Walter Benjamin

De Walter Benjamin sabia o básico: que era um filósofo e crítico de arte/literário judeu alemão, tornado célebre pelo seu ensaio “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica” e por todo o debate a que deu azo sobre a perda da aura da obra de arte; que teve uma vida trágica, a que pôs termo pelas suas próprias mãos quando fugia das tropas nazis; e que a sua única ligação a Portugal era, justamente, a de o suicídio ter ocorrido quando se encaminhava para o porto seguro que era o nosso país, nos primórdios da segunda guerra mundial, depois de ter percebido que, antes de lá chegar, ia ser interceptado pelos seus perseguidores.

Do básico que sabia sobre Benjamin não descobri nenhuma razão em especial que justificasse a adopção do seu nome como pseudónimo de um músico pop. Muito menos se o músico em questão não tivesse nascido em Berlim, cidade que viu nascer Benjamin, ou em berço judeu, nem revelasse particular simpatia pelos ideais marxistas que serviram de força motriz ao seu pensamento. Estranhei por isso. E mais estranhei ao ouvir a obra do músico homónimo, primeiro o single Airports and Broken Hearts, depois o álbum inteiro The Imaginary Life of Rosemary and Me, tudo – música, títulos e letras – sem a mais leve alusão ao filósofo alemão ou à sua obra.

Acontece que gostei mesmo do que ouvi. E não descansei enquanto não soube a origem do músico/compositor/cantor. Ou, sabia lá eu, da banda, porque podia até tratar-se de nome de banda. E, aí, é que eu estranhei tudo o que havia para estranhar. E porquê? Porque, afinal, o Walter Benjamin é bem português. Como o seu verdadeiro nome indica – Luís Nunes – é portuguesíssimo. Assim como portuguesíssima é a editora que o apresenta ao público, a Pataca Discos do João Paulo Feliciano. E dei comigo a pensar, olha, olha, agora que a única salvação do país parece assentar no que se consegue vender lá para fora, aqui está um belíssimo exemplo de um produto português altamente exportável. Com a grande vantagem de o rapaz ter sido inteligente ao ponto de perceber (ou a editora ou o produtor por ele) que, por mais talento que tivesse (e tem mesmo), com um nome como Luís Nunes não iria a lado nenhum da indústria musical. Bem pelo contrário, a um Walter Benjamin com música que fica no ouvido, é bem possível que se abram todas as portas. 

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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14 respostas a Walter Benjamin

  1. manuel s. fonseca diz:

    Grande ideia. E que tal chamar Karl Marx ao David Fonseca e Rosa Luxemburgo à Marisa? Também podíamos nós mesmos escolher nomes famosos para os Tristes.

    • Diogo Leote diz:

      Querido Líder, e para compensar o défice nessa matéria, com predominância de personagens femininas. Tenho a certeza que o Cardeal Richelieu apoia.

  2. Rita V diz:

    Loved it….

  3. Maracujá diz:

    Tiro-lhe o chapéu e faço-lhe uma vênia, caro Diogo!
    Belo achado, este seu!
    Muito interessante esbanjando sensualidade no ritmo e na voz.
    Promessa!?

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que grande volte de face!…eu à espera que o artista fosse primo do ensaísta….Muito interessante, e a música está entre “early Floyd”( lembrou-me o More), Tindersticks, e Ray Lamontage….

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, e aquelas segundas vozes lá atrás também fazem lembrar alguma música do Leonard Cohen. Mas tudo com uma personalidade própria.

  5. Vasco diz:

    Diogo, muito bom. Vou guardar. Tudo me soa algo familiar sem conseguir definir exactamente o quê. Talvez porque “Airports and broken hearts” ficaria bem como a banda sonora da minha vida entre os anos 1990 e 2000.
    Abraço!

    • Diogo Leote diz:

      Vasco, same feeling para mim, talvez com menos airports e mais broken hearts. Estava longe é de imaginar que a banda sonora era de autoria portuguesa. Um abraço para ti também!

  6. teresa conceição diz:

    Muito bom, Diogo. Também não fazia ideia de que eram portugueses.
    E este é um belo texto de apresentação. Agora já os vi ao vivo, numa small almost private session of our live cable tv, e fiquei ainda mais fã.

  7. Gostei muito, não conhecia. Concordo em absoluto com o que escreveu, Diogo.
    Grata por ter partilhado connosco esta sua descoberta.

    • Diogo Leote diz:

      Ora essa, é para mim um grande partilhar com outros a música de que gosto. Ainda bem que gostou, Paula. Talvez lhe dê vontade de partilhá-la também.

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