O Mal, Numa Casa Perto De Si

 

"Temos de Falar Sobre Kevin", de Lynne Ramsay

Finalmente, o terceiro grande filme contemporâneo de 2012. “Vergonha”, de Steve McQueen, era magnífico na forma como lidava com o sexo como arena cerebral, onde a voracidade soqueia a emoção e a animalidade golpeia o sentimento sem nunca se cumprimentarem no ringue. “Martha, Marcy, May, Marlene” é uma estreia impressionante, e esventra as seitas religiosas como Robert Rossen dissecava a política estadual em “All The King’s Men”. “Temos de Falar Sobre Kevin” completa agora esta “trilogia do poder”. Porque é de poder que se trata: poder sexual, fraternal, filial. Num soneto sobre a banalidade do Mal que começa com o “Elephant” de Alan Clarke e continua no “Elephant” de Gus van Sant (onde um massacre escolar semelhante ao de Columbine era congelado no tempo como uma polaróide), os versos de “Temos de Falar Sobre Kevin” lançam perguntas terríveis, mas o filme mostra o talento suficiente para não lhes responder. Aqui, o que não se afirma é tão importante como o que se mostra: Kevin é um bebé irascível, que não pára um segundo de chorar. É uma criança agressiva, cujos olhos brilham para a catástrofe. Torna-se um jovem adolescente cruel (Ezra Miller, um novo actor de abrir a boca de espanto), com motivações cada vez mais enigmáticas. A mãe (Tilda Swinton, essa portentosa catedral de androginia) não tem especial inclinação para a maternidade. O egoísmo das crianças impacienta-a, e o pai (John C. Reilly, falsamente boçal, no seu melhor) é cego às crispações do lar, sempre compreensivo, conciliador, um prodígio de hipocrisia. Mas o filme evita as análises psicanalíticas e as hipóteses sociológicas. Kevin é um enigma na escuridão, e da escuridão não sairá. A britânica Lynne Ramsay, que parece filmar de forma esporádica só para nos irritar, não se desvia dos seus temas recorrentes: as consequências da mágoa, as armadilhas do luto, as marcas da morte (o miúdo afogado de “Ratchatcher”, o namorado sem vida logo no início de “Morvern Callar”), o engenho clínico da banda sonora – Stereolab, Velvet Underground, o genial Jonny Greenwood dos “Radiohead” – o isolamento das protagonistas (Samantha Morton em “Morvern Callar”, Tilda Swinton aqui). Ramsay é das raras cineastas de hoje cujos filmes se “sentem” fisicamente – Andrea Arnold, Claire Denis e, agora, Cary Fukunaga e Steve McQueen, estes em registos antagónicos, são os outros. Motivos da mágoa, do luto, do isolamento? “Mal de vivre”, falência civilizacional, esgotamento do modelo educativo, o irremediável “cocooning” adolescente, a epidemia da solidão, é escolher. “Precisamos de Falar Sobre Kevin” não faz escolhas, e é um grande filme. PMS

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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7 respostas a O Mal, Numa Casa Perto De Si

  1. manuel s. fonseca diz:

    Eh pá, que chatice. Ainda um tipo não esfregou os olhos e tu já viste o filme. A ver se mergulho este fim de semana. E palpita-me que vou estar de acordo contigo, perigosíssimo e implacável ser de salas escuras.

  2. Diogo Leote diz:

    Pedro, não podia estar mais de acordo: grande filme.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pois é vais sempre à frente uns bons quilómetros! Ainda não vi. Mas será que não existiram sempre estas “falências”, estes “esgotamentos” ? E o que é novo é sim a forma de retratá-los? Vou tirar as teimas no cinema….

  4. pedro marta santos diz:

    Espero que não fiquem muito desiludidos, amiga, camaradas. Bernardo, é verdade: desde os mudos do Fritz Lang e, mais tarde, da estreia do Nick Ray que se anda a verter angst civilizacional.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Pedro, belo texto e gosto dessa trilogia. Uma trilogia inquietante e forte.
    Aliás adorei o “Shame” e “Martha, Marcy, May, Mar­lene” .
    Falta-me ver este.
    obrigado

  6. pedro marta santos diz:

    Fico à espera do seu juízo sobre o Kevin, caríssima Ana Rita.

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