The Basement Cinematheque: Breve Ideia de Felicidade

"Running on Empty", 1988

O que é a felicidade?

Passos perdidos na areia. A mão aberta, pequenita, de uma criança. O suspiro de um orgasmo, encostado ao uníssono. Sorrisos abertos na madrugada. Cent’ anni, brinde do que foi, luz suave do que poderia ter sido. Parir. O momento exacto da consciência das nossas limitações. A noção de que as superamos. Dois arco-íris pelos céus das Caraíbas. Bolinhos de bacalhau, Natal. O tabuleiro, o trabalho. Lápis gastos na iminência da palavra certa. Filmes perdidos na multidão.

Quando nos lembramos de um filme, recordamos um sentido, uma cor, um rosto. Um tempo, fugidio. Duas, três palavras. Às vezes, um cheiro. “Running on Empty” escapa sempre, como o título. Deixa apenas a última brisa da Primavera. Um par de arbustos agitados pela noite. Dois putos que se beijam às escondidas. A voragem do primeiro sexo. O salgar doce. A família que dança numa cozinha breve, de cartolina.

Sidney Lumet, o realizador de “Fuga Sem Fim”, é um injustiçado. Leiam “Making Movies”, o melhor manual sobre o que não fazer quando se faz filmes. Mas onde se fazem filmes nesta terra queimada?

Na década norte-americana de 1970, a década cinematográfica da “revolução que não deu em nada”, salientou-se, com justiça, o papel e engenho de homens como Martin Scorsese, Robert Altman, Hal Ashby. Peter Bogdanovich, Bob Rafelson. William Friedkin e Terrence Malick (estes tão distantes, e tão filhos da mesma mãe). Uns morreram – Altman, de quem não sinto falta, Ashby, que nos agarrava pela garganta, cheio de humor…

Basta ver onde os outros estão hoje: ou filmam episodicamente (Malick, Bogdanovich) ou voam cada vez mais longe do cume criativo – há quantos anos Scorsese não produz obras-primas? Os que sobram, produzem thrillers e fitas de acção pouco interessantes (Rafelson, Friedkin, exceptuando “Bug”, opera buffa portentosa). 

Lumet é um autor, mais coerente do que a maioria dos nomeados e fundamental na transformação dos modelos clássicos do cinema americano em bases abertas à inovação artística, à análise política, à  volatilidade social.

Filho da televisão, como Pakula, Mulligan, Pollack, Frankenheimer, pioneiro dos “cineastas liberais”, Lumet sempre foi um experimentalista a trabalhar com matérias simples: actores (ele é um dos melhores directores de actores da História, ao lado de Griffith, Kazan, Visconti, Antonioni, Bergman), cenários de realismo reconhecível (Nova Iorque em metade das fitas), estrutura narrativa herdada dos pioneiros.

Apesar da simplicidade, há muitas vezes em Lumet um arrojo e um sentido de risco, nos temas e nos conflitos escolhidos,  que é raro no cinema americano. Realizou filmes beliares a partir de peças de Tennessee Williams (“The Fugitive Kind”, 1959), Eugene O’Neill (“Long Day’s Journey Into Night”, 1962) e Tchekov (“The Sea Gull”, 1968). Ao mesmo tempo, rasgou horizontes com a sua abordagem dos retratos femininos (“The Group”, 1966, uma fita panífica), da violência policial (“The Offence, 1973), da Guerra Fria ( a parábola “Fail-Safe”, 1964), da corrupção ( o díptico “Serpico”, 1973 e “O Príncipe da Cidade”, 1981), da manipulação dos “media” (“Power”, 1986 ou o visionário “Network”, 1976).

"Serpico", a vertigem da ética

Dizem que Lumet “faz sempre o mesmo filme”: polícias, gangrena moral, a luta solitária – por vezes de um militantismo cego, como em “Serpico” –  numa sociedade anquilosada. Mas não é o que fazem os grandes, rodar sempre o mesmo filme?

A perfeita solidez das suas obras é espantosa, e um dos poucos que o reconheceu foi Akira Kurosawa, que considerava “O Príncipe da Cidade” um das grandes obras de arte do século XX – é visão jansenista mas válida.

“Fuga Sem Fim” é um filme “menor” de Lumet. Um passo único escrito por Naomi Foner, (a mãe de Jake e Maggie Gyllenhaal, se buscam pormenores “Paris Match”). Mas os temas do costume estão lá: a luta – sempre polémica – por ideais políticos e a solidão, a solidão de homens imersos num mundo cuja mediocridade toleram mal.

Aqui, o homem chama-se Danny Pope (ou será Michael Manfield?), um River Phoenix de fragilidade rouca, em final de adolescência. Danny é filho de Annie e Arthur Pope (Cynthia e Michael Manfield são os nomes oficiais), um casal que anda há uma dúzia de anos a fugir do FBI após ter colocado uma bomba numa fábrica de napalm como protesto pela Guerra do Vietname (a bomba vitimou um guarda-nocturno). Annie, interpretada por Christine Lahti, uma das dezenas de actrizes subestimadas da América, e Arthur (Judd Hirsch, o “Dear John” da série televisiva, no “timing” certo) têm uma não-vida. Estão sempre em trânsito, sem identidade, escondidos do mundo real, das casas viçosas, das contas bancárias, dos amigos de fim de semana, do círculo familiar. Chegaram a um ponto insustentável, onde há escolhas dramáticas a fazer: os filhos Danny (Phoenix) e Harry (Jonas Abry) não são mais compatíveis com a fuga. Sobretudo Danny, de talento ensurdecedor para a música, prodigioso pianista, quase sem formação, que sonha entrar um dia em Juilliard. Fazê-lo é abandonar os pais, talvez nunca mais os ver.

Sadly, the river flows

“Fuga Sem Fim” é música de câmara, feita de notas discretas, de amores distantes, com um centro fixo: Danny.

Danny e um piano de três pés. Danny e a mãe que o adora, mas o condena ao exílio. Danny e Lorna (Martha Plimpton), filha despachada do professor de música. Danny e a vida enorme que o quer receber, mas o mundo não deixa. Porque se gosta tanto de alguém que só se conhece nas sombras? Porque é parecido com o que gostaríamos de ser?

A cena é na alegria tranquila antes da tempestade. A família Pope realojou-se numa casa modesta mas gentil. Há um alpendre, de farripas tímidas. Arthur arranjou trabalho. Annie, com jeans e t-shirt branca, está mais bonita do que nunca. Harry arruma a louça. Danny convida a mãe para dançar. Ouve-se James Taylor na rádio: “Lonely Days/ That I Thought Would Never End…”

A câmara afasta-se pelo carinho esvoaçado da janela.

Um filme sobre a maravilhosa angústia da adolescência? Este.

 

Publicado em “o Independente” ( com correcções “al dente”)

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a The Basement Cinematheque: Breve Ideia de Felicidade

  1. Rita V diz:

    foi quase como estar no ‘escurinho do cinema. Chupando drops de anis’

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Eu comia muito daqueles rebuçados ácidos da Heller.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que belíssima homenagem Pedro! Não sendo conhecedor lembro-me de filmes fortes, bem realizados, com um casting escolhido a dedo, como “Twelve Angry Men”, “Dog Day Afternoon”, e mesmo o que terá sido o seu último filme (?) “Before the Devil Knows you are Dead”..Não vi “Fuga sem Fim ” mas vou tentar arranjar…

  4. pedro marta santos diz:

    Se o encontrar entre aqueles artefactos primitivos chamados DVD, ofereço-to no Natal. É de comer e chorar por mais.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Belo texto e lembro-me de ter adorado o filme!

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