A bolacha de Ingmar Bergman

Julgo que o Sétimo Selo foi o primeiro filme de Bergman que vi. Devo tê-lo visto no Estúdio, a sala com vocação de arte e ensaio que nasceu da barriga da perna do cinema Restauração, em Luanda. Tenho a certeza de ter visto esse filme gélido, obscuro, medieval, num dos gloriosos Verões tropicais da minha adolescência. Ter a alma num lado, o corpo noutro, era um dualismo que não batia certo com Luanda e também eu não acertei o passo: adorei o filme sem ser capaz de o viver.

Foi numa mal-sucedida passagem discente por Portugal, pela Faculdade de Direito, num Inverno metropolitano, que acertei o relógio da minha Angst com a Angst do cinema de Bergman. Estreava-se, depois de longa proibição, Persona, com as inadjectiváveis Liv Ullmann e Bibi Anderssen. Ao tempo, havia em Lisboa , de geração recente, uma fantástica revista chamada “Cinéfilo”. Trazia, se não era uma entrevista, pelo menos abundantes declarações desse sueco elegante e metafísico. Numa delas, e cito de cor, perguntavam-lhe pela alma. Era o menos e era tudo o que haveria a perguntar-lhe. Bergman mais do que responder, pôs-se a lembrar e lembrou-se que a primeira vez que tivera uma ideia de alma fora na sua infância e não conseguia imaginar que a alma fosse outra coisa que não uma bolacha. A alma era uma bolacha que se desfazia na boca. Convenhamos que a imagem é estranha na boca luterana de Bergman. Conviria mais à língua que o católico estende à transubstanciada hóstia. Ia a pensar nisto enquanto caminhava, indiferente à abafada morrinha que caía esta manhã. Não era chuva que molhasse um tolo até que, de repente, pensei na alma e tive medo de ficar com a bolacha empapada.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Escrita automática. ligação permanente.

11 respostas a A bolacha de Ingmar Bergman

  1. Rafael Bento diz:

    Amigo Manuel vou revesitar os Bergmans para ver se consigo chegar a alguma coerencia intelectual/emocional que me anda a escapar.”Morangos Silvestres” o filme-fetiche do padre Janela na UCatolica na sua saudosa cadeira de sociologia.O tema da velhice e o caminho da resignacao que a morte provoca.”Fanny e Alexandre” uma critica a burguesia e todas as suas taras no principio do sec.XX.”Persona” profundamente psicologico.Preciso de o voltar a ver para ter alguma luz.Trata-se de uma actriz que deixa de falar/comunicar quando representa um classico grego.Parece que teve um encontro com o horror na foto do monge que se imola pelo fogo,ou da crianca judia com os bracos no ar.O encontro na praia de 2 jovens mulheres que se desinibem sexualmente com um comportamento impensavel.

    • manuel s. fonseca diz:

      Muito bom isso dos Morangos Silvestre ser o filme-fetiche do seu padre (honra lhe seja).

  2. E os anúncios dele ao sabão Bris? resumi a coisa num old post, deixo-te o link, está na secção do cinema é logo o primeiro:

    http://pratinhodecouratos.blogspot.pt/2012/01/decassetete-em-pau-preto-sem.html

    Outra frase do cinema “be brave my child” ( e a Luna é a Carroll Borland):

    • manuel s. fonseca diz:

      Os filmes publicitários do Bergman são uma delícia, quase em plano sequência o da operação. Vou roubar-tos.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Gosto da imagem da bolacha…Gosto de quase todos os Bergman que me acompanharam num período importante de crescimento, o Sétimo Selo assombrou-me desde sempre: vi-0 em 82, um filme de 1956 sobre um passado medieval. E tudo era actual, e tudo continua a ser actual… Enquanto tivermos “bolacha”, digo “alma”….

    • manuel s. fonseca diz:

      Bernard, gosto muito de muitos Bergman e passo-me com o Fanny e Alexander que bem gostava de ver, na versão longa, uma vez por ano.

  4. Rita V diz:

    o desfazer da b’lacha
    gostei

  5. Rafael Bento diz:

    Rita V tambem angolana/luandense…..apresento-me Rafael Bento humildemente ao seu dispor……..felicidades

Os comentários estão fechados.