O Mundo de Ontem

Holland House library after an air raid, 1940

Quando tento encontrar uma fórmula prática que descreva a época na qual cresci (…) penso ter encontrado a mais precisa se disser: foi o período áureo da segurança. Tudo na nossa democracia (…) parecia construído para durar para sempre, sendo o próprio Estado o garante dessa estabilidade. Os direitos que ele assegurava aos seus cidadãos eram ratificados pelo parlamento, representação livremente eleita do povo, e cada obrigação estava definida com precisão. (…) Tudo se fazia com conta, peso e medida. Quem fosse dono de uma fortuna, podia calcular exactamente quanto lhe cabia anualmente de juros; por seu lado, o funcionário e o oficial podiam, com toda a confiança, encontrar no calendário o ano em que seriam promovidos e aquele em que passariam à reforma. Cada família tinha o seu orçamento certo e sabia quanto precisava de gastar em habitação, na viagem de verão e em despesas de representação (…). Quem possuísse uma casa, considerava-a o lar seguro para filhos e netos, quintas e negócios passavam de geração em geração. (…) Ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões. Todo o radicalismo, toda a violência pareciam já não ser possíveis numa época de razão.”

Ao contrário do que possa parecer, esta simpática burguesia, confortada na segurança de um futuro ordeiro e linear não é a mesma que, em Portugal, nasceu do 25 de Abril e viveu posta em sossego até há bem pouco tempo. Não é mas bem podia ser. Também nós acreditámos nos empregos para a vida, na promessa de uma reforma para a velhice, no milagre da segurança eterna, num futuro para os nossos filhos onde “todo o radicalismo, toda a violência pareciam já não ser possíveis”. Também nós nos habituámos a olhar para a Democracia como uma conquista civilizacional que não precisa de ser quotidianamente alimentada, todos nós nos habituámos a arrumar os medos das guerras na poeira espessa dos livros de história. E que bom é, convenhamos, acreditar num mundo assim.

Acontece que o mais significativo de tudo isto é saber que quem escrevia com esta imensa nostalgia era Stefan Zweig a quem Max Ophuls pediria mais tarde emprestado um dos filmes da minha vida (mas essa é uma história que para aqui não é chamada). O mais significativo de tudo isto é saber que a sociedade pacata, ordeira, pacífica, segura, que olhava esperançosamente o futuro com esta certeza geométrica das grandes narrativas lineares, iria durar pouco mais. O mundo de Zweig, o mundo confortável da burguesia austríaca, começou a desabar no dia 14 de Junho de 1914 e, para todos os efeitos práticos, já não existia quatro anos passados. O mundo eternamente tranquilo de que fala Zweig, caiu com o atentado de Sarajevo, foi desmembrado em 1918, viu a chegada de ajuda financeira externa para evitar a bancarrota em 1922, viveu a instabilidade política e a guerra civil para acabar oficialmente no anschluss de 1938. Sendo que os horrores da segunda guerra eram ainda um impensável futuro que haveria de fazer-se.

Dir-me-ão que ando com humores de Cassandra. Mas eu estou-me nas tintas. Continuo a achar que a melhor forma de cuidar do futuro é desconfiar das certezas imutáveis do presente e aprender com as desventuras do passado.

 

Publicado na Visão. 31.05.12

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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12 respostas a O Mundo de Ontem

  1. manuel s. fonseca diz:

    Isto ou pede uma vida austera, mas com uma excelente garrafeira, ou a orquestra do Titanic e muito sexo.

    • fernando canhao diz:

      E claro uima deslocação ao Pebble Beach Concours d’Elegance para ver quem ganha em 2012 o Dean Batchelor Memorial Trophy . Acerca da garrafeira aliada á austeridade totalmente de acordo, já o sexo em doses mortais, quando a água oleosa nos chega aos tornozelos, tenho algumas dúvidas salvo no caso de ser por exemplo com uma fixação de infância, prima tia, etc., etc., mas mesmo assim com o barulho e vibração da explosão de uma caldeira principal parece-me que vai ser o bom e o bonito, para sujeitar o objecto obscuro de desejo a tal preparo.

    • Pedro Norton diz:

      Em podendo escolher, escolhia a garrafeira excelente e a fartura de sexo. Será pedir demais?

  2. Panurgo diz:

    Calma. Não assuste a nossa simpática burgessia, que é ela que ainda larga a pasta para comprar a Visão. Tudo ficará bem. Para eles, claro. Cuidado é com a ração da Democracia, que a bicha de tanto comer qualquer dia ainda me rebenta para aí. Não há que preocupar: há-de estoirar para cima dos mesmos, claro, que com os pobres não há que ter simpatia. Nunca.

    • Pedro Norton diz:

      E eu que me achava pessimista, caro panurgo!

      • Panurgo diz:

        Claro que sim! Pessimista? Claro… Sabe bem o que é ter 27 euros para 29 dias, não é? Foi muito Schopenhauer e Cioran… claro… até lá, Larry D. New, recomendo, que há aí uma malta… que não está para brincar ao Zweig….cuidado… cuidado. Fica de borla. Ainda se fodem, um dia destes.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Uma das grandes conquistas da nossa espécie, foi a extensão da memória. Com a linguagem e, sobretudo, com a escrita conseguimos que a memória não fique apenas dependente dos vivos. É uma memória com esteróides, que nos permite, a cada geração, não depender só dos vivos e do que eles se lembram, mas contar com a sabedoria dos mortos. Foi assim que a espécie avançou neste sentido. O que é curiosos é que a nossa biologia é tão optimista que tende a seleccionar e a acreditar só nas memórias boas. E por isso não queremos acreditar que as coisas são como sempre foram: fodidas
    Grande texto, para avivar a memória, mas agora vou prà praia; esquecer.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Essa nostalgia irá sempre existir, como sombra utópica de um humanismo racional que não se quer imaginar nunca em queda, por isso também a grande frase de Stefan Zweig : ” entre a liberdade e segurança iremos sempre escolher a segurança…”

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