Uma noite no sótão: com François e ménage à trois.

François com Madeleine em Cannes. Ladeados por Léaud e Cocteau.

 O Verão de 1990 foi quentíssimo.
Estava, Leão, quase a fazer anos, em Julho, e ganhava a vida a escrever. A crítica de cinema cada vez mais me aborrecia de morte. Só me apetecia escrever restos de biografias, páginas cor-de-rosa que revelassem escândalos, amores proibidos. Dei comigo a escarafunchar na vida de Truffaut. E o velho “Expresso”, magnânimo, deu-me duas páginas na revista.
Afinal, era Verão.  

 

O romance de Truffaut

As expressões «o cine­ma de François Truf­faut» ou «a vida de François Truffaut» carecem de sentido. O cinema foi a vida dele e Truffaut, tudo o que viveu (consta que foi muito), viveu-o como pura ficção, o que nele quer dizer «como cinema». Em particu­lar, as histórias de amizade e as histórias de amor que a seguir se evocam.
Por exemplo, na primeira longa-metragem, Os 400 Golpes, o cineasta agarrou num rapazi­nho e fez dele actor, mol­dando-o até o converter no seu «alter ego». O rapazi­nho chamava-se Jean-Pierre Léaud e revivia no ecrã o que fora a adolescência de Truf­faut.

Uma amizade de ferro

Truffaut não estava sozi­nho nessa visão romântica que confundia biografia com criação e cinema com vida. Nos «Cahiers», Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jacques Rivette ti­nham uns pelos outros uma amizade que parecia de ferro. Por exemplo, quando Godard filmou O Acossado – filme-manifesto da «Nouvelle Vague» – na ficha técnica o argumento foi atribuído a Truffaut, e Chabrol aparecia como con­selheiro técnico. Nem tudo era mentira, embora nada fosse verdade. Era uma combina de putos rabinos para enganar o produtor. Em cima de cinco histórias tiradas da revista «Detective», Truf­faut escrevera pelo seu punho: «Podem servir de base a um argumento.» A tanto se resu­me, segundo fontes fidedig­nas, a sua autoria do argumento. A assessoria técnica de Chabrol era igualmente fan­tasma, mas com esses dois nomes Godard sosse­gou o produtor desconfiado e já o produtor pôde sedu­zir um distribuidor que desse o avanço para cobrir o magro orçamento do filme.
É o tipo de cumplicidades de que a história da «Nouvelle Vague» está cheia. É claro que, com a distância – e já passaram mais de 30 anos [agora mais de 50] sobre esses acontecimentos – cai-se na tentação da lenda, ape­sar de Rohmer ter escrito que «nunca deixaria dizer a ninguém que os 20 anos tinham sido o mais belo momento da minha vida». Esses anos, lembra Rohmer, «foram, se não tris­tes, pelo menos cinzentos. Quando nos perguntavam: ‘De que é que vivem?’ gostávamos de responder: ‘Nós não vivemos.’ A vida era o ecrã, era o cinema.»
O mesmo vale para as his­tórias amorosas de cada um. Quando namoraram ou casa­ram, o cinema teve sempre a última palavra. A vida amoro­sa de Truffaut, por exemplo, vergou-se mais ao sopro da fêmea do que uma cana de bambu. O que nem sequer é incoerente com o que ele pensava das mulheres: «Ser mulher é já um emprego, do qual Deus é o patrão.»
Truffaut casou cedo e, di­ziam as más línguas, «casou com a filha do seu pior ini­migo». Madeleine era, com efeito, a filha do produtor Ignace Morgenstern. O cora­ção e o cálculo parecem ter-se misturado neste como noutros passos da vida de Truffaut. E a suspeita aumenta se se sou­ber que, pouco depois, o realizador se envolveu, numa relação paralela e duradoura, com outra mulher, Liliane David. Os inimigos acusaram-no de viver uma situação extremamente escabrosa; ele achava-a extremamente pura. Está tudo explicado (ou exor­cizado?) num dos seus filmes mais ambiciosos do começo de carreira, Jules e Jim, his­tória de um «amor puro» par­tilhado por dois rapazes e uma rapariga que vivem juntos, «como a mais natural das coisas», si­tuações «extremamente es­cabrosas e extremamente puras».

ia jurar que é Liliane em Les Dragueurs

Um amor clandestino

Foi imediatamente a seguir ao sucesso obtido em Cannes, com Os 400 Golpes, que Truffaut conheceu Liliane. O casamento com Madeleine e o sucesso em Cannes – festival a que não poupara ataques desabridos enquanto crítico – abriram a Truffaut as por­tas que intimamente sem­pre desejara abrir. É pelo menos o que sugere o seu biógrafo Gilles Cahoreau: «Rejeitado, marginal du­rante toda a sua infância, ele encontra, em adulto, o refú­gio que procurara na respei­tabilidade burguesa. É o fenómeno inverso de Godard: Truffaut tinha vonta­de de entrar no ovo.» A rela­ção com Liliane foi uma forma de preservar, no quarto das traseiras, a marginalidade (ou a clandestinidade) perdida. O romance começou em Saint-Tropez, onde alguém os apre­sentou. Mas não era a primei­ra vez que se viam. «Tinha tido ocasião de o encontrar, dias antes, em Cannes», afir­ma Liliane. «Um amigo co­mum apresentou-nos. Pas­sámos um quarto de hora com ele, o tempo de beber um café. Não dissemos qua­se nada, mas passou-se qual­quer coisa, uma breve troca de olhares.» Não menciona­ram o facto de já se conhece­rem. «Foi como um segredo tácito. Eu achava-o amoroso e ele tinha, sobretudo, aque­le olhar de que ninguém se esquecia. Apesar de ter os olhos pequeninos…»

É mesmo Liliane, que foi primeiro David e depois Dreyfus. Actriz e realizadora.

Os olhares, exactamente como no cinema. E, exacta­mente como no cinema, os carros. Truffaut adorava o Ferrari de Roberto Rossellini, como venerava o 4 CV de André Bazin. Não admira que tenha convidado Liliane a regressar a Paris com ele, de carro. Quando chegaram a Paris descobriram que, ainda por cima, eram vizinhos; daí em diante, «por tudo e por nada, ele saía de sua casa, dizia que ia comprar o jor­nal… e vinha ter comigo», conta Liliane.
Estarei eu a sugerir que Jules e Jim «explica» todo o romance de Truffaut? Nem tanto ao mar… No cinema, Truf­faut tentava converter a histó­ria de dois homens e uma mulher que viviam juntos toda uma vida, num «filme de amor o mais ‘puro’ possível e isso graças à inocência dos três personagens, à sua inte­gridade moral, à sua ternu­ra e, sobretudo, ao seu pu­dor, graças ainda à forma de amizade entre as duas personagens masculinas.»
Nem o romance de François-Madeleine-Liliane teve a mesma inocência, nem o cineasta de Jules e Jim dei­xou passar para o seu filme o «sentimento do impostor» que o assaltava na vida. Truf­faut tinha um medo desgraça­do de ser «apanhado»: obri­gou, e é só um exemplo, Lilia­ne a mudar de casa, para a Rive Gauche, para evitar encontros inoportunos. Mas não tinha só «medo de ser apanhado»; cultivava esse medo: temendo ser descober­to na rua, mandava Liliane caminhar à sua frente, acom­panhada por Jean-Pierre Léaud, que lhes servia de pau de cabeleira, enquanto ele vinha atrás, em geral meio escondido por um jornal que fingia ler… Que Truffaut cul­tivava este sentimento de clandestinidade é tanto mais óbvio quanto sempre se recu­sou a aceitar que a sua aven­tura era conhecida e que Madeleine, em particular, soube­ra de tudo antes do nascimen­to do seu segundo filho.

Comovente traição

Truffaut bem gostava que Liliane tivesse sido actriz nos seus filmes. Mas o pudor reteve-o. Preferiu metê-la nos filmes dos amigos. Em O Acossado de Godard e em As Boas Mulheres de Chabrol. Quase se arrependeria, no caso de Godard que era «oblí­quo» (disse-o Truffaut) em histórias de mulheres. Godard convidou-a sem meios-termos a ir para a Suíça fazer esqui. Liliane deu-lhe uma nega. Godard insistiu: «Mas Truffaut também foi para a montanha.» «Não é a mesma coisa, respondeu Li­liane, ele foi trabalhar.» Dégueulasse, Go­dard armou-se em persona­gem de qualquer um dos seus filmes: «A verdade é que ele já não a ama a si. Ele foi com a Marie Dubois.» E pediu asilo em casa dela por três noites, jurando que não tentaria tocar-lhe. Ela deixou-o ficar. Quando se foi embora, agarrou em dois duplos álbuns, um de Mozart, outro de Beethoven, rasgou-os ao meio, e deu metade de cada um a Liliane. Três dias depois, voltou a convidá-la para a Suíça. Liliane – por desafio, diz ela – acabou por ir. Foram de carro como Karina e Belmondo no Pierrot le Fou. «Ele recome­çou a falar de Marie Dubois. Foi chato e sinistro durante toda a viagem.» Na manhã seguinte, Liliane estava pelos cabelos e voltou sozinha para Paris. Contou tudo a Truffaut, mas era como se não lhe estivesse a dizer nada que ele já não soubesse. Quando um dia, em violenta troca epis­tolar, se zangaram, Truffaut não deixou de lembrar a Go­dard: «Eu sabia que tinhas tentado seduzir Liliane di­zendo-lhe: ‘François já não te ama, está apaixonado por Marie Dubois que entra no seu filme’ e eu achei isso la­mentável, mas comovente, sim, porque não, comoven­te, no limite
O romance de Liliane-François-Madeleine não esta­va feito para acabar bem. Como aliás o fim de Jules e Jim antecipava. E um ano depois de Jules e Jim – filme triste no seu todo e divertido nos pormenores – também o romance de Truf­faut acabava, com a separa­ção prosaica das partes. Madeleine partiu para Londres, divorciando-se mais tarde. François Truffaut foi para o Japão. Liliane Dreyfus casou-se. «Só para o irritar» disse ela. E acrescentou: «François foi uma grande paixão na minha vida. E creio que também contei muito para ele, porque, ao longo dos anos, conservou essa espécie de amizade, fidelidade e ciúme a meu respeito. Era um desses homens que ver­dadeiramente nunca conse­guimos deixar.» E de quem é que um homem ou uma mulher se hão-de separar se não daqueles que nunca verdadeiramente conseguem deixar.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Uma noite no sótão: com François e ménage à trois.

  1. Pedro Bidarra diz:

    Engraçado. Se pegássemos neste teu texto e ilustrássemos cada parágrafo com planos e sequências de filmes da NV (eu lembro-me de muitos mas mais haverá que não me recordo) faziamos um documentário sobre a vida dos realizadores da NV ilustrado com a obra deles; era só uma questão de montage.
    Se houvesse dinheiro pediamos um subsídio: assim teremos que fechar os olhos e realizar, cada um, o teu texto.

    • manuel s. fonseca diz:

      Pedro, “montage mon beau souci” é um dos textos mais bonitos que os tipos da “nouvelle vague” (e nem interessa qual), escreveram sobre cinema. Não podia, já vês, ter mais razão!
      Minto: podias! Terás todíssima a razão, aí sim, quando sobre este blogue alguém diga: era um texto daqueles Tristes do Escrever, e nem interessa qual, tão Tristes todos são.Ou será que já dizem?

  2. Rita V diz:

    Já sabem que a perche é comigo.
    😀

  3. Pedro Marta Santos diz:

    Já nem preciso de dizer que gostei. Há poucos livros (in)decentes sobre o sexo no cinema. Não o queres escrever, dottore, em versão bilingue? Eu faço um textinho sobre os cinzas mortais do “Vertigo” e as cordas sacrificiais do “Belle de Jour” e ganharemos milhões no acordo com a Phaidon.

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Este texto, comovente, sobre o amor, assinala que, de facto, basta ver os filmes de Godard e Truffaut para perceber bem a diferença entre os dois homens. Godard é mais brilhante, daria um belo jantar. Mas Truffaut seria um amigo para a vida.

  5. Panurgo diz:

    Nada de extraordinário. Os ricos é que têm paciência para o amor e a cabeça das mulheres pesa menos em Paris ou em hotéis de luxo. Boring, como se diz em estrangeiro.

  6. manuel s. fonseca diz:

    “Os ricos”??? eh lá Panurgo, estes tipos eram lá ricos! Talvez um bocadinho, muitos anos depois. Nesta altura, eram putos e tinham para a+i um 2 CV.
    Boring? Não me vai dizer, Panurgo, que tem o excitante harém de um mórmon…

    • Panurgo diz:

      Pior ainda. Pobres e já infectados de burguesia, de sentimentalismo, seduções toscas e cartinhas efeminadas… só com uma ruger .22. Fosse eu um tecno-artista destes (ou um “ganda jestor”) e havias de ver… um harém não, mas uma ganadaria, bovinos de luxo… gourmet… assim como assim, não. Paciência. Bom, mas também nunca gostei dos filmes do Truffaut. Já está tudo morto, de qualquer das maneiras.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Sempre pensei em Truffaut como o “principe” da NV, enquanto que Godart era o pistoleiro revolucionário, mas a relação com as divas faz um homem revelar-se…Agora a história fez-se destes episódios e destes grandes filmes.

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