Homenagem à Hermes Baby

Esta é a minha. Verde. A única coisa verde de que gostei em toda a minha vida. A única coisa verde de que gostarei em toda a minha vida.
Durou dos meus 12 anos até surgir o milagre da informática. Fez rádio (Brandão Lucas e Padre José Maria) e a revolução, pouco cultural, pouco canónica, em Angola — o que se gastou em stêncil, meu bom Deus.
Serviu a Faculdade de Letras (nem o MS Lourenço de Filosofia Contemporânea se zangou com ela). Funcionou na Cinemateca (tantos anos), depois emprestada aos ciclos da Gulbenkian (todo o Musical e Ficção Científica bem mandada pelo João Bénard). Proletarizou-se nas revistas do voluntarioso Duarte Ramos; aburguesou-se no Expresso de Balsemão em mil críticas de bola preta; aligeirou-se num divertido Semanário sob a asa nonchalant de Vitor Cunha Rego.
Escreveu com indignação, algum idealismo, pedinchou, protestou, rejeitou, amou quase sempre, mas não me lembro que, verde de sua natureza e verde da inveja do imprestável usuário, tenha verdadeiramente odiado. De vez em quando ria-se e escrevia vermelho.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a Homenagem à Hermes Baby

  1. Margarida diz:

    Manuel, que bonita declaração de amor eterno!

  2. manuel s. fonseca diz:

    É um amor não correspondido: a máquina nunca me ligou nenhuma e trabalhou sempre muito senhora de si, escrevendo o que queria e fugindo com as teclas aos dedos do autor…

  3. Maracujá diz:

    Que linda, Manuel!
    Contou tanta história e deve esconder mil e um segredos! Cusquices!
    Tenho a certeza que é mulher! Tanta graciosidade! E cada letra deve ser mágica!
    Quisera eu, por um dia, ser tais teclas nas mãos de um Poeta…
    Mas Manuel, se essa Menina fosse Azul, roubar-lha-ia!

  4. manuel s. fonseca diz:

    Maracujá, será que as há azuis?! Temos de perguntar ao nosso António que é dragão! E não se deixe iludir pelas mãos dos poetas que, de tanto escreverem, são Tristes.

    • Maracujá diz:

      Adoro as tristezas da ilusão nos olhos dos Poetas! Não tenho medo, Manuel.
      Um bem-haja aos Dragões!

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Um “objet d’art” com kilometros de texto escritos…não a venda, não a pinte, não a troque…

  6. Milagre era o MS Lourenço, um bom exemplo dos luso professores, uns seres que falam para o umbigo, como se alguém gives a damn.

    Já se passou muito tempo deste o dragão do Fritz Lang; agora uma mulher fatal Nita Nardi, tão fatal como uma máquina de escrever, possivelmente até estará vestida de verde

  7. Panurgo diz:

    Ainda aparece aí um brasileiro varrido da mona e compra isso.

  8. Luciana diz:

    São, costumam ser, casos de amor. Algumas, porém, perigosas…

    http://olhosdaborboleta.blogspot.com.br/2011/04/voce-me-pergunta-porque-passo-minha.html

    (essa minha era das fatais….)

  9. Pedro Bidarra diz:

    A máquina de escrever. O computador.
    Feminimo. Masculino. Ninguém se lenbra de quantos computadores já teve ou já “deslargou”.
    A grande diferença não é tecnológica nem sequer na função. É no capricho. O segundo, homem, masculino, é um banana e, com a maior facilidade, dá o dito por não dito. A máquina de escrever não; a máquina de escrever não faz undo.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pois não, pois não. Não há cá undo ou delete, só rasgando. E rasgar já exige um certo reconhecimento físico…

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