Segundo Andar à Luz do Sol

 

Segundo o autor, Edward Hopper, trata-se apenas “… duma tentativa […] de pintar a luz do sol, na medida do possível, quase sem pigmentos amarelos”. Mas tratar-se-á apenas de um exercício? Não haverá aqui uma história por contar?

Vamos esperar para ler.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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18 respostas a Segundo Andar à Luz do Sol

  1. caruma diz:

    Há, claro. A das grandes solidões do Hopper. Ela loira de bikini à procura do Sol , Ele grisalho e vestidinho a fugir pelo jornal fora, os pigmentos amarelos nas telas que impedem a luz. Azul frio de empenas e agudos de telhados contra o verde redondo da serra a fazer barreira, quem inventa uma das mil hitórias ?

  2. Pedro Bidarra diz:

    Uma pequena correcção: não é um ele, é uma ela, uma velha.
    Mas se calhar já é um começo de uma história: ele é um “crossdresser”

  3. Rita diz:

    Dizem que não vejo. Cresci com a minha mãe, que se culpa até hoje da minha cegueira. Acha ela que nasci sem ver, por me ter tido tão tarde. O meu pai morreu quando eu tinha meses de vida, pelo menos ele, acreditou que eu via.
    A minha cara é simétrica tenho dois olhos, um nariz e uma boca como todos os outros. Os meus olhos são normais à vista de quem passa, mas não reflectem em imagens o que me rodeia. Aprendi mais cedo que outros que a realidade que nos mostram não existe. Todos os olhos vêem diferente, e os olhos que não vêem limitam-se a sentir. Não se deixam enganar pelos reflexos, sentem apenas. Filtram o que não está lá e só vêem o que existe. Ele não sabe que o sinto, porque julga que não vejo. Mas sei que passa na nossa rua todas as manhãs e pára para me ver, julga que não o vejo. Mas vejo.
    A mãe pensa que me sento ali, assim, todas as manhãs para sentir o Sol, mas não. Fico ali para que ele me veja. Talvez um dia ele me consiga sentir e aprenda a ver.

  4. Há poucos dias escrevi lá no meu canto sobre Hopper, sobre as suas pessoas silenciosas que esperam sempre alguém que não virá, sobre a desolação cansada, inerte, que tomou conta daquelas pessoas geralmente inexpressivas, sobre os corpos inúteis daquelas mulheres que se limitam a olhar como se já nem esperassem.

    (Para o caso de querer dar uma espreitadela: http://umjeitomanso.blogspot.pt/2012/04/as-paisagens-urbanas-silenciosas-nas.html)

    Depois da história do outro dia, a expectativa está alta. Venha daí, então, uma história ‘à Hopper’ sobre a loura de corpo inútil que espera numa varanda…!

    • Pedro Bidarra diz:

      Espreitei sim senhor e écomo diz. Estão lá os corpos inuteis do Hopper.
      “A loira de corpo inutil que espera numa varanda” é também um belo contributo para a história que se está a escrever por si própria

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, grande desafio, com ou sem crossdresser…

  6. MJC diz:

    Na derrota do silêncio pelo que foi e não é a velha mirava clandestinamente aquela loura que à sua frente se espraiava lascivamente na varanda.
    Sentindo os olhares furtivos da velha a rapariga manteve a sua indiferença sorrindo, apenas, interiormente ao perceber-lhe as angústias apagadas nos gestos emaranhados com que tentava segurar o livro que a acompanhava
    Por sua vez ao perceber que também era observada, a velha regressou desconfortavelmente à leitura fingida. Num zoom frenético primeiro as linhas, depois as palavras e por fim as letras voaram como um tufão para além do papel onde se encontravam confortavelmente arrumadas. Nessa viagem foram procurar a amálgama dos perfumes de dor e alegria que marcaram a sua vida. Lembrou os sorrisos escaldantes, as bocas fechadas de tanta coisa que ficou por concretizar. Fixou aquele corpo ilusoriamente inútil, fechou os olhos e deixou-se lascivamente embalar pelos sonhos que não têm idade.
    Indiferente à velha, num repouso merecido, a rapariga continuou a deixar-se entranhar pela a luz do sol, na medida do possível, quase sem pigmentos amarelos e continuou o seu pensamento distante, secreto e majestoso “talvez um dia ele consiga sentir-me”

    • Pedro Bidarra diz:

      isto está-se a compor. parece. No fim ainda junto tudo num daqueles contos de escrita colectiva. Muito bem

  7. Não sei se o Pedro Bidarra ou o Edward Hopper são gente que aprecie um twist mas eu aprecio e, portanto, com a presumível licença do dono do espaço, permito-me acrescentar a seguinte informação que desmente um pouco a versão romântica da Rita (não tanto a de MJC):

    A Ministra, não tendo muito tempo disponível e, sobretudo, não querendo correr o risco de ser vista em público assim, reboluda e nívea, resolveu ir passar uns dias a casa da madrinha a ver se adquiria um tom mais tisnado.

    E, assim, todos os dias, era vê-la a aproveitar o sol da tarde. Desde que estava nisto da governação tinha-se habituado ao impudor pelo que, ali, bem visível e despropositada, se sentia inimputavelmente impudica.

    Contudo, para parecer que queria passar despercebida, resolveu colocar uma cabeleira loura platinada. Afinal a madrinha sempre tinha tido um fraquinho por aquela… qual era o nome dela… ? Mansfield, seria…? (… não estará por aí o Manuel S. Fonseca para ajudar?)

    • Pedro Bidarra diz:

      Ora mais um belo twist na história.
      não sei se o manuel passa por cá hoje, mas se o vir por aí chamo-o

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