e procurou fazer deles os descendentes de Werther, o que quer dizer que lhes inventou uma história de amor louco. Belmondo e Karina vivem-na em cada rio, em cada apartamento, em cada árvore. Na França toda. Uma réplica de Karina resume com elegância a aventura deles: «Conhecendo-me, conhecendo-te, nunca, nunca prometas amar-me toda a vida.»

Na estreia, no festival de Veneza, houve guerra. Está certo e Godard já adivinhava. Samuel Fuller, o mais desapiedado dos cineastas americanos, aparecia, em Pedro, o Louco , a anunciá-lo: «Um filme é como uma batalha. Amor, ódio, acção, violência, morte. Numa palavra: emoção.» Só podia estar a falar da aventura de Pierrot e de Marianne, só podia estar a falar deste filme em que às vezes tudo é vermelho de sangue e às vezes tudo é azul de céu.

Pedro, o Louco já foi visto como manifesto premonitório de Maio de 68. Mas enquanto por Maio de 68 já passaram muitas águas, Pedro, o Louco continua a passar por todas as águas.

... a passar por todas as águas

É engraçado que esse filme fascinado por tudo o que pára o tempo (a pintura, os romances) continue a passar imune ao tempo. É engraçado e desconcerta. Tanto como nos desconcerta a partitura fabulosa de Antoine Duhamel ou a voz de Karina a cantar ‘Ma ligne de chance’ ou a sombra da poesia de Rimbaud e do verso que deveria ser a epígrafe deste filme: «L’éternité c’est la mer allée avec le soleil


Sugestão às leitoras da Marie-Claire. Setembro de 89.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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17 respostas a Filmes: Pierrot le fou

  1. fernando canhao diz:

    With all due respect, nao existem descapotaveis vermelhos, encarnados sim. E para quando um post sobre the wall of death daredevils?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fernando, tenho de ir de descapotável vermelho até esse poço da morte…

      • fernando canhao diz:

        Aguardemos, no meu caso com saudável expectativa.
        ps. No caso da Ferrari existe um Vermillion Red (Rosso Corsa) raríssimo, mas que para si será tinto.

  2. Pedro Bidarra diz:

    O primeiro filme do G que vi. E agora apetece-me ver outra vez, coisa que não faço há mais de 20 anos. O tempo passa… raios!

  3. Margarida diz:

    Tem toda a razão: este ama-se e é Godard! Vou rever.

  4. Rita V diz:

    nunca vi
    gostava de ver

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Dos filmes de Godard que mais aprecio, dois deles têem partituras de génio, (aliás já aqui referidas pelo Manuel): Le Mépris e Pierrot le Fou. Mas há também a sumptuosa imagem que em cor se espraia pela totalidade da tela. A rever sem dúvida…

  6. Panurgo diz:

    É isto. É letra de Fé cada texto seu sobre cinema. E é verdade também para mim: o Desprezo; o Louco – a ver se hoje o meto para ver. “Beleza Sublime”, de facto.

  7. Diogo Leote diz:

    E o Pierrot nunca passou pelas minhas águas. Preconceito meu, que estou sempre do lado da trincheira do Truffaut. Até porque, em 1965, ainda estavam os dois no mesmo barco.

    • manuel s. fonseca diz:

      Diogo, vê lá se abres uma excepção francesa para este, só para este “Pierrot”. Vais ver que não te arrependes…

  8. Ana Rita Seabra diz:

    Diogo, Pierrot também não me entusiasmou, apesar de adorar o Belmondo
    Para mim Godard que aprecio é Le Mépris e À bout de souffle!
    As minhas desculpas Manel 🙂

  9. Joao diz:

    ..não existe a cor ‘encarnada’, vermelho sim.

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