Retiro o que disse e ponho flores

Regresso a Nabokov para retirar tudo o que disse e pôr flores. A singularidade nabokoviana não obsta a que se lhe descubram semelhanças com outros autores que ele apreciaria tanto como o caricatural Maomé aprecia o toucinho.
Refiro-me às avaliações dos editores no momento da publicação de originais. O seu “Lolita”, por exemplo, foi recusado por vários editores que não o quiseram publicar. Como, noutro tempo e por outros editores, foi recusado o “Pride and Prejudice” de Jane Austen. Pior (ou melhor?): houve 22 editores que recusaram o “Dubliners” de James Joyce. Mesmo o consensual “War of the Worlds” de H. G. Welles levou uma redonda nega de um redondo editor. E a Harcourt Brace (de San Diego, Nova Iorque e Orlando), desdenhou o “The Catcher in the Rye”, de J.D.Salinger, que haveria de fazer a felicidade da Little, Brown, de Boston e Nova Iorque.
É fácil atirar pedras aos editores, que costumam ser presos por ter cão e por não ter cão. Mas lembrem-se do vexame por que passou uma prestigiada revista literária (e conto como me contaram) a que um cínico enviou um poema de e. e. cummings cuidadosamente reescrito de trás para a frente: o comité da revista deu-lhe o primeiro prémio do seu concurso para a eleição de novos talentos. Mal por mal e nunca fiando, antes o mau feito de uma escarrado não.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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4 respostas a Retiro o que disse e ponho flores

  1. Panurgo diz:

    Porreiro. Agora quando for rejeitado, já me posso comparar. Não se está mal assim acompanhado. Até lá, vai-se arreliando os mortos, por inveja.

  2. Pedro Bidarra diz:

    Olha que bem. Um final feliz para a saga Faulkner vs Nabokov

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que belo “Salon des Refusés “…

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