Lamento mas a realidade é mesmo tramada

E um marxista também

Não tive pesadelos superestruturais nem estou atacado, sosseguem, por nenhuma febre marxista. Mas acordei com uma irreprimível vontade de vos sugerir que uma ideologia, qualquer ideologia, de “esquerda” ou de “direita”, corre sempre o risco de servir como perigosa bengala intelectual. Enquanto sistema “arrumadinho” de ideias, enquanto catálogo bem organizado de valores oferece, sem esforço de maior, uma interpretação instantânea da realidade, uma mundivisão “prête-à-porter” que dispensa muito mais elucubrações. Basta juntar água. Nesse sentido, que tem tanto de redutor como de perverso, uma ideologia é um atalho, profundamente cómodo, para o pensamento. Ou, pelo menos para um sucedâneo de pensamento. Arruma o real em gavetas, etiqueta-o, cataloga-o, afasta dúvidas e hesitações, dispensa angústias e, sobretudo, oferece a narcótica ilusão das grandes convicções e tonitruantes certezas.

Paradoxalmente ou talvez não, uma ideologia, qualquer ideologia, é particularmente eficaz nos primeiros estágios de consumo. Enquanto não ganhou no cerebelo uma espessura mínima, enquanto a realidade não teve tempo de atrapalhar a geométrica organização mental, enquanto não se abriram ainda fissuras na perfeição do sistema, em suma enquanto a dúvida – eterna rameira – não passou ao contra-ataque.

Seguramente também não por acaso, é nos recém-convertidos (e, concedo, nos mais pobres de espírito) que é mais eficaz a terapêutica ideológica. O fervor quase religioso da certeza, o êxtase orgasmático da ausência de dúvida, nunca são tamanhos como nos primeiros estágios de adesão ideológica ou nas cabecinhas mais preguiçosas. A estrada de Damasco tem esse encanto. Basta pensar em todos quantos passaram dos marxismos, dos maoísmos, dos trotkismos, para os conservadorismos, os liberalismos (ou vice versa) para que se compreenda bem o que digo.

É pois chegada a altura de perguntarem: “está tudo muito bem, já percebemos que queres passar por intelectual, mas isso vem a propósito de quê?”. E eu, pimba. Vem tudo isto, pasme-se, a propósito do governo. Cresce em mim – lá está – uma incómoda dúvida, uma aflitiva sensação. A ideia que estamos perante um governo profundamente ideológico, porventura o governo mais ideológico dos últimos vinte anos. “E que mal tem isso?”, perguntam vocês. “Não eras tu que há poucas semanas te insurgias contra uma visão exclusivamente tecnocrática da politica? Não és tu, ainda por cima, que te dizes liberal?” Pois, digo eu, gosto de políticos com norte, de política com convicções e valores e acredito que esta é mais tributária da ética do que da ciência. Mas convém, se não for pedir demais, que a convicção ideológica seja suficientemente espessa, suficientemente reflectida, minimamente testada para poder internalizar a dúvida, sofisticando-se. Para poder conviver com a conclusão tramada de que a realidade é sempre complexa demais para se deixar ficar, sossegadinha, arrumada em gavetas.

Uma gaita, é o que é. Mas as coisas são o que são. O Mundo está particularmente perigoso, a realidade complica-se e não pára quieta. Por mais incómodo que isso seja, há que sair dos espartilhos intelectuais mais apertados. À esquerda e à direita.

 

Visão de 17.5.2012

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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12 respostas a Lamento mas a realidade é mesmo tramada

  1. manuel s. fonseca diz:

    Subscrevo, rotunda, redondamente. Ainda por cima está muito bem dito. Com um toque fadista, de pimba e gaita. Gostei

    • Pedro Norton diz:

      Ainda bem que gostou, Mestre. Além de marxista também tenho um lado fadista.

  2. caruma diz:

    Ideologias são meninos, quem se mete com meninos acorda etc. Se é aos 50 ou mais anos, essa extraordinária surpresa precisa de fraldas BuáááááGuguDadá.

  3. caruma diz:

    Esta opinião é referente a hoje, claro

  4. Pedro Bidarra diz:

    A ideologia não é um atalho para o pensamento. É antes um caminho alternativo e mais rápido para a acção. É, pode-se dizer, um atalho sim para a acção. Não é por acaso que a ideologia vêm sempre acompanhada de comportamentos: tiques de linguagem, formas de vestir, gostos, filmes e autores de que se gosta, assuntos de que se fala e outros que não se falam. A ideologia enforma a acção desinformando o pensamento. Mas é muito eficaz. É o modo mais eficaz de incitar à acção. É um plano partilhado, ou imposto, mas é sempre um plano concebido por alguns lunáticos que se crêem da engenheiros sociais.
    Gente perigosissima.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A realidade, essa , não se deixa enganar….desarruma-se, desassossega-se com bem dizes…e nesse aspecto a ideologia é o simulacrum da acção na realidade: não transforma a sua essência, apenas julga que o faz…

    • Pedro Norton diz:

      O problema é que a realidade não cabe no fato apertado de nenhuma ideologia.

  6. Panurgo diz:

    Bom, mas as ideologias são axiomáticas. Vieram substituir a teologia, e, como esta, partem também de um axioma. Ele aceite, não se questiona (assim como também ninguém questiona que “a+0=0+a=a”). A partir daqui elabora-se, contrói-se, interroga-se e explica-se a realidade dentro do domínio e da lógica da preposição fundamental. Não afasta as dúvidas, mas condena como irracionais toda e qualquer resposta que saía do alcance e compreensão dos seus axiomais. O problema é o axioma das ideologias – a concepção de Homem – estar muito longe de ser intuitivo e lógico – daí não só a facilidade com que os salta-pocinhas se movimentam do ismo ao outro, mas também estes ismos resultarem, do comunismo ao neoliberalismo, numa extrema crueldade. Mas perfeitamente lógica e coerente, com toda a imbecilidade. Isto foi tudo postulado de uma forma sublime muito antes de amputados cerebrais como Locke, Malthus e Marx terem chafurdado a esterqueira – no primeiro monólogo de Creonte na Antígona. Outro grego deu-se ao trabalho de escrever uma Ética antes da Política – a política não presta tributo à Ética, nasce dela. Daí que chamar Governo a esta Oposição ao País é excessivo. Nada senão uma soberba caravana de ladrões apalermados que nos fazem lembrar os reis de Lilipute aconselhados pelos sábios de Lagado. Acho eu.

    E se bem me lembro “Esquerda e Direita” são termos que têm a sua origem numa revolução ideológica. Se calhar, falar nesses termos é não sair da ideologia, sei lá, digo eu, que percebo zero da realidade.

    • Pedro Norton diz:

      Panurgo,
      Obrigado pelo excelente comentário. Quanto à esquerda e à direita, sendo verdade que «nascem» de uma reolução ideológica, a verdade é que eram então o que, no fundo, sempre foram: referências espaciais. Calhou simplesmente que jacobinos e girondinos se sentassem assim.

  7. pedro marta santos diz:

    Subscrevo quase tudo. E o que não subscrevo, aprecio pela inteligência.

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