Patti and Robert

O que faz um livro. Nunca tinha ligado pevas à Patti Smith. Chegava-me ter ouvido vezes sem conta o People Have the Power e o Because the Night (e este mais pela voz do Bruce Springsteen) para não querer levar a minha curiosidade mais longe. Na minha ignorante presunção, achava eu que já tinha apanhado tudo, que já lhe tinha tirado a fotografia definitiva. Fotografia bem desfocada, só o percebi há pouco menos de um ano, depois de ter lido o seu Just Kids (que, em português, recebeu a horrível tradução literal Apenas Miúdos). Sabia que era um livro de memórias e que algumas das mais importantes tinham como cenário o Hotel Chelsea, o velho Chelsea Hotel do meu imaginário, e isso (a par da recomendação de um fiável amigo e da distinção do prestigiado National Book Award) era motivo suficiente para justificar a leitura. Mas o que não sabia era que vinha aí uma carta de amor em forma de livro a Robert Mapplethorpe, outra figura a quem eu – por estúpida ignorância ou homofóbico preconceito, ainda estou para saber – pouca importância dera até então. A literatura, quando é boa, tem esta força. Que Patti era poeta de créditos firmados, até aí o meu conhecimento chegava. Graças à força de um livro, fiquei a saber que o enorme talento na escrita de Patti se estende também à prosa. E, de estímulo em estímulo, de associação em associação, rendi-me também ao monumento – de poesia ao serviço do rock´n´roll ou de rock´n´roll ao serviço da poesia – que é o seu primeiro álbum, Horses. Daí até ao embasbacamento perante as fotografias-choque de Mapplethorpe foi um pequeno passo (para retomar uma discussão aqui iniciada, quem foi que disse que pornografia não pode ser arte?). E, já em fase de relaxamento, terminei a viagem com a histórica fotobiografia da amiga Judy Linn relativa ao período 1969-1976.

Tudo por causa de um livro. Resta dizer que, mesmo que o caro(a) leitor(a) se esteja nas tintas para as figuras que povoaram o Chelsea Hotel em idos de 60´s e 70´s, ou para a música e poesia da Patti Smith, ou para a arte provocadora de Mapplethorpe, ou ainda para o retrato social de toda uma época e geração, fica ainda aquilo que verdadeiramente justificou o livro: uma belíssima homenagem póstuma sob a forma de uma comovente declaração de amor, quase da esfera do místico, em que a emoção de Patti se sente em cada uma das palavras.  

Robert Mapplethorpe e Patti Smith

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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13 respostas a Patti and Robert

  1. fernando canhao diz:

    Certamente porque alguem a serio esteve por tras de O Mes da Fotografia, em Lx vai para uns 18(?) anos as escolhas dos locais foram perfeitas. Mapplethorpe no bar e escadas do Grego no cais do Sodre, expunha black males nude and flowers. Foi a 1a. vez que a minha filha mais nova e os primos entraram num bar a meia noite. O Grego nao abria antes. Lx ja foi um sitio mais engracado.

    • Diogo Leote diz:

      Pois é, caro Fernando, não imaginava outro sítio em Lisboa que não o Cais do Sodré para o Mapplethorpe expor os seus Black Male Nudes. E concordo consigo: a vida cultural de Lisboa já teve melhores noites.

  2. Rita V diz:

    gosto imenso do trabalho dele
    e gostei muito do post
    http://www.mapplethorpe.org/biography/

    • Diogo Leote diz:

      Ainda bem que gostaste, Rita. Obrigado pelo site da Fundação Mapplethorpe, que fiquei a conhecer, também, através do livro.

  3. pedro marta santos diz:

    As flores do Mapplethorpe é do mais intenso que já vi em fotografia. O resto, confesso, só me gera curiosidade antropológica. Mas o livro é bem lembrado.

    • Diogo Leote diz:

      Percebo o que dizes sobre a curiosidade antropológica, Pedro. No meu caso, confesso-te que, se alguém me tivesse descrito antecipadamente o objecto de alguns dos seus trabalhos, teria provavelmente recusado o visionamento. E, num primeiro momento, não consegui evitar um sentimento de repulsa. Mas, depois dessa estranheza inicial, consigo voltar às imagens vezes sem conta e não parar de me surpreender com o sentido estético de tudo aquilo.

  4. Carla L. diz:

    Gosto muito de biografias e quanto mais escandalosas melhor.E por aqui quando dizemos “miúdos” nos referimos às vísceras, tipo fígado, principalmente de galinha e de boi. Uma analogia um tanto interessante.

    • Diogo Leote diz:

      Carla, é certo que alguns aspectos da vida do Robert Mapplethorpe (que morreu vítima de Aids) lhe podem parecer escandalosos, mas a percepção que Patti Smith deles tem nada tem de escandaloso, antes podia ser a de qualquer um de nós. E “miúdos”, aqui em Portugal, é mesmo a tradução literal de “kids” – significa simplesmente crianças ou adolescentes, “putos” como nós usamos também.

  5. teresa conceição diz:

    Ultrapassar preconceitos leva-nos a descobertas muito curiosas.
    Belo texto, Diogo.

    • Diogo Leote diz:

      Já viu, Teresa? Não conheço instrumento de persuasão mais eficaz do que a arte. Ainda bem que gostou.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Diogo lembro-me da enorme polémica em redor da grande exposição que penso que se intitulava ” The Perfect Moment” do Mapplethorpe, embora já tivesse visto uma retrospectiva no Whitney. Penso que estamos a falar de um dos grandes fotógrafos americanos do século XX, mesmo que não aprecie toda a sua obra. Quanto a Patti, Horses é um monumento, e a capa um testemunho claro do grande fotógrafo que Robert já era…Bem lembrado, mais um livro para a lista dos não lidos…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, o Mapplethorpe disse bem ao que vinha com a fotografia que serviu de convite para a sua primeira exposição individual, que só não trago aqui para não ferir susceptibilidades de gente mais sensível. Julgo que saberás a que imagem me refiro. Quanto ao Mapplethorpe e ao Horses, não posso estar mais de acordo contigo.

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