A dor de cotovelo

Para irmos já à destrunfa: este vídeo é da TV Cultura.
Dito isto, mal sei quem seja Lupicínio Rodrigues. Compôs e cantou, bem entendido. E era de Porto Alegre, onde nasceu num dia de dilúvio: a parteira teve de vir de bote, tanta era a água que corria pelas ruas. Onde nasceu, morreu: parece que nunca de lá saiu ou se saiu foi à força ou por logo corrigida distracção.
Por muito que tenha amado a música, para pagar as contas foi dono de uma churrascaria. Não quero saber. É um gosto ouvi-lo: a sinceridade é um bom princípio para começar uma estética. O Brasil, creio, amou-lhe a simpática cara de yoda, a voz que tanto chorava a inconstância das mulheres. Cantarem-no hoje outras “vozes estabelecidas”, de Elis a Calcanhoto, é só, digo eu, um acidente de percurso.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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13 respostas a A dor de cotovelo

  1. fal diz:

    Que lindo, Manuel! 😮

  2. Luciana diz:

    Cresci em dores que, tão outras, foram sendo minhas. Gosto tudo na dor feito melodia das canções do Lupicínio (como Dolores, Maysa…). Gosto, também, de encontrá-lo aqui, tão bem assentado, uma dose na mão, um marejar no olho, triste.

    • manuel s. fonseca diz:

      Ora veja, Luciana, não cresci com ele e já estamos a beber um chope no primeiro boteco

  3. Margarida diz:

    Li algures que ele “elevou a dor de corno a género musical”. Parece-me bem!

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Delicioso…não conhecia…a beleza que anda por aí e nos passa ao lado!!!

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    que lembranças, manel. gosto de “felicidade” e de “nervos de aço” ( “você sabe o que é ter um amor, meu senhor/ ter loucura por uma mulher…”)
    grande lupicínio. sabe, faz um frio lascado em porto alegre esta época do ano. e em cidades próximas há quase mais alemães que na renânia.
    quanto a dom hélder câmara, que é cearense, quando tivemos nossa época de rito de passagem e inescapável banda – aí pelos loucos, ébrios anos 80 – o baterista era sobrinho-neto do arcebispo de olinda e recife. lembro que ele era alto e até bem apanhado, mas costumava namorar mulheres feias, que chamava de “princesinhas”. isso virou senha e troça. ele também fumava marijuana feito um caipora.
    *
    o sobrinho-neto, não o arcebispo. este, apesar de nanico como um anão de jardim, era um homem sábio. de muito vulto e dignidade.

    • manuel s. fonseca diz:

      Ruy, a net, essa coisa que é só futuro, passa o tempo a atropelar-nos com o passado. Está cá tudo, camadas e camadas de cemitérios.
      O sobrinho de dom helder ficou-me atravessado. Grande figura.

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