O nariz

Repare-se uma injustiça. O nariz de Pinóquio não vale assim tanto e o nariz de Cyrano, mon panache, merece muito mais.

O distractivo vai e vem do afilado apêndice de Pinóquio atrai o riso, a moralidade fácil. Prefiro a firme e permanente deformidade que enfeita o rosto de Cyrano. Aprovo-lhe a dialéctica: o que podia ser tormento transforma-se em verve, o que poderia originar cerrada misoginia desencadeia uma flamejante retórica romântica, o que parecia pedir fuga do mundo alimenta uma generosa temeridade.

O nariz de Cyrano é um estandarte. Cyrano ama. Cyrano luta. Cyrano desfaz a mentira, os preconceitos, a cobardia, a tolice. Mas sobretudo, e volto atrás, Cyrano ama e ama tanto que por amor do amor renuncia ao seu amor.

Cyrano ama Roxane que julga amar Christian que ama Roxane com a indefinida ideia que tem do que seja amor. O transbordante altruísmo de Cyrano, palavra a palavra, verso a verso, converte a vitalidade de Christian no exacto amor com que o sofisticado seio de Roxane sonha. Roxane e Christian pouco ou mal sabem, mas é o nariz de Cyrano que sustenta o amor dos dois.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a O nariz

  1. Luciana diz:

    Porque todo amor tem insuspeitados alicerces…

  2. Pedro Bidarra diz:

    tantas vezes me perguntaram, o que é que faz um publicitário concretamente?, e eu respondia-lhes que é uma espécie de Cyrano, fala pelos outros que querem e não sabem falar. Até um dia em que se descobre tudo. . .

    • manuel s. fonseca diz:

      Isso é que nunca passou mesmo pela cabeça do Rostand: que estava a inventar a publicidade.

  3. Diogo Leote diz:

    Manuel, o Cyrano é, talvez, o maior herói que já tive. A sua inspiração levou-me a tomar-lhe o método e o estilo. Fiz muitas vezes de Cyrano, não para os outros, mas para mim próprio, através de personagens que ele me fazia inventar para certos fins que só a sedução justificava. Mas, agora, a sedução já não é o que era.

    • manuel s. fonseca diz:

      Não te conhecia essa faceta multiplicadora de vozes, até porque, Diogo, tens um nariz perfeitinho.

  4. Carla L. diz:

    Principalmente Cyrano sofre. Não no sofrimento, mas na forma de criar diálogos para outros é que me sinto próxima à ele.
    Já Pinóquio nunca me atraiu, em criança já implicava com o menino de madeira.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Olá estimada Carla, que bom que é criar para outros. Nem há outra maneira: se não for para prazer de oiutros será mesmo criar?

  5. Fernando Canhão diz:

    O outro mundo, ou os estados e impérios da Lua. Livro B da Estampa.
    Savinien Cyrano de Bergerac
    Mais tarde ao procurar Florence Bolton na Alpha surge-me isto:

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Um nariz destes é uma instituição, e há palavras que se cheiram…

  7. Panurgo diz:

    Ainda bem que os meus pais prestaram atenção àquilo que estavam a fazer e fizeram-me lindinho ahaha imune a sofrimentos de alcova. Mas, todavia, recordo muito as frases finais. “que importa a luta ser inútil? por ser inútil é mais bela”, qualquer coisa assim, não me recordo bem, afinal.

    • manuel s. fonseca diz:

      Inútil, inútil, não sei bem: há sempre o brilhos dos belos olhos de Roxane e uma ponta de orgulho no “mon panache” que é o que da boca dele se ouve antes da cortina cair.

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