Uma noite no sótão: com Katharine Hepburn e Spencer Tracy

O sótão estava que não se podia. Pareciam marido e mulher – talvez fossem marido e mulher – e discutiam já em bicos de pé. Não julguem que pus água na fervura. Quando são bons (quase sempre) eles são bons porque estão em guerra. Chamam-se Tracy e Hepburn. Atirei mais palha para o meio do fogo. Ardeu tudo. Só não disse a Tracy que afinal Hepburn quando era quase a mulher dele, também amou, ao mesmo tempo, John Ford. Que, à sua maneira de gostar de homens, muito gostava de Tracy.

A guerra dos sexos

Porque é que Katharine Hepburn é quem é no panteão da homossexualidade cinéfila, tão primeira como as primeiras que são Greta Garbo, Bette Davis e Judy Garland? Porque é que Spencer Tracy, símbolo de uma masculinidade serena, só comparável a Humphrey Bogart ou Clark Gable, resistiu como actor às reinterpretações ditadas pelas novas políticas sexuais?

Juntos, Spencer Tracy e Katharine Hepburn constituíram muita coisa. Constituíram, por exemplo, família de casa e pucarinho. Heterodoxa, porque Tracy nunca se separou em absoluto da família que já tinha, quando se apaixonou por Hepburn. E já que estamos com a mão na heterodoxia, pode alguém duvidar que eles constituíram o mais improvável dos pares que Hollywood formou? Bogart-Bacall, Mickey Rooney-Judy Garland, Laurence Olivier- Vivien Leigh, Fred Astaire-Ginger Rogers, mesmo Laurel & Hardy, quem, percorrendo a lista, se atreveria a dizer que não dava a bota com a perdigota?

Já outro galo canta se pensarmos em Tracy e Hepburn. Aliás, foi esse o fundamento do par: ver quem é que no fim de cada filme cantava de galo. Quando, a pedido do produtor Joe Mankiewicz, se encontraram pela primeira vez, foi Katharine Hepburn a primeira a levantar a crista.

Ela era alta – «não tão alta como pensava», lembra Garson Kanin, argumentista e cineasta que foi Íntimo do casal – e mais alta ficava porque calçava uns sapatos com plataformas que a faziam pairar um metro acima das cabeças dos homens do seu estúdio, que eram todos (pelo menos os que contavam) meias-lecas. Tracy era também  curtinho de pernas. Foi a primeira coisa que ela notou: «Você é bastante baixo, não é?», insinuou ela. Tracy calado estava e calado ficou. Foi Mankiewicz quem pôs água na fervura: «Não se preocupe querida. Ele corta-a à medida, quando as filmagens começarem.»

Nesse ano, 1942, filmaram Woman of the Year, dirigidos por George Stevens. Depois, e em particular nos filmes de George Cukor, foram o par prodigioso da década. Se calhar porque nada tinham em comum. Nem nas origens nem nos métodos. Tracy era de ascendência irlandesa e gostava de teatro, literatura, catolicismo, política e do sexo oposto. Poucos interesses, segundo Garson Kanin. Quase tudo, se me dão licença. E, além disso, era brutalmente solitário. Também bebia. De ficar de caixão à cova, uma semana inteira, fechado num quarto de motel.

Como é que este homem do povo, corpo quadrado, chegou a actor e a «o melhor actor da América», se quisermos acreditar no que dele disseram outros actores, como Bogart, Olivier ou Brando e cineastas como Cukor e Ford! Oh, e as coisas que ele dizia dos métodos e das técnicas! Um dia, viu-se metido numa conversa de actores sobre actores. Stanislavski, o Método, Olivier, tinham sido escalpelizados. Quiseram saber a opinião de Tracy. «Bom, disse, foram precisos 40 anos a fazer disto modo de vida para aprender o segredo. Não sei se abra agora mão dele.» Insistiram. «Okay, eu digo. A arte de representar é aprender as réplicas e não tropeçar na mobília.»

Katharine Hepburn era de outra família. De outras famílias também. «Aristocracia» de Connecticut para começar. Onde Tracy era um falso humilde era ela obstinada. E era ruiva, magra e angulosa onde Tracy era sólido e de olhos azuis. Hepburn chegou a Hollywood de Rolls-Royce. Na primeira entrevista negou ser casada, mas garantiu ter cinco filhos, três dos quais negros. Foi quase sempre assim, «hoity-toity girl», muito altiva e um tudo-nada desdenhosa. Mas aplicadíssima: era metódica e, segundo Kanin, podia fazer uma tese de doutoramento sobre cada um dos assuntos que tinha de representar.

O segredo deles, como par, paga imposto ao contraste. A fórmula dos argumentos dos nove filmes que fizeram juntos é relativamente simples: uma rapariga de classe é chamada à terra por um homem «tipo diamante em bruto». E sabe-se que nenhum público resiste ao espectáculo da realeza que abdica para se juntar de corpo, mas sobretudo de alma, ao plebeu. E mal seria se a tanto se resumisse o que fizeram, de Keeper of the Flame a Desk Set, passando pelo fabuloso Adam’s Rib. Nesses filmes, Katharine Hepbum incarnou acima de tudo um princípio de antagonismo. Uma espécie de ameaçador «black and decker» sempre a furar a parede da misoginia de Tracy.

No fundo, ela foi a mulher-masculina de que Tracy precisava, ou não fosse ele habitualmente bom em filmes de homens, a fazer par com Bogart, ou com Gable, ou com ele mesmo, como em Dr. Jekyll e Mr. Hyde. É um modo de ver.

Mas há outro. Hepbum era uma rebelde. Com causa, consciente ou não. A causa dela começara na família. A mãe fora sufragista, num tempo em que elas eram menos do que os dedos de uma mão. Katharine trouxe um  cheiro disso para Hollywood. Nos filmes dela o traço separador do masculino e do feminino era uma corda bamba. Tudo o que Hepbum representava – emancipação feminina, inteligência, mesmo algum vigor atlético –, teve de ser digerido para chegar ao público. O estômago que a digeriu chamou-se Spencer Tracy. É outro modo de lhes explicar a química.

Vendo-lhes os filmes cada espectador descobrirá mais e novas explicações. Se é que o par não se resume à lapidar definição de Tracy: «Habituámo-nos apenas a trabalhar juntos, e é tudo.»

Publicado no Expresso em Janeiro de 91. 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Uma noite no sótão: com Katharine Hepburn e Spencer Tracy

  1. Nesta coisa de alturas, reparei ontem que Sarkozy e Hollande são da mesma altura, fiquei sem saber se era truque cinematográfico ou vida real.

    E agora outra SCUT: repararás que passa sinais vermelhos, contramão, etc. e tudo para ir para os braços do amor. E o espetador está sentado na fronteira entre real e ficção, como sempre.

    A corrida é real e filmada num take. O efeito sonoro é de um motor Ferrari, mas o carro é um Mercedes, e quem o conduz é o próprio Lelouch

    • manuel s. fonseca diz:

      Well done. Ainda que o Lelouch não entre nos meus “sofisticados” gostos. Manias, que é que se há-de fazer….

  2. MJC diz:

    Dito de outro modo: souberam ser cúmplices!

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Tudo (tão bem ) dito e (magistralmente ) retratado, e “os dois” ficam para a (nossa)história, isso é que é…

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