Nana e os Vendavais

 

"O Monte dos Vendavais", de Andrea Arnold

Uma adaptação profundamente original do clássico de Emily Bronte é, já por si, um triunfo – das 14 versões anteriores de “O Monte dos Vendavais” (a primeira estreou em 1920), a mais próxima do olhar de Andrea Arnold talvez seja “Abismos de Pasión”, do mestre Luis Buñuel. Depois de “Red Road” e “Fish Tank”, que tratavam o sexo com uma urgência bruta, inesperada, a britânica ataca o livro de 1847 numa visceralidade contemporânea, recorrendo a actores desconhecidos, utilizando a câmara à mão e não poupando na fúria das tempestades, venha ela dos céus ou da mente dos amantes amaldiçoados. Não podíamos estar mais longe de um “filme de época” comportadinho: Arnold estima os cenários reais, é fiel à rudeza da Inglaterra campestre, filma a Natureza como eco dos conflitos humanos, reduz os diálogos ao osso e aborda a obsessão de Heathcliff (o jovem actor negro Solomon Glave) por Cathy (Shannon Beer), a filha do agricultor de Yorkshire que o recolhe das ruas, como um “amour fou” que poderia deflagrar em 2012 nas ruas de Londres ou São Paulo. É um filme agressivo, por vezes cruel, de sentimentos lançados para a fogueira. Não o devem perder.

"Nana", de Valérie Massadian

 Considerada uma enorme revelação cinematográfica pela generalidade da crítica, este filme de estreia da fotógrafa Valérie Massadian, antiga colaboradora de Nan Goldin, não é nenhum “Mouchette”, a obra-prima de Robert Bresson sobre uma adolescente em luta pela sobrevivência. Mas é necessário prestar-lhe atenção: melhor primeira-obra no Festival de Locarno, é um trabalho rigoroso sobre uma criança de 4 anos que vive com a mãe na orla da quinta do avô, numa casa minúscula como ela. Quando a mãe desaparece, Nana fica só, à mercê dos elementos, exposta a um mundo que lhe é gigante. Mas Nana está à altura da tarefa. Ela recria o mundo, efabulando-o, a câmara desce à sua dimensão, a luz é natural, os planos são raros e de grande justeza. Há margem ao improviso, que dura o tempo da realidade. Mas não se iludam: “Nana” é o oposto do “olhar documental”. Insinua-se o enleio com os contos de fadas, se bem que o filme esteja longe do notável “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice. Falta-lhe o sexto sentido do encantamento. Antes, é exibida “Rafa”, a curta-metragem do português João Salaviza que venceu o prémio da categoria no último Festival de Cinema de Berlim.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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8 respostas a Nana e os Vendavais

  1. manuel s. fonseca diz:

    “Montes” e “Nana” chegam tão bem defendidos-

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pedro, que coincidência… estou a ler (acho que nunca tinha lido mesmo a sério) o “Monte dos Vendavais” , e tinha ficado com alguma curiosidade de ver o “Nana” após ter lido a entrevista à realizadora/fotógrafa, mas muito mais agora depois de ler estes teus sempre cativantes textos.

  3. G.Rocha diz:

    Tal como o Bernardo, também fiquei “em pulgas” em ver o filme, após a leitura deste texto maravilhoso (e cativante) do Pedro.

  4. textos mágicos
    empurram-nos para aquela caixa negra
    quer a gente queira
    quer não …
    😀

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Agradeço, amigos. São ambos filmes difíceis, mas vale a pena espreitar.

  6. Maracujá diz:

    Caro Pedro, fiquei curiosa! Vou espreitar…

  7. pedro marta santos diz:

    Comece pelo “Monte”, Maracujá. É fruto mais sumarento.

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