Talvez Para a Próxima

Sublimes orifícios de prazer

A dois dias da estreia de “Cosmopolis”, uma obra-prima, regresso a outra, “Crash”. Assim:

 Na cena final de “Crash” de David Cronenberg, o casal James e Catherine Ballard acaba de ter um acidente de automóvel. Ela jaz na relva a vários metros da estrada, o corpo estilhaçado pelo metal. Ele, menos ferido, aproxima-se lentamente. Na dor de ambos há uma inegável sugestão de prazer. James pergunta a Catherine se está bem, Catherine acha que sim. Ele beija-a, e desabafa: “Talvez para a próxima, minha querida. Talvez para a próxima…”

Os filmes do canadiano David Cronenberg (Toronto, 1943) têm sempre um desejo de morte, uma consciência indizível, mas óbvia, de que o fim é o elemento mais importante da condição humana. “Todos temos a doença, a doença de sermos finitos. A morte é a base de todo o horror”. Cronenberg é o cineasta das fronteiras entre corpo e mente, realidade e subconsciente, mutação e libertação, natureza e tecnologia. O seu cinema coloca a civilização entre parêntesis, apela aos medos e desejos mais profundos, foge às expectativas do espectador, coloca dúvidas onde existia conforto (Jacques Lacan gostaria dele), recusa a “sedução”, pulveriza as regras dramáticas clássicas e provoca, sobressalta, altera a percepção do mundo – é o papel último da arte. Não há muitos directores contemporâneos de quem se possa dizer que o cinema seria diferente sem eles.

 Filiado, em início de carreira, na tradição do terror, cedo se percebeu que a sua abordagem era singular. Com Cronenberg, o horror não vem de fora, vem de dentro: os primeiros filmes, “Shivers” (1975) e “Rabid” (1977) falam de pragas sexuais que dizimam populações (anos antes da Sida), de cirurgias pioneiras que resultam em tragédia, de corpos mutantes – o da actriz pornográfica Marylin Chambers em “Rabid” – com falos chupadores de sangue num orifício vaginal debaixo do sovaco.

Cronenberg não adopta o ponto de vista humano, nem sequer em termos individuais. O seu é o ponto de vista do parasita, do vírus. Ele pega na doença e torna-a parte vital do corpo/mente que a recebe, até a a doença se transformar no receptáculo, conquistando a identidade deste (Seth Brundle/Jeff Goldblum em “A Mosca” ou as crianças-monstro de “A Ninhada”, são, literalmente, filhas do ódio que corrói a mente de quem as gera). “Talvez algumas doenças que destroem uma máquina que funciona bem – como o corpo humano – a transformem de facto numa máquina que continua a funcionar bem, mas agora com um objectivo diferente. Vejam os filmes do ponto de vista da doença, e verão porque elas resistem a todas as tentativas de as destruírem”.

No seu incansável exame filosófico e filológico dos limites de corpo, cérebro e patologia, Cronenberg transcende não apenas os géneros cinematográficos como os géneros sexuais. Em “M. Butterfly” (1993), um alto funcionário diplomático (Jeremy Irons) apaixona-se por uma estrela da Ópera de Pequim (John Lone), e o facto de ela ser homem ou mulher é, para ambos, irrelevante. Os gémeos ginecologistas de “Dead Ringers” amam a mesma mulher (Geneviéve Bujold), mas as razões desse amor são do “foro interno” do ser amado – ela tem um útero singularmente retorcido, e eles repetem que “deveria haver concursos de beleza para as vísceras humanas” (além disso, a identidade do par de gémeos não é apenas interior, é colectiva; nenhum deles existe individualmente).

"Dead Ringers", ou a arte invasiva contra a arte evasiva

Há uma devoção primordial na obra do canadiano pela tradição gótica, e por vezes o escritor H.P. Lovecraft vem à memória. Também se podem mencionar as influências da pintura de Klee ou da escrita de William S. Burroughs (de quem adaptou “O Festim Nu”). Mas Cronenberg vai muito para além da soma destas, e de outras partes: ele é um dos raríssimos artistas genuínos da pós-modernidade.

"O Homem Cronenberguiano", por Paul Klee

“Crash”, dirigido em 1996 e adaptado de uma novela do britânico J. G. Ballard, é uma súmula das obsessões cronenberguianas. A sua maior virtude é não se parecer rigorosamente com nada – o crítico Jonathan Rosenbaum, num texto brilhante sobre a fita, começa hesitante, desabafando que “é difícil dizer o que ‘Crash’ é. Ballard não sabe, e Cronenberg também não”. Podemos experimentar, e sugerir que “Crash” revela uma metáfora sobre o poder da tecnologia em alterar o desejo e a identidade sexual. Mas isso não chegaria.

 James e Catherine Ballard têm um casamento em que o hedonismo sobrevive apenas nos relatos mútuos de infidelidade. Um dia, James sofre um acidente rodoviário em que mata o marido de Helen Remington (Holly Hunter). Esta parece reanimar a líbido após a colisão. Faz amor em carros – de preferência semidestruídos por acidentes – e apresenta James e, depois, Catherine, a Vaughan (Elias Koteas). Vaughan é um demiurgo das colisões, líder de um grupo de sinistrados e aduladores das quatros rodas como catalizadores de prazer e destruição. Ele e a sua matilha veneram as feridas, as cicatrizes, as tragédias mútuas – é o sadomasoquismo em versão Castrol GTX. Encenam colisões famosas, como as que vitimaram James Dean, Nathaniel West, Jayne Mansfield.

Turbo Sex in Convertible Nausea

A dado momento, Vaughan diz que um dos seus sonhos era conduzir o Rover que vitimou Grace Kelly, “tal como o carro ficou, só arranjado para o motor trabalhar”.

 James, Catherine, Helen, Vaughan e uma rapariga prolixa, de próteses de metal ( a estrepitosa Rosana Arquette) trocam fluídos e vídeos de acidentes, num festim mudo de fetichismo radical, onde a necrofilia lança uma sombra severa – os rituais de sexo em “Crash” são autênticos prenúncios de morte.

No fim, James e Catherine partilham a violência de mais um acidente na estrada, mas sobrevivem. Por isso, o orgasmo não é completo. “Talvez para a próxima, minha querida. Talvez para a próxima…”

Não há filme mais terrível, estrangeiro, amoral do que “Crash”. Logo, o fascínio é inesgotável.

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Talvez Para a Próxima

  1. Rita V diz:

    um filme dentro de um filme dum filme
    Boa!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, estou para aqui a pensar: meto-me ao volante, não me meto ao volante?!
    Dizes-me: mas tens seguro contra todos os riscos, não tens?
    E eu com os meus botões: será que chega!

  3. Panurgo diz:

    É a pornopolítica, dizia ele. Não aprecio, o filme nunca vi, mas lá que é profético, sem dúvida. Quem diria que passados uns anos andariam para aí uns tarados entesados com o desastre dos outros.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Aprecio bastante os ultimos filmes de Cronenberg, (a partir de Spider, History of Violence and Eastern Promises) Agora Crash é realmente um filme peculiar e , para mim, perturbador, porque consegue ser sensual e apelativo dentro de uma certa (total?) perversão….

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Total, Bernardo. Acho o “History of Violence” e o “Eastern Promises” mais “normalizados”, mas não deixam de ter os acessos principais ao labirinto do homem. Nunca se sabe quando dali se sai…

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