Sei que estás aí

 

Sei bem que estás aí, que arrastas os pés em torno de mim. Nua, semi-nua, vaidosa de ruiva. Sei que te comprazes em ver-me assim. Amarrada ao último estertor de vida que é esta cadeira. Correias de cabedal, untada de morte para que a descarga não falhe. Sei que estás aí algures. No olhar burocrático do Marshall, no nervoso miudinho da testemunha sem nome, na tristeza infinita da tenente M. que se afeiçoou ao meu silêncio com cheiro de velha. Sei que esperas adivinhar em mim um último esgar de arrependimento, um sobressalto de medo, um instante de compaixão. Desengana-te. O meu coração está fechado no sempre. E olha que são já trinta anos, sem tirar nem pôr. A mãe que um dia latejou em mim morreu contigo, na poça de sangue em que te esvaíste, na bala prateada da velha Browning que herdei do meu pai, na mão trémula que naquele dia foi a minha. E desde então não mais tremi, não mais tremerei. Não tenho futuro, não sei o que é o passado, imagino intensamente o presente. Sei que estás aí e não te temo.

Esconjuro-te. Sonho-me longe daqui, desta cadeira de metal, desta luz com uma frieza aguda de morte, desta floresta de eléctrodos, deste instante que precede o nada. Sonho-me no Maine, no Maine da minha e da tua infância, a cadeira é afinal de pau, o carrasco és tu, vaidosa de ruiva, nua semi-nua. A palidez palpitante daquela maldita lâmpada apagou-se e voltou a ser o sol lânguido de fim de Agosto. Os fios eléctricos fazem-se finíssimos ramos de pinheiros batidos pela brisa salgada do Atlântico. A luz da morte que aí vem é o faiscar suave do Farol, além, no fim da enseada. Lembras-te? Lembras-te, minha filha? Sei que estás aí. Que arrastas os pés em torno de mim. E não te temo. Muito menos me arrependo.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

14 respostas a Sei que estás aí

  1. Rita V diz:

    curioso
    ou é partida ou é morte
    o sentimento deste sol sem pigmento

  2. rita vaz pinto diz:

    Não sei se percebo bem. Não sei se percebo tudo.
    Gostei muito. Também não sei porquê.
    Sonho, força, vida, sangue, partida, encontros ou desencontros.
    Talvez só saudade…

  3. manuel s. fonseca diz:

    A nua semi-nua a arrastar os pés é bem caçada… ou é Vexa a arrastar-lhe a asa?

    • Pedro Norton diz:

      Eu nunca arrasto a asa, como Sua Eminência bem sabe. Uma dança ou outra no La Chunga não qualificam como bem sabe. Se assim não fosse o meu amigo era maneta.

  4. Sofia Herédia diz:

    Porque é ruiva, a Morte?

    • Pedro Norton diz:

      Acusaste o toque? Não é ruiva a morte. É ruiva a morta, o que é coisa bem diferente. A velha é que era tramada e acabou na cadeira eléctrica.

  5. Pedro Bidarra diz:

    Ó amigo, isto pede continuação

    • Pedro Norton diz:

      a seguir-se segue-se um choque eléctrico, cheiro a carne queimada e … FIM

  6. pedro marta santos diz:

    Boa história de fantasmas.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Só podia ser na América….e tinha de haver uma loira culpada, ou morta.

    • Pedro Norton diz:

      A loira, por acaso é ruiva e chama-se Delia. É inspirada numa música do teu amigo Johnny Cash (Delia’s gone).

Os comentários estão fechados.