Uma noite no sótão: com Greta Garbo

 Fugiu de tudo. De olhar para o espectador, de olhar para os outros actores, de olhar para si mesma. Fugiu de Hollywood e fugiu do mundo num domingo de Páscoa, em 1990.
Encontrei-a, agora, no sótão, vinte e dois anos depois. Está ali, sentada, branca como uma folha de papel, de olhos sabe Deus onde, há mais de uma hora, sem me dirigir uma palavra.
 

Com Garbo

Os diálogos de Rainha Cristina são de S.N. Behrman. Mas há pelo menos uma réplica que me apetece imaginar ter sido «metida» subrepticiamente por Greta Garbo, com a cumplicidade de Rouben Mamoulian. É uma declaração da rainha, mas é também o segredo mal guardado do mito que a actriz incarnou: «Toda a mi­nha vida fui um símbolo — um símbolo de eternas mu­danças — uma abstracção. Um ser humano é mortal e sujeito a variações, com de­sejos e impulsos, esperanças e desesperos. Estou cansada de ser um símbolo. Anseio tanto ser apenas humana. É um anseio que não consigo reprimir». Suponho que foi para isso, para ser apenas hu­mana, que abriu em 1941 o parêntesis que fechou, na hora da sua morte, no do­mingo de Páscoa de 1990, o exacto dia em que mais predis­postos estamos para acreditar na ressurreição dos mortos e no mundo que há-de vir.

Morte

O simples facto de se poder dizer agora: «morreu Greta Garbo», e de a afirmação não parecer um anacronismo, constitui a prova definitiva de que a Natureza é de compreensão lenta. Demorou quase meio século a entender que Greta Garbo tinha feito hara-kiri quando, depois de ser a «mulher de duas caras» no fil­me de Cukor, se retirou, cor­rendo a cortina da solidão e do esquecimento sobre a sua pessoa física, para muito melhor poder continuar a existir, na forma de sombra e de fantas­ma, nos sonhos dos homens. A «catedral» Garbo ficou, nesse momento, completa e perfeita, e o corpo de mulher que estava lá dentro sequestrado (expressão feliz de David Thom­son) passou a ser coisa privada. O que havia para morrer em Garbo, já tinha morrido no dia em que deixou Hollywood, fechando um ciclo e uma ideia de feminino a que se associava o mistério, a tragédia, a inaces­sibilidade, o cliché da mulher fatal. Uma ideia em que, aliás, nunca acreditou, o que retros­pectivamente dá um inespera­do toque de tragicomédia ao mito.

Rosto

Para falar do mistério do rosto de Greta Garbo, mesmo os críticos de cinema mais snobs se autorizam de vez em quando a resvalar para o famigerado senso comum. Re­ferem então a estrutura óssea, a conjugação dos lábios e dos olhos ou procuram inventar formas mais etéreas de chamar à pedra a forma esfíngica dela. Com os olhos trocados, houve mesmo um que disse: «O que, quando bêbados, vemos nas outras mulheres, vemos, sóbrios, na Garbo.» Mas vemos o quê? O historiador David Thomson saiu-se com uma boa: «Vemos fotogra­fias.» É a melhor e mais materialista das explicações. O que vemos, continua ele, são fotografias a preto e branco, ideias ideais, portanto, para dramatizar «a impureza da experiência que invade um rosto», o branco a servir-lhe a pele e o preto caindo-lhe na boca e nos olhos.

Imagem

A uma star não se pede que seja mais do que uma ima­gem. Não há sequer uma ponti­nha de dúvida: Garbo tinha do facto toda a consciência. Mas quem é que a terá aconselhado, terá havido ali mão escondida de mestres geniais? Mauritz Stiller, a quem Greta Gustafsson deve quase tudo, a começar pelo nome de guerra, pode ter sido (foi, claro que foi) o primeiro a dizer-lhe que ela só podia provocar vagas exacer­badas de paixão se se reduzisse apenas às duas dimensões da imagem. Rouben Mamoulian lembrou-se, na Rainha Cris­tina, de ser um Stiller minima­lista, pedindo à Garbo que re­presentasse imaginando que a sua cara era uma folha de papel em branco onde os espectado­res poderiam escrever o que quisessem.

E se tivesse sido a malfada­da indústria a cozinhar o segre­do da imagem? Quantos filmes é que Greta Garbo fez em Hollywood? Vinte e quatro, não é? Com contrato assinado pela MGM, sem direito a transferência a meio da época, e quase sempre — numa prova de que Louis B. Mayer ignora­va os efeitos balsâmicos das chicotadas psicológicas — com o mesmo director de foto­grafia, William Daniels. Ele conta que mal a viu a achou perfeita para os grandes-planos: «Especialmente por causa dos olhos deslumbran­tes.» Todavia, Daniels não se arroga a criação do «rosto da Garbo». Iluminava-a de acor­do com as necessidades das cenas, tentando sempre, con­fessa, que a câmara espreitasse para dentro dos olhos dela. Também confessa que, sem­pre que podia, lhe atirava a luz de muito alto, de modo a fazer as sombras das longas pestanas estenderem-se até às maçãs do rosto: «Tornou-se uma espé­cie de imagem de marca dela.» E mais: «Ela era sem­pre filmada em grandes-planos ou em planos gerais, qua­se nunca em planos médios ou em planos de corpo inteiro. Nestes últimos não ficava muito bem», afirma Daniels o que pode também querer dizer que na imagem dela só cabiam a cumplicidade avassaladora ou a mais olímpica das distâncias.

Olhar

Raramente fixava o olhar nos seus parceiros. O olhar de­la perde-se sempre num ponto indistinto fora de campo. A tragédia de Garbo traduz-se por ou nesse olhar, exacta­mente o oposto do olhar de Deus que nos segue por todo o lado. Cecil Beaton vai ao pon­to de dizer que sem esse genuí­no olhar vazio, Garbo não teria provocado «mais impressão do que Dolores dei Rio, uma gardénia sem perfume...» Aliás, quando chegou o sonoro e teve de começar a falar, tam­bém nunca falou para nin­guém. «Ela, escreveu Thom­son, diz as réplicas para ela mesma.» E depois acrescenta: «como se estivesse a ler». Garbo podia, por isso, por causa desse olhar fixo no infi­nito, por causa dos seus tão len­tos recitativos, ser uma actriz de Oliveira. Actriz, imagem, sem «persona» pelo meio.

 Rushes

Nunca via as filmagens do dia anterior. Cukor tentou, du­rante a rodagem de Camille, abanar-lhe o sonambulismo e espevitar-lhe o interesse. «Eu tenho uma certa ideia, uma certa noção, do que faço; e sempre que vou ver-me, aca­bo por achar tão fraco que fico sempre desapontada.» Em suma, fugia tanto dos ou­tros como de si própria. Lon Chaney, quem havia de dizer, gaba-se de ter sido ele a dar-lhe esse conselho: «Eu disse a Garbo que o mistério me ti­nha servido de perfeição e que serviria para ela tam­bém. Ela era inteligente e adoptou a minha política de nunca se deixar fotografar, excepto na pele das persona­gens e nunca dar entrevistas — e vejam como ela se saiu!»

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Uma noite no sótão: com Greta Garbo

  1. There is no one who would have me – I can’t cook.
    Greta Garbo

  2. Panurgo diz:

    O Expresso publicou isto? Parece um daqueles relatórios do Silva Carvalho… cuidado… ainda metem aí a circular que escreveu isto por ciumes à Bardot… calúnias!, a francesa é que é ciumenta e tal…

  3. manuel s. fonseca diz:

    Agora deixou-me embaraçado. Comparar-me à fina prosa John le Carré da espionagem portuguesa… Já ganhei o dia, Panurgo!

  4. Carla L. diz:

    O que mais posso dizer? Nada.O que os olhos da Greta Garbo não disseram, você disse. Só posso ser grata!

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Irresistíveis esses olhos…

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pós é podia ser uma atriz do Oliveira, a olhar um ponto indecifrável no horizonte…bem pensado, e melhor escrito!

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