Sean Penn, Esse Tolinho

"Este É o Meu Lugar", de Paolo Sorrentino

Já se sabe que Sean Penn não regula. Tanto lhe dá para se armar em jornalista no Irão em reportagem para o “San Francisco Chronicle” como para passar meio filme de boca aberta a olhar para o tecto (“A Árvore da Vida”, lembram-se?). Há poucas semanas, resolveu mandar mensagens à presidente argentina, Cristina Kirchner, sobre o “colonialismo britânico” a propósito das Malvinas. De vez em quando, torna-se um actor brilhante – basta ver “At Close Range”, “Dead Man Walking” ou “Milk”. E não se pode acusá-lo de uma total ausência de humor: recentemente, quando encontrou numa festa a ex-mulher Madonna com Brahim Zaibat, o novo namorado de 28 anos, perguntou-lhe “sempre adoptaste mais uma criança?”

A verve humorística de Penn pode ser reencontrada em “Este É o Meu Lugar”, graças à colaboração com o italiano Paolo Sorrentino. Em “Consequências do Amor” (2004), o seu melhor filme, o director napolitano temperava o romance entre um ex-mafioso heroinómano e uma empregada de hotel recorrendo a um humor surdo, minucioso. Em “Il Divo” (2008), crónica das fraquezas do antigo primeiro-ministro Giulio Andreotti, aventurou-se no território da farsa, acumulando quadros de uma procissão quase felliniana. Agora, “Este é o Meu Lugar” mostra a decadência de Cheyenne (Penn), cantor de grande êxito nos anos 70 e 80, agora recolhido no sonambulismo da sua mansão irlandesa. Cheyenne parece o cruzamento genético de um travesti com o irmão mais velho do vocalista dos “The Cure”, e Penn interpreta-o numa letargia ora irritante, ora hilariante. Após um contacto paterno, este “looser” embrenha-se na busca do homem que torturou o pai no campo de concentração de Auschwitz, agora escondido sob anonimato algures nos E.U.A. Sendo a história, no mínimo, bizarra, o protagonista conquista-nos pouco a pouco, e Penn revela-se quase enternecedor nas suas desastradas manobras de acasalamento de Mary (Eve Hewson), uma jovem amiga e admiradora, com o tímido empregado do shopping que ambos frequentam. Com música de David Byrne, o filme aproxima-se, na sua “fase americana”, da pitoresca singularidade de “True Stories”, realizado por Byrne em 1986. Experimente, que talvez saia de sorriso aberto.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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9 respostas a Sean Penn, Esse Tolinho

  1. Diogo Leote diz:

    Olha, olha, só de olhar para a patética figura do Sean Penn, que ainda mais grotesca me pareceu depois de espreitar o trailer, este era daqueles filmes que estava riscado para mim. Mas, se me dizes que é um parente próximo do True Stories, de que gostei bastante, talvez dê o beneficio da dúvida ao Sorrentino (com quem fiquei a simpatizar depois do Il Divo).

  2. pedro marta santos diz:

    Talvez não tenhas pachorra para um filme tão desiquilibrado, Diogo. Eu, de facto, gostei – será que foi o dia em que o vi, o ter acordado bem disposto, talvez a faixa do Byrne, que me diverte imenso? Há a cinefilia, a paixão, a análise profissional, mas o cinema, como todas as artes, também é filha do momento

  3. Teresa Conceição diz:

    Tou como o Diogo, o trailer não me deixou apetite. Os teus textos, Pedros, têm um condão.
    Por causa do Diogo, lá vou eu ao Tabu. Agora este, que não tava no cardápio, visto assim já me tenta.

    • Diogo Leote diz:

      Teresa, assino por baixo o que o Pedro diz sobre o “We need to talk about Kevin”: é um filme do caraças! Para ir ver antes ou depois do Tabu.

  4. pedro marta santos diz:

    Ó Teresa, espero que não te aborreças… se te apetece ver um filme do caraças, vai ver o “Precisamos de Falar Sobre Kevin”.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Embrenhei-me no texto ao ponto de me esquecer do filme. Se o vou ver ou não interessa pouco, até porque muita já ficou dito : “cruzamento genético de um travesti com o irmão mais velho do vocalista dos The Cure”… Fabuloso!!!

  6. pedro marta santos diz:

    A correr mesmo, amiga Rita. Mas regressa-se cansado dos socos que se levam durante o filme.

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