Uma vez, tive uma pequena

Na semana passada, de acordo com o Público, o mais atrapalhado de todos os grandes jornais em língua portuguesa, o Banco Central da Noruega, que recentemente desfez-se de toda sua participação nas dívidas portuguesa e irlandesa, também reduziu sua participação de títulos em libra esterlina de 10% para 10%.

Fantástico, o Público cria um novo conceito: o de que empate é redução. Que isso deve ter algo a ver com o estado anímico de seus redatores nos últimos tempos, não se descarta. Mas até soava bem. Lembrava uma daquelas redundâncias que Gertrude Stein maneja com perícia de ourives.

E no entanto, depois, alertados pelos próprios comentários dos leitores, as cifras mudaram: “11% para 10%”. Quem não tivesse visto o surto de surrealismo do empate-redução tomaria essa redução de 1% por um desses fetiches quase eróticos. Se bem que 1% em casos assim é uma dinheirama e tanto. E que Gertrude Stein uma vez disse: “já fui pobre e já fui rica. É melhor ser rica”.

O que não escapa à atenção é o fato de os noruegueses ao mesmo tempo que se desfazem de títulos europeus de dívidas condenadas, investirem massivamente em títulos norte-americanos e dos emergentes: Brasil, México e Índia, nesta ordem. A Noruega responde por um dos PIB’s per capita mais elevados do mundo. E sem produzir muita coisa, além de algum oleozinho ali no Mar do Norte, uns cepos de madeira para pôr na lareira, algumas cifras, um bocado de bacalhau, muito outsourcing, para não falar de tédio e uma angústia existencial do tamanho de atiradores de elite auto-adestrados.

O principal gestor do Banco Central norueguês, por sinal, são fundos de pensão. (Aliás, os mesmos acionistas majoritários de empresas robustas como a Petrobrás e por aqui). Poucos recordam também que as discrepâncias de renda na Noruega são um tanto irrisórias. Esses fatores, contudo, não se apontam, pois vão de encontro aos privatistas de plantão. E seria mais ou menos como indicar que a excelência, a crème de la crème do mundo capitalista, é gerida por fundos de pensão de ex-funcionários públicos, aposentados em estado de social welfare. E, logo, é de se presumir que esses funcionários ganhassem um tanto melhor do que o Bradesco ou mesmo os bancos públicos pagam aos seus funcionários, seguindo a cartilha mais ou menos neo-liberal pela qual reza Frau Merkel e rezava um Monsieur Sarkosy que parece haver deixado bem pouca saudade, a despeito da cantante consorte.

Mas a pergunta simples, ainda não quer calar: afinal, de onde a Noruega retira tanta prosperidade? E não vale dizer que é dos olhos azuis e grises de suas bem nutridas moçoilas. Ou do petróleo e do gás do Mar do Norte, que não assoma à superfície assim aos borbotões. O mesmo óleo que os árabes possuem em quantidades muito mais, digamos, borbotômicas. E nem por isso são mais prósperos – embora talvez possuam mais cavalos árabes puro sangue. E borbotomizem mais ao mundo a prosperidade de seus emires, vizires e xeiques, que, por outro lado, não existem na Noruega.

Certamente a prosperidade do país de Ibsen e Munch não vêm da madeira de suas coníferas, que segundo Lennon sequer dá para acender direito. E aquecer um pouco, no caso de um caso extra-conjugal. E, logo, não deve ter qualquer serventia na indústria dos fósforos.

É, faz tempo que economia e nonsense parecem habitar a mesma vivenda. Ou sair por aí aos beijos e selinhos como Audrey Hepburn e Gregory Peck num feriado romano. Ou serem tão esquizóides quanto os que foram condenados a viver seis meses enfurnados na noite contínua de um desses fiordes nos cafundós do Polo. Naquela atmosfera insana, que se atesta nos filmes do vizinho Bergman. É certo que, em casos assim, ao menos a presença de uma Audrey, sem mais, nos compensaria bem melhor das polaridades de tão ímpio clima. Mesmo com aquecimento central. Agora, também, se vivêssemos em tempos mais sinceros, e, portanto, politicamente incorretos, daria para sair por aí assobiando Norwegian Wood? 

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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9 respostas a Uma vez, tive uma pequena

  1. No filme «Roman Holiday», Audrey Hepburn contracenou com Gregory Peck, e não com Cary Grant.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    perfeito. grato pela correção. já está lá.
    como diz rita lee: “se a deborah kerr que o gregory peck”.

  3. … Mas há de facto um filme em que Cary Grant e Audrey Hepburn contracenaram: «Charade».

    • Ruy Vasconcelos diz:

      mas aí é outra coisa: uma estação de esqui, paris… e pus cary grant em roma, quando era tão obviamente peck. e vivendo numa espelunca com um terraço espetacular, e audrey hepburn na banheira.
      enfim. de qualquer forma, lembro que a primeira vez que ouvi a palavra ‘charade’ foi numa canção do pink floyd: “big man, pig man, ha, ha, charade you are”.

  4. teresa conceição diz:

    Seja re-bem-vindo Ruy!
    Que saudades. Este brinde foi mesmo só para tchin tchin.
    Depois de o ler com atenção volto aqui para beber o resto da garrafa 🙂

    • Ruy Vasconcelos diz:

      menina, menina, teresa, viajante de vivo olho e destreza na mão de pintora.

  5. Rita V diz:

    teresa
    deixa um golo para mim
    ahoy there primo

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    querida prima, doudo para encontrá-la quando for por aí. e tomar um bom vinho. e temperar uma conversa direitinho. e pegar umas receitas consigo.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    E se calhar é o que devemos fazer, ir por aí a assobiar “norwegian wood”, gritar aos ouvidos de alguns senhores conhecidos “big ,man, pig man, ha, ha, charade you are”, e acabar a bebericar um bom copo de tinto …

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