Reinstitua-se o sopapo

O jornalismo, como o imaginei quando era novo, era uma profissão de acção. Como detective, militar ou polícia. Porventura influenciado por filmes como o Foreign Correspondent, Ace in the Hole, The Year of Living Dangerously e o incontornável All the President’s Men, o filme que mais encorajou a penúltima geração de jovens a seguir a carreira (a última foi influenciada pelo William Hurt no Broadcast News), o jornalismo, como o imaginei, era uma coisa épica, de gente corajosa, que se metia na boca do lobo, fazia denúncias, desenterrava histórias, era perseguida por gangsters e, por isso, aqui e ali, levava uns sopapos. E dava – não só com a pena mas também com o punho. Não era coisa para mim, que na altura era pacífico e dado à contemplação. Era coisa dos heróis.

Depois cresci, conheci jornalistas, com eles me cruzei no decorrer da minha vida empresarial e, confesso, tive vontade de dar uns sopapos em alguns. É absolutamente normal. Ter vontade de dar um sopapo num jornalista insolente, inconveniente, burro ou incompetente e que atenta contra a reputação de um cidadão é um sentimento normal do qual não há que ter vergonha ou pedir desculpa. É da natureza humana.

Mas nunca dei.

A verdade é que o sopapo caiu em desuso. Talvez por ser uma actividade praticada ao ar livre, ao contrário do jornalismo que é hoje uma actividade indoors, praticada atrás do telemóvel e a coberto do ecrã do computador perscrutando a internet. E assim, na ausência de tribunais minimamente funcionais, o melhor que se arranjou para substituir o sopapo foi o mal dizer e a destruição de reputações incendiando a blogosfera. É o sopapo virtual, que assume a forma de rumor, quadrilhice, falso testemunho, insulto à distância e a coberto de anonimato e nomes falsos, partilhado e praticado por ofendidos e por jornalistas alike.

É triste e é por isso que eu gostava de ver reinstituída, entre políticos, jornalistas e empresários, a saudável prática do sopapo.

Vamos imaginar, num cenário ridiculamente improvável, que um jornalista, sem cerimónia, etiqueta ou roupa apropriada, faz uma pergunta estúpida e/ou inconveniente a um deputado. E que o deputado lhe gama o gravador.

O que fazer num caso destes? Queixinhas à ERC e às autoridades? Ou dar-lhe um sopapo e dizer-lhe: “Tira mas é daí as mãozinhas, ò amigo do alheio!”?

O sopapo é clara e racionalmente a melhor opção: é mais célere e bem mais barato para o contribuinte.

Olhemos outra situação ainda mais improvável. Um ministro é incomodado e pressionado com perguntas embaraçosas, descabidas ou insolentes de uma jornalista que, a coberto do telemóvel, não se comporta à altura da dignidade que cargo, e o seu titular, merecem.

Faz o quê, o ministro? Ameaça expor, nessa grande porta de casa de banho que é a blogosfera, a vida pessoal da jornalista (que neste tempo em que felizmente “anything goes”, como dizia o Cole Porter, para ter algum interesse teria de ser verdadeiramente sumarenta e criminosa) ou promete-lhe um sopapo?

Claramente o sopapo, entregue pessoalmente (não vale contratar gorilas) é mais digno não só do homem como do cargo. E se, por ridículo, escolheu a primeira opção, o que faz a jornalista? Vai fazer queixinhas ou diz-lhe, “Quer falar cobardemente da minha vida privada? Atreva-se que eu vou ter consigo e dou-lhe um sopapo!”?

As vantagens do sopapo são múltiplas. É mais saudável. É mais barato. Aligeira o sistema judicial. É mais digno; ver um ministro a encaixar um estaladão de uma jornalista (eu punha o dinheiro na jornalista) é mais digno do que assistir ao deprimente espectáculo de queixinhas e interrogatórios à mestre escola. E, mais importante, liberta o Carlos Magno que assim ficará com mais tempo ainda para ler e nos traduzir o “El País”.

O país (não o El) ficava ou não um sítio melhor com a reinstituição do sopapo?

(Publicado dia 25/5/12 no jornal electrónico Dinheiro Vivo)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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8 respostas a Reinstitua-se o sopapo

  1. Diogo Leote diz:

    No nosso burgo, o reino do sopapo acabou em beleza, com um valente e merecido correctivo dado em plena rua ao autor da coluna Dantas do extinto Semanário. Ficou para a história, não só porque foi inflingido por uma senhora a um homem (embora meio adamado) e pela sua eficácia (a coluna nunca mais foi publicada a partir dos sopapos).

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu preferia que os códigos de ética e o sistema judicial fossem suficientes, mas é tudo tão disfuncional que só parece restar o sopapo.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Pedro, isso tem de ser com lugar marcado. No Chiado, que já tem tradição.

    • Pedro Bidarra diz:

      Com certeza. E com testemunhas. Pena que a bengala (esse elegante apoio do corpo e da reputação) tenha sido dscontinuada dos nossos hábitos.

  3. Rita V diz:

    Pois é … mas não foi um sopapo que deram à Helena Sanches Osório, … foi muito pior …

    • Pedro Bidarra diz:

      E é por isso que eu me ficava pelo sopapo, e entregue em mão pelo próprio

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    O risco será acabar tudo à batatada…

    • Pedro Bidarra diz:

      Caro Bernardo, longe de mim querer ver tudo à batatada. Mas hoje a batatada é igualmente violenta e levada a cabo cobardemente na blogoesfera. De tal modo que até ministros ameaçam com batatada virtual. Na verdade o que parece estar a acabar é esta democracia. E os poderes, o 4º também, têm imensas responsabilidades.
      O sopapo não é uma proposta, é um desabafo; sarcástico.

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