Afinal, o amor paga-se

o corpo ágil como uma navalha

 Imagino um anti-Nelsinho. Absolutamente intranscendente, nem sagrado, nem maldito. Alguém cujo corpo, treinado, ágil como uma navalha, seja uma pura massa de reflexos, indiferente ao sofrimento, indiferente ao êxtase. Ouço-o dizer:

Nunca coincidi com o amor. Só com a franqueza dos actos dele: teatro do amor, da essência dura do amor. De minuciosamente um corpo se enterrar noutro. E da descrição disso, do ranger da carne, dos acres fluídos.
Nada sei o que seja amor que não seja a aberrante pornografia do amor. A dor, o grito, a raiva são só sinais de dar e receber, a fanática forma de duas pessoas adultas e concordes, terrivelmente desamadas, fazerem da simulação da dor e da simulação do prazer, a massa do seu sangue.
Bates, bato, indecentes, obscenos, nus, sujos, estamos limpos. De quê? Da castração, dos circunlóquios puritanos coisa e tal. Queremos só saber de “orifícios penetrados”, dos dedos (e há sempre um a mais) que em duplos lábios se escondem. Não há mistério: o amor, como o teatro, paga-se.

dos dedos e há sempre um a mais

as imagens são de “O Obscuro Objecto do Desejo”, de Luis Buñuel

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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19 respostas a Afinal, o amor paga-se

  1. Sofia Mendes diz:

    Porém, é nessa crua coincidência dos corpos que se celebra a indiferença à razão.

    • manuel s. fonseca diz:

      A crua coincidência dos corpos é uma bela expressão a que até o raio da razão é sensível…

      • Sofia Mendes diz:

        Desconsiderando expressões feitas para descontruir e serem desconstruídas, as minhas e as suas, o amor nunca se paga. Dá-se e recebe-se, sendo o prazer de dar maior que o de receber, pois essa é a sua essência. Tudo o resto é um insulto à palavra.

        • manuel s. fonseca diz:

          Cara Sofia,
          Apesar do meu imenso gosto em concordar, aqui discordo e sem desconstrução.Discordo na gradação do dar e receber. Há quem só saiba dar e há quem só saiba receber: conheço as duas variantes e são ambas formas de amar. Às vezes de amar tanto que até faz medo.
          E sim, o amor paga-se. Não estou a falar do trivial – de pagar por sexo, esse é barato e de risco mínimo. Falo do amor que, para além desse amor civilizado, sensato, bem comportado, tem, de facto, variantes raivosas, cuspidas, malditas, mas de uma intensidade emocional em que duas pessoas (pelo menos) se fundem a um preço espiritual altíssimo. De ganhar a vida, de perder a vida. Paga-se sim. Não é cor-de-rosa, mas é amor e é um amor que ninguem pode insultar recusando-o.

          • Sofia Mendes diz:

            Permita-me também a ousadia de discordar da discórdia. E sem discurso requintado dizer que quem só recebe não ama, amar é dar sem se temer uma factura. E concordo que o amor não é cor-de-rosa. É vermelho da cor do sexo, dos filhos quando nascem das nossas entranhas, da vida que partilhamos com quem amamos e da morte que nos separa disso tudo.

            • Manuel S. Fonseca diz:

              Já ia dis­cor­dar outra vez de si, Sofia Men­des. Mas acho que não se deve des­me­re­cer quem saiba rece­ber: há quem não con­siga ter a cora­gem de rece­ber. Dar é mais fácil: pode sufocar-se o outro de tanto se lhe dar, esmagá-lo… E sim, as coi­sas que diz são amor, uma parte do amor. Há outras setes partes…

          • Sofia Mendes diz:

            O amor nunca é pecado. E obrigado pela discórdia, porque eu amo a discórdia sem ter medo da factura.

  2. Paga-se e caríssimo, com sal. Nem os 100 mil milhões para salvar os bancos espanhóis chegarão para pagar el deseo, agora imagina quando precisarão para salvar os bancos franceses e pagar l’amour.

    Aqui fica uma rumba com uma voz potente que é de borla:

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Tudo se paga, porque não o amor?
    A questão é que quase sempre se recebeu pouco para o que se pagou.
    Depois também há os roubos, e os sequestros…

    • fernando canhao diz:

      Por que sim. Aliás nem podia ser de outro modo uma vez que se está a obter tempo do alheio. Mesmo que o alheio não esteja presente e apenas com saudades nossas, deixando pela natureza das coisas de pensar nos seus “entes queridos” vivos ou mortos, que por serem garantidos baixaram de valor.

      Relativamente ao que se recebe tenho de discordar. Apenas se recebe o que ficou acordado. Imaginar mais valias apenas por uma questão de fé ou por imaginar que damos volta ao pónei parece-me estultícia. Socorrendo-me igualmente de Buñuel, lembro lhe Tristana (Deneuve) que após perder a perna (não me recordo qual das duas) baixa de valor, podendo a partir desse momento a ser de algum modo acessível a Fernando Rey, que tão bem desempenha o seu papel. Ou a Viridiana (Pinal) que ao tentar comprar o afecto dos desfavorecidos, acaba quase(?) violada valendo-lhe o primo, que no fim da história diz a empregada da hacienda: eu sabia que a minha prima ainda acabaria a jogar connosco.

    • manuel s. fonseca diz:

      Eu acho que o amor mais caro nem é este, o intranscendente…
      Ó Fernando, tenho de voltar a a ver Tristanas e Viridanas. Isto de andar só a ver westerns ainda dá cabo de mim.

  4. Rita V diz:

    … não sei bem se é de amor que falam!

    • fernando canhao diz:

      De modo algum, amor é amor de mãe.
      Creio que tinha ver com motorizadas Zundapp Santa Maria, verdadeiros 1ºs amores de um qualquer actual sexagenário pré acamado. As mudanças metiam-se com a ponta dos dedos na embraiagem, daí os 3 dedos estarem a mais. E depois apareceram as Hondas e outras Yamahas mas não tinham comparação.

    • manuel s. fonseca diz:

      Rita, no caso vertente tenho de discordar do Fernando e dizer-lhe que sim, que estou mesmo a falar do amor. É possívelk que as Zundapp e as Yamahas nem fossem grande coisa para o amor, mas lá que o amor viajava de Vespa…

  5. Benvinda Neves diz:

    Dou toda a razão ao António Eça de Queiroz que diz “Tudo se paga, por­que não o amor?
    A ques­tão é que quase sem­pre se rece­beu pouco para o que se pagou”- muito pouco, ou quase nada é o que se recebe às vezes pelo quase tudo que se paga por um amor.
    Será por envolvimento com quem “Nunca coin­cidiu com o amor. Só com a fran­queza dos actos dele”?
    No amor como no teatro, continuo a gostar que haja mistério, no desenrolar até ao fim.

    • manuel s. fonseca diz:

      Ser amor e as contas no fim estarem certas parece-me, cara Benvinda, uma impossibilidade. O amor é uma hipoteca que não há forma de amortizar: um dia a casa vai-se.

  6. Luciana diz:

    Pago. Talvez como Chicó (Auto da Compadecida)…

    ROSINHA: Peraí, meu pai. O que é que estava no contrato mesmo?
    MAJOR: Dez contos de réis ou uma tira de couro. […]
    GRILO: Couro, couro? […]
    MAJOR: É só uma tirinha, só uma tirinha.
    GRILO: Uma tirinha só e nem uma gota de sangue, que sangue não estava
    no contrato.
    MAJOR: Que história é essa?
    ROSINHA: A única palavra que se pronunciou nesse contrato foi couro,
    ninguém falou em sangue, não foi? […]
    GRILO: Ou o senhor tira o couro de Chicó sem tirar sangue ou o senhor não
    tira nada.

    (ou chamaria um Mercador para negociar libras de carne, mas Veneza está mais perto de si que de mim).

    • manuel s. fonseca diz:

      Pois é, Luciana, esse é um pagamento vicentino, pagamento por privação. Quem poderia negociá-lo bem e sem pranto seria a Maria Parda, boca seca, saudosa dos tempos em que o vinha corria pelas tabernas de Lisboa.

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