The Freudian Hotel

 

 “So much of every art is an expression of the subconscious
that it seems to me most of all the important qualities are put there unconsciously,
and little of importance by the conscious intellect.”
Edward Hopper

Eddie vivia perto do hotel. Quando comprou a sua casa de Verão, em Truro, Massachusetts, o hotel já lá estava: discreto, branco, um aglomerado de pequenas casas de dois andares com vista para o nascer do sol na baía de Cape Cod.
Na época ainda não tinha nome na porta. Na verdade nem nome tinha. “The Freudian Hotel” era o nome que alguns locais, os poucos que por lá tinham casa, davam ao complexo para onde algumas almas perturbadas iam aproveitar a calma, o mar e os serviços terapêuticos que o hotel prestava.
O hotel pertencia a Allen Dusenberg, um psiquiatra americano discípulo da psicanálise e um dos pioneiros da psicoterapia não hospitalar. Allen resolvera um dia desistir da sua prática em Nova Iorque e abrir um “hotel” que oferecesse, para além das amenidades e confortos próprios de um hotel, a possibilidade aos seus hóspedes de aproveitar o tempo para fazer análise, psicoterapia, hipnose e tratamentos de dessensibilização fóbica. Mais do que um razoável psicanalista, Allen era um homem de negócios astuto e o seu hotel deu origem ao The Freudian Hotel SPC (Salus Per Colloquium), a cadeia de sucesso que hoje todo o mundo conhece.
Mas no principio da década de sessenta era apenas e só um hotel sobranceiro à baía de Cape Cod, um hotel diferente, onde Allen exercia a sua prática e onde Eddie o foi procurar.

Eddie, embora familiar com a psicanálise e os seus conceitos, e afligido por humores sorumbáticos, nunca fora dado a procurar ajuda. Até porque não estava tão mal como estivera no passado. Os seus humores eram mais negros antes de casar, quando a sua carreira ainda não havia estabilizado e se via obrigado a trabalhar, a contra gosto, como ilustrador para agências de publicidade e jornais: “. . . às vezes falar com o Eddie era como mandar uma pedra para dentro de um poço, uma pedra que não fazia plof quando chegava ao fundo.”, observou um dia a mulher.
Mas com o casamento a melancolia de Eddie encontrou um sentido convertendo-se na banda sonora do filme parado e calado que era a sua vida e a sua arte. Eddie era de pintar a solo, longe das trupes e dos gostos do dia. A reclusão do mundo e das modas foi sempre a sua opção; e a amargura, o gosto que tudo tinha.
“Sinais que configuram uma depressão crónica, embora não grave”, diria o bom Dr. Allen se algum diagnóstico lhe tivesse sido pedido, ou se Eddie tivesse alguma vez falado com ele dos seus humores.
Mas não foi a depressão crónica que levou Eddie a consultar Allen no hotel. Foi a morte. Eddie consultou Allen quando, pela primeira vez, a morte lhe apareceu.
E apareceu-lhe três vezes: primeiro num feeling, depois num quadro e, finalmente, na próstata.

Das conversas entre ambos pouco se sabe. A relação terapêutica entre Allen e o pintor foi privada, como era normal na época – só mais tarde a análise e a psicoterapia se converteram numa banalidade badalada em festas e cocktails. O que ficou foram algumas notas de Allen e o quadro por ele encomendado ao lacónico paciente.
Eddie tinha dificuldade em falar de si e, sobretudo, em explorar o sentimento da presença da morte na sua vida. De acordo com as notas do psicanalista, Eddie apenas dizia que tinha sentido a morte e que se tratava não um sentimento negro e psicológico mas antes de uma revelação fisiológica. Eddie dizia que a morte, que sentia, não era uma ideia ou um pensamento, a morte era um desconforto. Era assim que a morte se apresentava, como um desconforto físico.
Allen queria explorar as dimensões psicológicas desse feeling mas Eddie nada mais acrescentava. O terapeuta, não conseguindo penetrar e em desespero técnico com falta de elementos de diagnóstico, convenceu Eddie a pintar o que sentia e a visualizar, num quadro, o seu desconforto fisiológico.
“Talvez fazer as próximas sessões lá fora, talvez pintar um detalhe do hotel ou da paisagem. . .”, foi a sugestão de Allen para tentar obter alguma projecção do mundo interior de Eddie, já que para a conversa e livre associação o pintor mostrava-se particularmente inepto.
Eddie assim fez. Começou o quadro e, quando terminou os primeiros esboços, deixou-os ao cuidado de Allen para que este os pudesse estudar. Combinaram voltar a encontrar-se e a falar sobre o assunto quando Eddie voltasse de Nova Iorque para onde iria um par de semanas para tratar de vários assuntos; entre os quais um exame de rotina com o seu médico habitual.

Passadas as semanas, quando finalmente voltou a Truro e a visitar Allen no hotel, Eddie trazia consigo o quadro já acabado. Era uma tela com cerca de 1m por 1,30m que Eddie dizia ser um estudo sobre a luz do sol sem pigmentos amarelos.
“E qual vai ser o título do quadro?” perguntou Allen.
“Ainda não sei…”, respondeu Eddie pensativo, “Estava a pensar chamar-lhe Second story sunlight with prostate cancer.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

23 respostas a The Freudian Hotel

  1. manuel s. fonseca diz:

    “E apareceu-lhe a morte três vezes…” é uma invejável solução dramatúrgica e o mais verosímil dos factos. Grande malha! Isto não é para quem quer, isto é para quem sabe.

  2. Rita V diz:

    Oh! Pedro. Quando quiser fazer um filme diga-me . Eu posso levar as máquinas, segurar na girafa e bater a claquete
    eh eh eh

    • Pedro Bidarra diz:

      Para filme falta muito, para aí uma 120 páginas. Mas segurar a girafa parece-me bem 🙂

  3. RB diz:

    Eu candidato-me ao posto de ajudante. Bem apanhado, Rita 😉 😉 😉

  4. Maracujá diz:

    Caro Pedro, muito bom mesmo!
    Também posso participar? Eu candidato-me a atriz, o melhor é começar com um papel secundário!

  5. ~CC~ diz:

    Excelente modo de conduzir alguém à projecção, fiquei curiosa acerca da interpretação analítica que o psiquiatra faria do quadro do amigo. Bela história!
    ~CC~

    • Pedro Bidarra diz:

      Absolutamente genial seria substituir o toque rectal por um desenho.
      – Ó soutor, fiz aqui este desenho, veja lá o que é que eu tenho.
      – Ó homem está a ver este borrão aqui na paisagem? Isto é uma inflamação na próstata.

      • ~CC~ diz:

        Parece-me que fugiu um bocadinho à questão mas tudo bem…juro que não vou instalar aqui o divã (como é que quem gosta de histórias, não gosta de psicanálise?). De qq modo gostei da sugestão, seria fantástico….Em todo o tipo de consultas um desenho…ainda se descobriam uns quantos artistas!
        ~CC~

  6. Isabel diz:

    Sendo a arte, sob todas as suas formas, sempre, a concretização de emoções, é naturalmente, um bom meio de exprimir e/ou expulsar fantasmas. A história já o provou. Em crianças então é primordial, devido à sua “incapacidade” para falar sobre eles. Tem sempre que se ir lá de uma forma indirecta. Como em tudo na vida, há os que têm bom senso e os que não o têm. Lembro-me sempre de uma história contada por um professor. Um dia aparece numa consulta uma criança de 4 anos, saudável e um pouco para o anafada, cujos pais estão preocupadíssimos, porque a professora chama-lhes a atenção, por o seu filho na escola só fazer desenhos a preto; não usa mais nenhuma cor. Naturalmente em consulta põe-na a fazer desenhos; usa as cores todas de uma forma equilibrada. Em casa o mesmo. Nada a apontar. Qual será o “complexo” de que aquela criança sofrerá? Saltando os pormenores, só ao fim de quase um ano, a criança faz, na escola, um desenho multicolorido*, voltando quase de seguida ao mesmo. A cena repete-se no ano seguinte mas entretanto os pais insatisfeitos por não verem melhorias nenhumas resolvem mudar de terapeuta. Finalmente este tem a brilhante ideia de perguntar à criança porque faz os desenhos a preto na escola.
    – Quando a professora diz “meninos, chegou a hora do desenho, vão buscar os lápis” todos desatam a correr; eu não estou para me meter nisso, então eles levam as cores todas e os únicos que sobram são os pretos.

    ______________
    * Veio-se a saber, mais tarde, que este desenho foi na sequência de uma epidemia de varicela em que a sala ficou reduzida a 2/3.

  7. MJC diz:

    Ouvi dizer que por estas bandas ia começar a produção de um filme e estavam a recrutar pessoal. Candidato-me à sonoplastia. Se precisarem de figurantes podem contar comigo 🙂 🙂

  8. MJC diz:

    Agora falando sério 😉
    Começo por relembrar o saudoso professor Miranda Santos (um dos muitos expoliados universitários deste pais; quando se contar o pensamento deste homem, só então, a verdade será reposta) costumava dizer-nos, não me farto de repetir, “de médico e de louco todos temos um pouco e de psicólogo todos temos muito”

    Conseguir “incorporar” a luz solar sem pintar o sol depois de ter conversado com a morte três vezes … se isto é depressão …

  9. Carlos diz:

    Também fui aluno de Álvaro Mirando Santos em “Arte, Expressividade e Epistemologia”. Viu a Ciência Psicológica, como fazia questão de dizer, para além do óbvio. Prendia-nos do primeiro ao último minuto sem necessidade de Power Point. Essa frase, que também recordo, conduzia-nos a não facilitarmos, não sermos banais, não fazermos psicologia de vão de escada.
    Também fico aterrorizado, como o Pedro Bidarra, fala num texto anterior sobre a facilidade com que se patologiza a vida das pessoas. Palpita-me que, um destes psicólogos (a maioria) veria neste quadro de Edward Hopper algo de muito grave… A acção dos outros sobre nós não tem que ser necessariamente através das palavras. Se assim fosse a música, a pintura ou escultura nunca teriam interlocutores.

  10. MJC diz:

    Peço desculpa, ao Pedro Bidarra por responder ao Carlos, mas não resisto. Tive-o como professor a psicologia social nunca mais esqueci o que deixou escrito no trabalho que fiz para essa cadeira: Mitologia, Arte e Contemporâneidade “como vê, MJ, já tudo foi dito sobre a complexidade do humano resta-nos despi-los dando-lhes novas roupagens”. Estávamos em 1982!

Os comentários estão fechados.