Uma história Mariana

MARIA ABRIU AS PERNAS E PUFF. Ainda a parteira lavava as mãos, já o médico estava de boca aberta, o marido desmaiado no chão e a coisa cá fora. Nem houve tempo para o proverbial ‘Faça força!’. A coisa saiu gasosa, sem esforço e para espanto de todos.

A gravidez de Maria tinha sido leve. Demasiado leve e descomplicada. Embora a sua barriga fosse enorme, Maria não tinha sentido o peso e os incómodos que tinham afligido as suas amigas. Nem enjoos nem pernas pesadas nem sequer tinha aumentado de peso. Na verdade Maria nunca sentiu absolutamente nada, o que talvez pudesse ter sido encarado como augúrio do que aí vinha. Também não ajudava o facto de Maria, contra o bom conselho do seu Manuel, ser uma espécie de hippy da Internet, daquelas que tudo lê desde que cheire a místico e alternativo, e tenha recusado toda e qualquer intervenção médica. Nem amniosintesis, nem ecografias, nada. Para Maria a criança nasceria em casa ou na rua ou no carro ou em qualquer estação de metro. A natureza seguiria o seu curso. Seria ela a ditar a sua lei e o seu tempo sem a intervenção artificial de médicos e médicas.

‘Abençoada internet que tanto ensina’ assim pensava Maria. Mas no fim o cagaço acordou o bom senso e, quando Maria sentiu uma contraçãozita que na verdade mais parecia um arroto, o Manuel lá a convenceu a ir à maternidade para concluir esta gravidez e-mística com uma certa aparência de normalidade.

Ainda assim ninguém estava preparado para o que se seguiu. Muito menos Manuel, o pai moderno e corajoso que tinha decidido pegar o parto de caras, de olhos bem postos na vagina da mulher que esperava ver abrir-se, descomunal, e regurgitar o rapaz que tanto ansiava. Chamar-lhe-ia Zé como o seu pai, ou Joaquim, como o avô. Tinham falado sobre isso e tido, inclusive, algumas discussões acaloradas. Maria queria olhar primeiro a cara do recém nascido e dar-lhe um nome inspirado nas expressões e nos trejeitos que fizesse. Manuel temia que o filho acabasse Buda, Sharpei ou Rato (muitos recém nascidos parecem ratos pelados à nascença) ou Rata, Deus os livre, no caso de ser uma menina. Mas não. Seria Zé ou Joaquim e, se fosse rapariga, então a mãe poderia dar azo aos seus devaneios e chamar-lhe, Flor, Cereja, Anona ou fruta da época. Rapaz ou rapariga logo se veria. O que o casal não contava era que não fosse nem uma coisa nem outra.

Maria abriu as pernas e puff. Puff literalmente. Puff foi o que se ouviu enquanto a sua grande barriga se esvaziava como um balão. E, por entre as pernas de Maria, soprada por uma vagina que se manteve sempre impávida e serena, saiu uma lindíssima nuvem. Uma nuvem branca, pequena e linda. Um floco de vapor primaveril que de imediato subiu e pairou na sala de parto. Uma nuvem delicada que todos admiraram de boca aberta; bem mais bem aberta que a vagina da Maria que, para a parir, precisou apenas de bocejar.

E então Maria olhou para a nuvem e pensou em que nome lhe dar. Ainda teve que pensar um pouco, pois nem todo o nome é nome de nuvem. Podia ser Ascensão ou então Aparecida. Nuvem Aparecida não ficava mal. Mas não era a cara dela. Outro nome a Maria havia de encontrar. E encontrou:

— Manel, — disse a Maria quando o pobre pai da nuvem finalmente retomou o sentido — não é linda a nossa nuvem Clara?

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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25 respostas a Uma história Mariana

  1. G.Rocha diz:

    Linda esta historia mariana !!!
    Confesso que fiquei “pregada” no texto até ao fim 🙂 , não consegui interromper a leitura. Ri com o final e esbocei muitos sorrisos pelo meio 🙂

  2. Rita V diz:

    Ó nuvem Pedro.
    (private joke)
    Beleza a dobrar por todas as razões do mundo
    Parabenizo-o duplamente …éns!

  3. dança vermelho diz:

    um dia temos de combinar fumar cachimbo 😉

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Que bela história esta Mariana…
    Adorei e fico à espera da próxima, já com a “nunvem Clara” aos berros 🙂

  5. manuel s. fonseca diz:

    Pedro, essa nuvem ainda é tão pequenina, vai demorar muito a chover, não vai?

    • Pedro Bidarra diz:

      Vai chover lá mais prà frente. E depois, quando for uma nuvem adolescente é que vai ser uma carga de água, raios e coriscos. Aí há de ser uma nuvem preta

  6. JotaSa diz:

    Uma dose bem servida de humor. Será que era mesmo uma nuvem… clara?

  7. marco diz:

    humor bonito

  8. Teresa Conceição diz:

    A recém-nascida ficou muito bem na fotografia! Os bebés acabadinhos de puff são sempre tão feiotinhos. Vê-se logo que o pai textual é um pai babado. (Ou bebé babado?)

  9. Panurgo diz:

    “Maria abriu as pernas e puff” oh, acontece a todos… e o pior, de facto, ainda está para vir, quando a nuvem chegar à adolescência lá vai o modernaço do Manuel ter de aturar Íxion atrás de Íxion…

    • Pedro Bidarra diz:

      Caro Panurgo, a prepósito de centauros lembrei-me de uma anedota.
      A Mãe está grávida e o pai vai falar com o filho que olha desconfiado a barriga da mãe.
      — Filho, dentro da barriga da mãe está um bebé. – diz o pai, – Gostavas mais que fosse um rapaz ou uma rapariga? – pergunta.
      — Ó pai, se não doesse muito a coisa à mãe eu cá preferia um pónei

    • manuel s. fonseca diz:

      O Panurgo não é só um mestre de mitologia, é também um perverso mestre de mitologia. COnta o PB esta história inocente e o Panurgo desata a chover-nos lá do Olimpo. Well done.

  10. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Bela nuvem…digo : bela história!

  11. António Eça de Queiroz diz:

    Lembro-me de duas histórias sobre a gravidez histérica: uma que a minha Mãe me contava, passada em Moçambique, em que o ‘pai’ da nuvem acabou conhecido como «a bomba de encher pneus»…
    A outra num filme delicioso com o Dustin Hoffman, chamado Alfredo, Alfredo – onde o ‘nascimento’ sonoro não é um «puff» mas sim um «Pfiéééé!» de vuvuzela desafinada.
    Grande história, mas deve ser cá um desatino!…

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