O Piano com as teclas partidas

“Um piano com as teclas partidas, rodeado de água, talvez num pequeno lago. O dono do piano chega até ele, com água pelos tornozelos.” (*)

Há textos assim. Que se diriam escritos no sempre. Afogados numa memória adivinhada. Hoje cheguei a casa angustiado e fui direito a ele. Sabia-o ali. A tocar baixinho. Solitário. Perdido no marulhar muito azul da minha biblioteca.

E ele lá estava de facto, virado do avesso, a dedilhar baixinho a tristeza imensa de um piano sem teclas.

(in O Piano, Short Movies. Gonçalo M. Tavares.)

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Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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16 respostas a O Piano com as teclas partidas

  1. manuel s. fonseca diz:

    Bem escrito, Pedro. Com os dedos.

  2. sem-se-ver diz:

    muito bonito. o bernardo merece. tudo.

  3. fernando canhao diz:

    E de um bom silêncio de pai para filho.

  4. Quando tocava, dos seus dedos nasciam asas. Mas quando voou sobre o mar, talvez por não ter o piano consigo, as asas faltaram-lhe. Que pena tão grande que eu tenho.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Partidas as teclas como o coração que se afoga em lágrimas. Fica a música e a memória.

  6. Ana Rita Seabra diz:

    Pedro, muito bonito. Hoje à noite na basílica a música ouvia-se lá no alto! Foi lindo.

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