O Prémio, 1º Acto

Edward Hopper - Second Story Sunlight

em resposta ao desafio do Pedro Bidarra aqui

O PRéMIO
1ºACTO

PERSONAGENS
Fernanda
Lili
em Voz Off
Homem
Mulher
Voz ao telefone

Época
actualidade

Cenário
Lili e Fernanda no terraço de casa de família da classe média.Luz das 17.30h da tarde. Verão

Lili                   – Estou cansada.
Fernanda        – Ainda tens um capítulo para decorar.
Lili                   – Estou cansada, já disse!
Fernanda        – Não podes estar cansada, estiveste a dormir a manhã toda.
Lili                   – Eu é que sei se estou ou não cansada.

(silêncio)
Fernanda        – Os teus amigos ainda não chegaram, vá … mais duas páginas. A peça é pr’á semana que vem e ainda não decoraste a tua parte.

Lili na beira da varanda inclinando-se com teatralidade.
Lili                   – E o que é que isso te interessa? A vida é minha não é tua.

Lili leva a mão ao cabelo e atira a madeixa para trás das costas. Fernanda levanta do colo as páginas do script e começa a ler em voz alta.
Fernanda    – Dona Rosarinho, eu vou buscar o Dr. Moutinho. Está na hora dele fechar o consultório. 

Lili interrompe Fernanda
Lili                   – Pára! … Estou farta. Estou farta de tudo. Desta casa, do Teatro, do                    público … e até de mim! Deixa-me…

Lili mudando de atitude
Lili                   – Olha, porque é que não convidas aquele teu amigo para tomar chá? Passa a vida a olhar para aqui.
Fernanda fecha o caderno.
Fernanda        –  O Eduardo não é meu amigo e está a arrefecer. Vamos para dentro.

Lili endireita-se:
Lili                   – Não é teu amigo ??? ( diz Lili com voz de quem não acredita )  … então … eu não vejo os olhares? A troca de cumprimentos? Ele acena-te e tu começas a arranjar o cabelo e a esticar a saia? Bom… Tá bem! Só mais duas páginas então,( … responde em desafio.)

Fernanda aquiesce, ligeiramente resignada, sem dar seguimento ao assunto de Eduardo.
A intensidade da luz diminui, ouvem-se ruídos da cidade ao fim da tarde, um jogo de gestos (mímica) entre Lili e Fernanda. Lili começa a desempenhar a personagem mas não se ouve. Só gestos e a boca a mexer. Fernanda vira as páginas devagar, contracenando com Lili, também em silêncio, dando-lhe as deixas.
O barulho da cidade diminui e passa a dar-se mais importância aos sons de casa. Enquanto Lili e Fernanda ensaiam,  ouvem-se talheres e uma mesa a ser levantada.

Voz off :
Mulher             – Vais voltar para o atelier? (com ironia)
Homem           – Tenho uma coisa para acabar. ( Voz agastada )
Mulher             – Tens sempre qualquer coisa para acabar. Não sei mesmo porque é que não assumes de uma vez por todas que não tens vida! A tua vida são os pincéis, as telas, esse atelier imundo onde ninguém entra. Meses enfiado nesse buraco a que chamas atelier. Ponho a mesa, tiro a mesa, lavo a roupa, vou às compras …

( a voz masculina interrompe)
Homem           – Já sabias que era assim. Estou-te agradecido por me teres ajudado com a depressão. Mas há coisas que eu não consigo mudar… não quero mudar  e preciso de trabalhar.
Mulher             – Trabalhar? Trabalhar? ( diz histriónica) Chamas a isso trabalhar? Não vendes um quadro há meses. Não fazes uma exposição há 10 anos. … Eu não sou tua criada e isto não é a Pensão da Madame Antunes!

( Barulho de pratos agitados e copos a serem colocados na máquina de lavar loiça)
Mulher             – Nem a merda da mesa consegues levantar.
Homem           – Já sabes que não gosto de palavrões ( condescendente)
Mulher             – Vai pró caralho!

A cena é interrompida com um grito de Lili. A iluminação volta a dar movimento à cena. A quebrar o silêncio, apenas a voz de Lili.
Lili                   – Eu não acredito no que me está a acontecer. Achas isto normal? Acabo de receber um sms do produtor. O autor ainda não lhe enviou os textos finais e não sabem sequer se vai enviar. Mas estão a gozar comigo ou quê? Era só o que mais faltava, vou já ligar ao meu advogado.
Lili sai de cena.
Fernanda fecha o caderno, baixa a cabeça e durante alguns segundos não acontece nada. Levanta a cabeça, faz um ligeiro sorriso e um piano discreto começa a tocar.
A luz diminui um pouco de intensidade
Ouve-se em off. Voz de Fernanda a falar.
Fernanda        – Não precisas de me ajudar a levantar a mesa. Vai trabalhar querido. Tens uma exposição para a semana que vem e sei que ainda tens umas coisas para fazer.

Voz de Homem, pausada …inquieta.
Homem           – Às vezes tenho vontade de desistir de tudo … o Mário passa a vida a dizer-me  que não tenho uma pintura comercial e que não vendo, se continuar a pintar ‘A Tristeza’ , como ele lhe chamou. O Augusto, o meu ‘marchand’ , tu sabes quem é , a falar dos quadros que vão para a Sala Um, falou com entusiasmo, mas perguntou-me se eu não podia escolher para a Sala Dois, quadros com cores mais alegres. Disse-me que as pinturas lhe faziam lembrar o guarda-fato onde se escondia em casa da avó. … Memórias, ouvi-o dizer baixinho.
Fernanda        – Eduardo, já falámos tantas vezes deste assunto. ( Com ternura)  Depois da exposição vamos até ao Alentejo se quiseres e não interessa se vendes muitos ou poucos quadros. Diz-me se queres que te leve alguma coisa para ceares mais tarde.

Ouvem-se passos e uma porta a fechar.
Toca o telefone. Fernanda é iluminada em cena e atende.
Fernanda        – Ah! És tu, estava aqui perdida em pensamentos, ainda bem que telefonas. Como está tudo? Sim. Percebo. Eu? Estou bem. A Lili? (Ri-se) A Lili está óptima. Igual a si própria. Mas conta-me, já se sabe alguma coisa do prémio?

(A pessoa que está a falar ao telefone não se cala, Fernanda só diz sim, sim sim.)

Ouve-se a buzina de um carro na rua. Fernanda ao telefone:
Fernanda        – Espera um segundo. (com a mão a tapar o bocal grita) Lili … os teus amigos chegaram. Lili …
Lili                   – Sim já ouvi, saio já … até logo !
Fernanda encolhe os ombros e retoma a conversa telefónica:
Fernanda        – Sabes que ele mora agora aqui à minha frente? Sim. Vive com a psiquiatra que o tratou. Há dez anos que não o via. Dizem-me que passa os dias fechado a pintar grandes telas que ninguém vê. A última vez que me cruzei com o ‘marchand’, lá na  Galeria, falou-me dele com pena e admiração. Não há nada mais triste que um artista solitário, disse-me ele. Confesso-te que não percebi muito bem onde é que ele queria chegar com a conversa. Esta coisa do social, … estar ou não na lista dos croquetes, tem dado cabo da análise crítica deste país.  Parece que é preciso que um artista morra para lhe darem valor …

( a voz do outro lado diz qualquer coisa)
Fernanda        – Não, não estou a  exagerar, mas não falemos de coisas tristes. Então e o prémio. Já sabes alguma coisa?

( a voz do outro lado diz qualquer coisa)
Fernanda        – Ah! Óptimo … então vou esperar que me digas o dia. Beijinhos

Fernanda desliga o telefone, levanta-se e cai o pano

Atenção
( não dizer nunca Tchau a desligar o telefone … nem com licença)

Fim do 1º Acto

Elementos do Cenário

Imagem 1 - Sketch Original de Edward Hopper (esq)

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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10 respostas a O Prémio, 1º Acto

  1. rita ferro diz:

    Ui, para quem nunca escreveu teatro não está nada mal! Continua, quero saber como acaba, OUBISTESSSSS?

  2. manuel s. fonseca diz:

    Rita, Deus queira que acabe mal para fazer justiça ao tão bem que começou. O 2º Acto, amanhã?

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A ficção é mais interessante que a realidade… cheira a tragédia e a aguarrás, e claro que o Marchand vai acabar na cama da Lili…ficamos à espera dos próximos capítulos!

  4. Pedro Bidarra diz:

    Pois é ainda não tinhamos tido “palco”. Muito bem. Viva o drama.

  5. Carla L. diz:

    Muito bom!!!

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