Um lado é o espaço entre bicos

A conferência “Um Lado é o Espaço Entre Bicos – O olhar possível sobre o pensamento crítico de Günther Mole”, inicialmente programada para a Gerrit Rietveld Academie e finalmente proferida no MAA, Martial Arts Academie of Amsterdam, por Klaus Pontius e João Simões, acabou, como seria de esperar, com a execução de um mandato de captura internacional por suspeita de envolvimento dos dois conferencistas no assassinato do crítico de arte Nova Iorquino Leon Putrakis a.k.a. o Lagartista.

A conferência, baseada em textos apócrifos de Günther Mole, excedeu em muito as expectativas da organização – a obscura ISDM– demonstrando, mais uma vez, o interesse do mundo da arte e da crítica por tudo o que é Mole. O interesse pelo pensamento de Mole – ou por vislumbre do seu pensamento na esperança de que o que se vislumbra seja o pensamento de dele – deve-se à importância geométrica que a impossuibilidade da sua obra e a sua existência apenas conceptual têm tido na redefinição do papel do artista. A recusa da tridimensionalidade, a dele e a da obra, veio redefinir o lugar da arte que passou a poder viver num espaço n-dimensional que é o espaço onde podem não existir todas as obras com toda a legitimidade aos olhos de quem as consegue não ver.

Confusos? Não admira. Günther Mole não é fácil de apreender e, ainda assim, apreendê-lo é o papel ingrato da crítica, assunto sobre o qual falaram Pontius e Simões.

De acordo com estes discípulos de Mole o papel do crítico é o de possuir a obra. Ele é o primeiro elo, e o mais importante, numa cadeia que culmina com a possessão do artista. Sem este primeiro passo a obra é inexistente e por isso impossuível.
A obra, que é coisa redonda e viscosa, coisa que não pára e não se deixa agarrar – e que começa livre –, só é agarrada quando convertida em figura geométrica com lados que a impedem de rolar. O instrumento do crítico é pois o segmento de recta, um lado com dois bicos: é o famoso contraditório, o negativo/positivo, a esquerda/direita enfim, o carril por onde viaja a opinião e que tem uma chegada e uma partida. Depois, ao primeiro segmento de recta vão juntando-se outros. Na tarefa de explicar e possuir o sentido da obra, vão-se acrescentando bicos e lados e a crítica vai assumindo formas geométricas mais complexas e multifacetadas. Se o crítico vulgar apenas consegue triangular uma obra, isto é, explicá-la em três penadas –três lados e três bicos – já o crítico mais maduro e atento tende para a criação de figuras geométricas mais complexas que podem chegar, nalguns casos mais felizes, ao icosaedro truncado que é uma crítica com sessenta bicos e noventa arestas.

Ora se a obra é uma coisa redonda, poder-se-á dizer que o papel do crítico é o de ver todos os lados de uma coisa que não os tem. Sendo um lado o espaço entre os bicos, ou arestas, e a tarefa do artista, limá-las, então a tarefa do crítico é a de deslimar as arestas; o que não é diferente, enquanto actividade, de destocar uma campainha, despirrar um espirro ou, como muito bem referiu Simões, desmoer uma chanfana de cabrito.
Dir-se-ia que ao deslimar as arestas o crítico está a tornar a obra possuível, o que é contra o credo dos que se afirmam da escola de Mole. Para muitos, ter o seu pensamento deslimado e possuído, é um delito contra a propriedade levado a cabo pela crítica num processo de colectivização da obra e do artista. E é aqui que o caso se converte, mais uma vez, em caso de polícia.

Leon Putrakis, na semana que se segui à publicação do seu ensaio sobre a inexistência de Mole, foi encontrado feito num oito (uma forma redonda e infinita) dentro de um barril de massa consistente e viscosa. O facto levantou suspeitas e a polícia, de imediato, abriu um inquérito e emitiu um alerta internacional. Também o envio, a conhecidos críticos de arte (Putrakis incluído), de textos evangelizadores de cariz Moleano assinados por uma organização chamada ISDM, foi algo que alertou as autoridades que pensam tratar-se de uma seita artística radical de seguidores de Mole denominada de Igreja do Sagrado Descondicionamento Mental.
Nada disto foi no entanto ainda provado e por isso as investigações prosseguem com zelo.
Interrogados sobre estes factos e conjecturas, Pontius e Simões reagiram com incredibilidade tendo declarado às autoridades, e tendo ficado lavrado nos autos:
— Vocês não devem estar é bons da cabeça.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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7 respostas a Um lado é o espaço entre bicos

  1. Isabel diz:

    A análise perfeita para uma expressão que me assaltou o pensamento há alguns dias “de não posse parida”. Obrigada. 🙂

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Há muitas coisas que podem ser discutíveis, caro Pedro, mas a existência de Mole é uma certeza inexpugnável. Duvido, isso sim, que se possa falar de uma escola de Mole. Há uma impossuibilidade discipular óbvia.

    ps- só gostava de saber como é que conseguites estar presente na conferência clandestina do MAA. Tu és terrível.

    • Pedro Bidarra diz:

      A existir é uma escola Mole. Não estive na conferência mas conheço quem tenha estado: é um tipo que esteve internado comigo mas que, ao contrário de mim, continua clandestino.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Limar o oito, desfazer arestas e curvar rectas, foi em tempos passatempo conhecido e popular entre críticos doutorados de famosas Universidades Europeias, mas nada que se compare com a sentença final de Pontius e Simões, onde se revela a mestria, inacessível, do pensamento marcial contemporâneo.

    • Pedro Bidarra diz:

      Caro Bernardo, é por essas e por outras que esta história não parece ter fim. Ver-se-á que mais enredos terá

  4. MJC diz:

    Não tenho dúvidas da existência de Mole e seus discípulos, pelo que discutir a sua existência e impossuibilidade, óbvia, é tempo perdido. Persistir é acabarmos como Leon Putrakis
    Penso ser mais razoável e mais confortável, sedutor inclusivé, pelo menos para mim, enquanto consumidora de arte a tese defendida por Julio Cortázar (um escritor que admiro sobremaneira) quando nos fala de cumplicidade, seja na arte, seja no amor.

    “Que importância tinha para Van Gogh a tua admiração? O que ele queria era a tua cumplicidade, que tentasses olhar como ele olhava com os olhos esfolados por um fogo heraclíteo. (…) Quando Saint-Exupéry sentia que amar não é olhar nos olhos do outro e sim os dois juntos olharem na mesma direcção, ultrapassava o amor de casal, porque todo amor vai além do casal se for amor, e eu cuspo na cara de quem vier dizer-me que ama Michelangelo ou Cummings sem provar que ao menos numa hora extrema foi esse amor, foi também o outro, olhou com ele pelo seu olhar e aprendeu a olhar como ele a abertura infinita que espera e exige.” In “A volta ao dia em 80 mundos”

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